
FARID UD-DIN ATTAR

A
CONFERNCIA
DOS
PSSAROS


Crculo do Livro
1988

CIRCULO DO LIVRO S.A.
Caixa postal 7413 01051 So Paulo, Brasil 
Edio integral
Ttulo do original: "The conference of the birds" Copyright (c) da traduo inglesa 1954 C. S. Nott Traduo: Octavio Mendes Cajado, a partir da traduo inglesa 
de C. S. Nott
Capa: layout de Natanael Longo de Oliveira 
Traduo cedida para o Crculo do Livro por cortesia da Editora Cultrix Ltda., mediante acordo com Routledge & Kegan Paul Ltd. 
Venda permitida apenas aos scios do Crculo Composto pela Linoart Ltda.
Impresso e encadernado pelo Crculo do Livro S.A.
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A conferncia dos pssaros



      A conferncia dos pssaros (Mantiq ut-tair) foi escrita pelo poeta persa do sculo XII Farid ud-Din Attar, um dos maiores sufis de todos os tempos. Conquanto 
pouco se sai ba, com certeza, a respeito da sua vida, parece que nasceu em 1120, perto de Nishapur, no noroeste da Prsia. Durante quase quarenta anos viajou por 
muitos pases, estudando em mosteiros e colecionando os escritos de sufis devotos, juntamente com lendas e histrias. Diz-se que possua um conhecimento mais profundo 
das idias sufistas do que qualquer outra pessoa do seu tempo. A traduo para o ingls de C. S. Nott baseia-se na conhecida edio francesa, em prosa, de Garcin 
de Tassy, a verso que melhor transmite "o sabor, o esprito e os ensinamentos do poema de Attar".

Sumrio



Prembulo
I. Invocao
II. Renem-se os pssaros
III. A conferncia dos pssaros
Eplogo
Attar
Uma nota sobre os sufis
Glossrio

      
Prembulo
    
      O grande poema filosfico-religioso de Attar, Mantiq ut-tair, foi composto provavelmente na segunda metade do sculo XII. Desde esse tempo tem surgido, quase 
todos os anos, uma nova edio num ou noutro pas do Oriente Prximo.
      A traduo foi empreendida, em primeiro lugar, para entretenimento meu e de alguns amigos; mas, como  a verso mais completa que j apareceu em ingls, talvez 
interesse a um pblico maior. Vali-me, na maior parte dos casos, da traduo de Garcin de Tassy para o francs, cotejada com textos rabes, hindus e turcos (Paris, 
1863). Consultei tambm um texto persa, com a ajuda de um sufi amigo, e as trs tradues inglesas existentes, todas muito resumidas. A primeira, em versos, feita 
por Edward Fitzgerald,  a mais sentimental; a segunda  uma traduo muito literal de 1 170 dsticos dos 4 674 mathanawi originais, levada a cabo por Ghulam Muhammad 
Abid Shaikh na ndia, em 1911; e a terceira (a melhor das trs), em prosa,  a de Masani, que s traduziu a metade do original; esse trabalho foi impresso e publicado 
em Mangalor, na ndia, em 1924, tendo sido as folhas importadas e publicadas pela Oxford University Press. Faz muito tempo que as trs esto esgotadas. A traduo 
de Garcin de Tassy  completa e, como ele mesmo diz, "eu a fiz to literal quanto possvel, sem comprometer-lhe a inteligibilidade", conservando o sabor, o esprito 
e os ensinamentos do poema de Attar.
      Deixei de lado a segunda metade da invocao - excluda do texto hindu e abreviada no turco. O eplogo, totalmente omitido nos textos hindu e turco, varia 
em outros manuscritos; dele inclu apenas a primeira parte, visto que o resto, que consiste apenas em anedotas, surge como anticlmax. Foram tambm eliminadas ou 
condensadas umas poucas anedotas na histria, ou por parecerem iterativas, ou pela obscuridade do sentido. Mas tudo o que se relaciona com a "conferncia", a "fala", 
a "linguagem", o "discurso" ou o "parlamento" (como  variadamente chamado) dos pssaros, constante do manuscrito original, est aqui.
      Todas as notas sobre o texto esto includas no glossrio, a fim de no interromper a leitura; entre elas se incluem algumas de Tassy. Para as compilar e para 
redigir as notas sobre Attar e os sufis consultei, entre outras fontes, O dicionrio do Islam e A enciclopdia do Islam. Na enumerao das sees, segui a traduo 
de Tassy dos manuscritos originais. Se o leitor passar os olhos pelo glossrio antes de ler o livro, entender melhor muitas aluses; embora, como observa o prprio 
Tassy, o sentido seja, s vezes, obscuro.
      Os desenhos a pincel da srta. Adamson baseiam-se nos de um velho manuscrito persa de Mantiq ut-tair.
      C. S. Nott
      
I. Invocao
    
    
      Louvado seja o Santo Criador, que colocou o seu trono sobre as guas e fez todas as criaturas terrestres. Aos Cus concedeu o domnio e  Terra, a dependncia; 
aos Cus deu o movimento e  Terra, o descanso uniforme.
      Ergueu o firmamento acima da terra como uma tenda, sem colunas para sustent-la. Em seis dias criou os sete planetas e com duas letras criou as nove cpulas 
dos Cus.
      No princpio, iluminou as estrelas para que,  noite, os Cus pudessem jogar triquetraque.
      Dotou a rede do corpo de diversas propriedades e despejou poeira na cauda do pssaro da alma.
      Fez lquido o Oceano como sinal de servido, e os cumes das montanhas cobrem-se de gelo com medo dele. Secou o leito do mar e de suas pedras tirou rubis, e 
de seu sangue, almscar.
      As montanhas concedeu picos a modo de adagas, e valas a modo de cintos;  por isso que elas erguem a cabea, orgulhosas.
      s vezes, faz cachos de rosas saltarem da face do fogo. s vezes, joga pontes de um lado para outro sobre a face das guas.
      Fez um mosquito picar Nenrode, seu inimigo, que sofreu durante quatrocentos anos.
      Em sua sabedoria, fez a aranha tecer sua teia para proteger o maior dos homens.
      Espremeu a cintura da formiga para que parecesse um fio de cabelo, e f-la companheira de Salomo.
      Deu-lhe os mantos negros dos abssidas e um traje de brocado destecido digno do pavo.
      Quando percebeu que o tapete da natureza era defeituoso, emendou-o convenientemente.
      Tingiu a espada com a cor da tulipa; e do vapor fez uma cama de nenfares.
      Embebeu torres de terra em sangue a fim de poder tirar deles cornalinas e rubis.
      O Sol e a Lua - um de dia, outra  noite - prosternaram-se no p em adorao; e  da sua reverncia que lhes vem o movimento. Foi Deus quem estendeu o dia 
em alvura, e foi ele quem dobrou a noite e a enegreceu.
      Ao papagaio deu um colar de ouro; e da poupa fez um mensageiro do Caminho.
      O firmamento  como um pssaro que rufla as asas do jeito que Deus lhe ensinou, batendo a cabea na Porta como se fosse um martelo.
      Deus fez o firmamento para girar - a noite segue-se ao dia, e o dia,  noite.
      Quando ele sopra o barro, cria o homem; e, com um pouco de vapor, forma o mundo.
      s vezes, faz o cachorro ir  frente do viageiro; s vezes, usa o gato para mostrar o Caminho.
      s vezes, d o poder de Salomo a um cajado; s vezes, concede eloqncia  formiga.
      De um cajado faz uma serpente; e, por meio de um cajado, faz jorrar uma torrente de gua.
      Colocou no firmamento o orbe do orgulhoso, e prende-o com ferro quando, incandescente, ele mngua.
      Tirou um camelo de uma rocha e fez mugir o bezerro de ouro.
      No inverno, espalha a neve de prata; no outono, o ouro das folhas amarelas.
      Estende uma coberta sobre o espinho; e tinge-o com a cor do sangue.
      Ao jasmim d quatro ptalas e pe na cabea da tulipa um gorro vermelho.
      Depe uma coroa de ouro sobre a testa do narciso; e deixa cair prolas de orvalho dentro do seu santurio.
       idia de Deus a mente peleja em vo, a razo sucumbe; merc de Deus, o cu gira, a terra cambaleia. Desde o dorso do peixe at a lua, cada tomo  uma testemunha 
do seu Ser.
      Tanto as profundezas da terra como as culminncias do cu prestam-lhe sua homenagem particular.
      Deus produziu o vento, a terra, o fogo e o sangue, e por eles anunciou o seu segredo.
      Tomou do barro, amassou-o com gua e, depois de quarenta manhs, colocou nele o esprito que vivifica o corpo.
      Deus deu-lhe inteligncia para que ele pudesse ter o discernimento das coisas.
      Quando viu que a inteligncia tinha discernimento, deu-lhe conhecimento, para que ele pudesse pesar e ponderar. Mas quando o homem entrou na posse das suas 
faculdades, confessou sua impotncia e foi dominado pelo assombro, ao passo que seu corpo se entregou a atos exteriores. Amigos ou inimigos, todos inclinam a cabea 
sob o jugo que Deus, em sua sabedoria, impe; e, o que  surpreendente, ele nos vigia a todos.
      No princpio dos sculos, Deus usou as montanhas como pregos para fixar a Terra; e lavou o rosto da Terra com a gua do Oceano. Em seguida, colocou a Terra 
no lombo de um touro, o touro num peixe, e o peixe no ar. Mas, em que descansava o ar? Em nada. Mas nada  nada - e tudo o que  nada. Admira, pois, as obras do 
Senhor, embora Ele mesmo as considere nada. E, visto que s existe a sua Essncia,  certo que no h nada seno Ele. O seu trono est sobre as guas, e o mundo 
est no ar. Mas deixa as guas e o ar, pois tudo  Deus; o trono e o mundo so apenas um talism. Deus  tudo, e as coisas s tm valor nominal; o mundo visvel 
e o mundo invisvel so apenas Ele mesmo.
      No h ningum seno Ele. Infelizmente, porm, ningum pode v-lo. Os olhos so cegos, ainda que o mundo seja alumiado por um sol brilhante. Se te fosse possvel 
vislumbr-lo, perderias o juzo, e se o visses completamente perder-te-ias a ti.
      Todos os homens que tm conscincia da prpria ignorncia arregaam a fralda das vestes e dizem, sinceros: " tu, que no te deixas ver, embora nos faas conhecer-te, 
todo mundo  tu, e ningum seno tu  manifesto. A alma se esconde no corpo, e tu te escondes na alma.  tu, que ests escondido naquilo que se esconde, s mais 
do que tudo. Todos se vem em ti e te vem em tudo. Visto que a tua morada est cercada de guardas e sentinelas, como poderemos aproximar-nos da tua presena? Nem 
a mente nem a razo tm acesso  tua essncia, e ningum conhece teus atributos. Por seres eterno e perfeito, ests sempre confundindo o sbio. Que mais poderemos 
dizer, se no podes ser descrito?
       meu corao, se desejas chegar ao princpio da compreenso, caminha com cuidado. Para cada tomo h uma porta diferente, e para cada tomo h um caminho 
diferente que conduz ao Ser misterioso de que estou falando. Para nos conhecermos precisamos viver uma centena de vidas. Mas precisas conhecer a Deus por Ele mesmo 
e no por ti;  Ele que abre o caminho que conduz a Ele, no a sabedoria humana. O conhecimento d'Ele no est na porta dos retricos. O conhecimento e a ignorncia 
so neste caso a mesma coisa, pois no explicam nem descrevem. As opinies dos homens sobre isso surgem apenas na imaginao deles; e  absurdo tentar deduzir alguma 
coisa do que dizem: bem ou mal, eles o disseram de si mesmos. Deus est alm do conhecimento e alm da evidncia, e nada pode dar idia da sua Sagrada Majestade.
       vs, que dais valor  verdade, no procureis um smile; a existncia desse Ser sem igual no admite nenhum. Uma vez que no lhe compreenderam a mais mnima 
partcula, os profetas e os mensageiros celestes inclinaram a testa at o p, dizendo: "No te conhecemos como realmente deves ser".
      Quem sou eu, pois, para vangloriar-me de conhec-lo?  filho ignorante do primeiro homem, o califa de Deus na terra, forceja por participar do conhecimento 
espiritual de teu pai. Todas as criaturas que Deus arranca do nada para a sua existncia prostram-se diante dele. Quando quis criar Ado, f-lo sair de trs de uma 
centena de vus, e disse-lhe: " Ado, todas as criaturas me adoram; s adorado por tua vez". O nico que fugiu a essa adorao foi transformado de anjo em demnio. 
Amaldioado, no teve conhecimento do segredo. Enegreceu-se-lhe o rosto, e ele disse a Deus: " tu, que possuis a independncia absoluta, no me desampares".
      Respondeu-lhe o Altssimo: " tu, que ests amaldioado, sabe que Ado , ao mesmo tempo, meu administrador e rei da natureza. Caminha hoje diante dele e amanh 
queima para ele o ispand".
      Quando a alma se juntou ao corpo fez parte do todo; nunca houve to maravilhoso talism. Como a alma tinha uma poro do que  superior e o corpo uma poro 
do que  inferior, formavam uma mistura de barro pesado e esprito puro. Por essa mistura, tornou-se o homem o mais surpreendente dos mistrios. No conhecemos nem 
compreendemos coisa alguma do nosso esprito. Queres dizer alguma coisa sobre isso? Seria melhor que te calasses. Muitos conhecem a superfcie deste mundo, mas nada 
entendem das suas profundidades; e o mundo visvel  o talism que o protege. Mas esse talism de obstculos corpreos acabar se quebrando. Encontrars o tesouro 
quando o talism desaparecer; a alma se manifestar quando o corpo for posto de lado. Mas tua alma  outro talism;  outra substncia deste mistrio. Percorre, 
pois, o caminho que eu te indicar, mas no peas explicaes.
      Neste vasto oceano, o mundo  um tomo, e o tomo, um mundo. Quem sabe o que vale mais aqui, a cornalina ou o seixo?
      Arriscamos nossa vida, nossa razo, nosso esprito, nossa religio, para compreender a perfeio de um tomo. Costura os teus lbios e nada perguntes sobre 
o empreo ou o trono de Deus. Ningum conhece realmente a essncia do tomo - pergunta a quem quiseres. Os Cus so como uma cpula s avessas, sem estabilidade, 
que se move e no se move ao mesmo tempo. Um est perdido na contemplao desse mistrio -  vu sobre vu; outro  como a figura pintada na parede, e outro s consegue 
morder o dorso da prpria mo.
      Pensa nos que entraram no caminho do Esprito. Reflete no que aconteceu a Ado; calcula os anos que ele passou a lastimar-se. Contempla o dilvio de No e 
tudo o que esse patriarca sofreu nas mos dos maus. Considera Abrao, cheio do amor a Deus: sofreu torturas e foi lanado ao fogo. V o desventurado Ismael, oferecido 
em sacrifcio pelo amor divino. Volta-te para Jac, que ficou cego de tanto chorar pelo filho. Olha para Jos, admirvel tanto no poder como na escravido, no poo 
e na priso. Lembra-te do infeliz J, estendido no cho, presa de vermes e lobos. Pensa em Jonas, que, tendo-se desviado do Caminho, foi transferido da lua para 
a barriga do peixe. Acompanha Moiss desde o nascimento: uma caixa serviu-lhe de bero, e o fara o exaltou. Repara em Davi, que fez para si um peito de armas e 
cujos suspiros derreteram o ferro como se fosse cera. Atenta para Salomo, cujo imprio foi senhoreado por um djim. No te esqueas de Zacarias, cujo amor a Deus 
era to ardente que ele permaneceu em silncio quando o mataram; e Joo Batista, desprezado perante o povo, e que teve a cabea posta numa bandeja. Pasma diante 
do Cristo ao p da cruz, quando se salvou das mos dos judeus. E, finalmente, pondera em tudo o que o Chefe dos Profetas sofreu com os insultos e injrias dos maus.
      Depois disso, achas que ser fcil chegares ao conhecimento das coisas espirituais? Significa nada mais e nada menos do que morrer para tudo. Que posso dizer 
mais, se no h mais nada a dizer, e no sobrou um rosa sequer na roseira!  Sabedoria! No s mais que uma criana que mama; e a razo dos velhos e experientes 
se desgarra nesta busca. Como serei eu, nscio, capaz de chegar  Essncia? E ainda que chegue, como serei capaz de transpor-lhe a porta?  Sagrado Criador! Vivifica-me 
o esprito! Crentes e descrentes esto igualmente mergulhados no sangue, e minha cabea gira como os cus. No estou desesperanado, mas estou impaciente.
      Meus amigos! Somos vizinhos uns dos outros; eu quisera repetir-vos meu discurso dia e noite, para que no deixsseis, nem por um momento, de ansiar por sair 
 procura da Verdade.
      
II. Renem-se os pssaros
    
      Benvinda sejas,  Poupa!  tu, que foste guia do rei Salomo e o verdadeiro mensageiro do vale, que tiveste a boa fortuna de chegar aos confins do reino de 
Sab! Tua fala gorgeada com Salomo foi deliciosa; por teres sido sua companheira granjeaste uma coroa de glria. Precisas pr a ferros o demnio, o tentador e, 
feito isso, entrars no palcio de Salomo.
       Lavandisca, que te pareces com Moiss! Levanta a cabea e faze soar a charamela, para celebrar o verdadeiro conhecimento de Deus. Como Moiss, viste o fogo 
de longe; s, de fato, um pequeno Moiss no monte Sinai. Meu discurso  sem palavras, sem lngua, sem som; compreendo-o, pois, sem mente, sem ouvido.
      Benvindo sejas,  Papagaio! Em teu belo manto e colar de fogo, o colar se ajusta a um habitante do mundo inferior, mas o manto  digno do Cu. Pde Abrao 
safar-se do fogo de Nenrode? Quebra a cabea de Nenrode e torna-te amigo de Abrao, que era amigo de Deus. Quando te tiveres libertado das mos de Nenrode, veste 
o manto de glria e no temas o colar de fogo.
      Benvinda sejas,  Perdiz!  tu, que andas com tanta graa e te comprazes em voar sobre as montanhas do conhecimento divino! Ergue-te em alegria e reflete nos 
benefcios do Caminho. Bate com o martelo na porta da casa de Deus; e derrete, humilde, as montanhas dos teus desejos perversos para deixar sair o camelo.
      Saudaes,  Falco Real!  tu, que tens a vista penetrante, quanto tempo permanecers to violento e apaixonado? Finca tuas garras na letra do amor eterno, 
mas no rompas o selo enquanto no chegar a eternidade. Mistura o esprito  razo e v a eternidade anterior e a posterior como uma s. Quebra tua vil carcaa e 
instala-te na caverna da unidade, que Maom ir ter contigo.
      Saudaes,  Codorna! Quando ouves em teu esprito o alast do amor, o teu corpo de desejo responde: bal, com desprazer. Consome o teu corpo de desejo como 
o burro de Cristo e, logo, como o Messias, inflama-te com o amor do Criador. Queima esse burro e toma o pssaro do amor, para que o Esprito de Deus possa chegar 
felizmente a ti.
      Saudaes,  Rouxinol do jardim do Amor! Desfere tuas notas plangentes causadas pelas feridas e dores do amor. Arranca do corao meigos lamentos, como Davi. 
Descerra tua garganta melodiosa e canta as coisas espirituais. Com tuas canes, mostra aos homens o verdadeiro Caminho. Torna o ferro do teu corao mole como a 
cera e sers como Davi, ardente no amor de Deus.
      Saudaes,  Pavo do jardim das Oito Portas! Tu te afligiste por causa da serpente de sete cabeas, por cujo intermdio foste expulso do den. Se te livrares 
da serpente detestvel, Ado te levar com ele ao Paraso.
      Saudaes,  Excelente Faiso! Enxergas o que est muito longe e percebes o manancial do corao imerso no oceano de luz enquanto permaneces no poo da escurido 
e na priso da incerteza. Sai do poo e ergue a cabea para o trono divino.
      Saudaes,  meiga Rolinha, que emites doces gemidos! Saste contente e voltaste com a tristeza no corao para uma priso to estreita quanto a de Jonas. 
 tu, que vagueias para l e para c como um peixe, podes languir com malevolncia? Corta a cabea desse peixe para poderes alisar tuas penas nos pncaros da lua.
      Saudaes,  Pombo! Entoa tuas notas para que eu possa espalhar  tua volta sete chapas de prolas. Visto que o colar da f te envolve o pescoo, no te ficaria 
bem ser infiel. Quando entrares no caminho da compreenso, Khizr te trar a gua da vida.
      Benvindo sejas,  Falco! Tu, que alaste vo e, depois de te rebelares contra o teu amo, curvaste a cabea! Agenta-te convenientemente. Ests amarrado ao 
corpo deste mundo e, assim, longe do outro. Quando estiveres livre dos mundos, descansars na mo de Alexandre.
      Benvindo sejas,  Pintassilgo! Vem com alegria. Anseia por agir e vem como o fogo. Quando tiveres rompido teus vnculos, a luz de Deus se manifestar cada 
vez mais. Visto
      que o teu corao conhece os segredos de Deus, s fiel. Quando te houveres aperfeioado deixars de existir. Mas Deus subsistir.
      
III. A conferncia dos pssaros
       
      
1
Abre-se a conferncia
      Todos os pssaros do mundo, conhecidos e desconhecidos, estavam reunidos. Disseram eles:
      "Nenhum pas do mundo carece de um rei. Como se d, ento, que o reino dos pssaros no tenha um dirigente? Esse estado de coisas no pode continuar. Precisamos 
congregar nossos esforos e sair  procura de um soberano; pois nenhum pas pode ter uma boa administrao e uma boa organizao sem um rei".
      Principiaram, pois, a pensar em como planejar a busca. Emocionada e cheia de esperana, a Poupa adiantou-se e foi postar-se no meio dos pssaros reunidos em 
assemblia. Trazia no peito o ornamento que lhe simbolizava o ingresso no caminho do conhecimento espiritual; a crista na cabea era como a coroa da verdade, e ela 
possua o conhecimento do bem e do mal.
      "Queridos pssaros", principiou, "sou a que est empenhada na guerra divina, a mensageira do mundo invisvel. Tenho o conhecimento de Deus e dos segredos da 
criao. Quando algum carrega no bico, como eu, o nome de Deus, Bismillah, h de ter, por fora, conhecimento de muitas coisas ocultas. Meus dias, contudo, passo-os 
na intranqilidade, e no me ocupo de pessoa alguma, pois estou inteiramente ocupada com o amor ao rei. Sou capaz de encontrar gua por instinto e conheo muitos 
outros segredos. Falo com Salomo, e sou a primeira entre seus seguidores.  espantoso que ele no tenha perguntado nem procurado pelos que se achavam ausentes do 
seu reino, e, no entanto, quando fiquei longe dele por um dia, enviou mensageiros a todos os lugares; e como ele no pode ficar sem mim nem por um momento, meu valor 
est confirmado para sempre. Carreguei-lhe as cartas e fui sua companheira e confidente. O pssaro que est sendo procurado pelo profeta Salomo merece ter uma coroa 
na cabea. Como pode arrastar as penas no p o pssaro bem-falado de Deus? Durante anos jornadeei por mar e por terra, sobrevoei montanhas e vales. Cobri imensa 
extenso no tempo do dilvio; acompanhei Salomo em suas viagens e medi os limites do mundo.
      "Conheo bem o meu rei, mas, sozinha, no posso planejar encontr-lo. Abandonai vossa timidez, vossa presuno e vossa descrena, pois quem converte em luz 
a prpria vida est liberto de si mesmo; est liberto do bem e do mal no caminho do amado. Sede generosos com a vida. Ponde os ps na terra e parti, alegres, para 
a corte do rei. Temos um rei de verdade, que vive atrs das montanhas chamadas Kaf. Chama-se Simurgh e  o rei dos pssaros. Est perto de ns, mas ns estamos longe 
dele. O stio que habita  inacessvel, e nenhuma lngua consegue pronunciar-lhe o nome. Diante dele pendem cem mil vus de luz e treva, e nos dois mundos ningum 
tem o poder de disputar-lhe o reino. Ele  o senhor soberano e banha-se na perfeio da sua majestade. No se manifesta abertamente nem mesmo no local da sua habitao, 
e a esta nenhum conhecimento e nenhuma inteligncia podem chegar. O caminho  desconhecido, e ningum possui constncia para procur-lo, embora milhares de criaturas 
passem a vida anelando por isso. Nem mesmo a alma mais pura  capaz de descrev-lo, nem pode a razo compreend-lo: esses dois olhos esto cegos. No  dado ao sbio 
descobrir-lhe a perfeio nem ao homem de entendimento perceber-lhe a beleza. Todas as criaturas tm desejado chegar a essa perfeio e a essa beleza pela imaginao. 
Mas como palmilhar o caminho com o pensamento? Como medir a lua pelo peixe? Destarte, milhares de cabeas movem-se para l e para c, como a bola no jogo de plo, 
e s se ouvem lamentaes e suspiros de desejo. Muitas terras e mares esto no caminho. No imagineis que o percurso seja curto; e cumpre ter um corao de leo 
para percorrer essa estrada inslita, pois ela  muito longa e o mar  fundo. Anda-se laboriosamente num estado de assombro, s vezes sorrindo, chorando s vezes. 
Quanto a mim, sentir-me-ei feliz se descobrir, pelo menos, um vestgio dele.
      Isso seria, com efeito, alguma coisa, mas viver sem ele  uma desgraa. O homem no precisa proteger sua alma do amado, mas precisa estar preparado para lev-la 
 corte do rei. Lavai as mos desta vida se quiserdes ser chamados homens de ao. Por vosso amado, renunciai  vida a que tanto quereis, como homens dignos. Se 
vos sujeitardes com graa, o amado dar a vida por vs."
       
Primeira manifestao do Simurgh
      "Espantoso! A primeira manifestao do Simurgh verificou-se na China, no meio da noite. Uma de suas penas caiu na China e sua fama encheu o mundo. Todos fizeram 
um desenho da pena e dela formaram seu prprio sistema de idias, do que resultou carem numa confuso. A pena ainda est na galeria de quadros daquele pas; da 
o dito: 'Busca o conhecimento at na China!'
      "No fora essa manifestao e no se teria feito tanto barulho no mundo em torno do misterioso Ser. Este sinal de existncia  um testemunho de glria. Todas 
as almas levam uma impresso da imagem da pena. Visto que a sua descrio no tem ps nem cabea, nem princpio nem fim, j no e necessrio falar sobre ela. Agora, 
se algum de vs estiver disposto a enfrentar a estrada, preparai-vos e ponde os ps no Caminho."
      Assim que a Poupa terminou, os pssaros se puseram a discutir, emocionados, a glria desse rei, e, ansiando por t-lo como seu prprio soberano, mostraram-se 
todos impa cientes por partir. Resolveram ir juntos; cada qual se tornou amigo do outro e inimigo de si mesmo. Mas quando comearam a compreender quo longa e penosa 
seria a viagem, hesitaram e, apesar da aparente boa vontade, entraram a escusar-se, cada qual de acordo com o seu tipo.
      
2
O Rouxinol
      O amoroso Rouxinol foi o primeiro a adiantar-se, quase fora de si de paixo. Cada uma das mil notas do seu cantar extravasava emoo; e cada qual encerrava 
um mundo de segredos. Quando ele cantava esses mistrios, os pssaros silenciavam.
      "Conheo os segredos do amor", disse. "Repito a noite inteira meus cantos amorosos. No haver um Davi infeliz para quem eu possa cantar os salmos ansiosos 
de amor? Por minha causa emite a flauta seus meigos queixumes e o alade, seus lamentos. Crio um tumulto entre as rosas e no corao dos amantes. Ensino sempre mistrios 
novos e, a cada instante, repito novos cantos de tristeza. Quando o amor me subjuga o corao, meu canto  como o suspiroso mar. Quem me ouve deixa de lado a razo, 
ainda que figure entre os sbios. Quando me separo de minha querida Rosa fico desolado, deixo de cantar e no conto a ningum meus segredos. Meus segredos no so 
conhecidos de todos; s a Rosa os conhece com certeza. Estou to enamorado dela que no penso sequer na minha existncia; pois s penso na Rosa e no coral das suas 
ptalas. A jornada em demanda do Simurgh est acima das minhas foras; o amor da Rosa basta ao Rouxinol.  para mim que ela floresce com suas cem ptalas; que mais, 
portanto, posso desejar? A Rosa que hoje se enflora est cheia de desejo e sorri para mim com alegria. Quando mostra o rosto sob o vu, sei que o mostra para mim. 
Como pode, pois, privar-se o Rouxinol, nem que seja por uma s noite, do amor de sua feiticeira?"
      
3
A Poupa
      A Poupa replicou:
      " Rouxinol, tu, que serias capaz de ficar para trs, deslumbrado pela forma exterior das coisas, no te deleites mais com um apego to ilusrio. O amor da 
Rosa tem mui tos espinhos; ela te perturbou e dominou. Embora seja bela, sua beleza logo se esvai. Quem procura a prpria perfeio no deve deixar-se escravizar 
por um amor to fugaz. Embora o sorriso da Rosa te desperte o desejo, ele s te encher os dias e as noites de lstimas. Abandona a Rosa e enrubesce-te por ti mesmo: 
pois ela se ri de ti a cada nova primavera e depois j no sorri".
       
A Poupa conta a histria da princesa e do dervixe 
      Um rei possua uma filha linda como a lua, que era amada de todos. Seus olhos lnguidos e a suave embriaguez da sua presena despertavam paixo. Tinha o rosto 
alvo como a cnfora, e seus cabelos negros recendiam a almscar. A inveja dos seus lbios ressecava um rubi da mais pura gua, ao passo que o acar se derretia 
neles de vergonha. Por vontade do destino, um dervixe a viu, e o po que trazia lhe caiu das mos. Ela passou por ele como uma chama e, ao passar, riu-se. Ao v-lo 
assim, o dervixe caiu ao cho, quase sem vida. No conseguia descansar nem de dia nem de noite e chorava sem parar. Quando pensava no sorriso dela, derramava lgrimas 
como as nuvens derramam chuva. Esse amor desvairado durou sete anos, durante os quais ele viveu na rua com os cachorros. Afinal, os criados dela resolveram mat-lo. 
Mas a princesa, falando-lhe em segredo, disse:
      "Como  possvel que haja relaes ntimas entre mim e ti? Vai-te incontinenti ou sers morto; no fiques nem por mais um minuto  minha porta, mas levanta-te 
e vai". O pobre dervixe replicou:
      "No dia em que me apaixonei por ti deixei de preocupar-me com a vida. Milhares como eu se sacrificam pela tua beleza. Visto que teus homens esto dispostos 
a matar-me injustamente, responde a s uma pergunta: Por que sorriste para mim no dia em que te tornaste a causa da minha morte?"
      " nscio", volveu ela, "quando vi que estavas a pique de te humilhares, sorri de piedade. Posso sorrir de piedade, mas no de escrnio."
      Dito isso, desvaneceu-se como um penacho de fumaa, deixando o dervixe desolado.

4
O Papagaio
      Veio depois o Papagaio, com acar no bico, envergando uma roupa verde e trazendo ao pescoo um colar de ouro. O Falco no passava de um mosquito ao lado 
do seu esplendor: o tapete verde da terra  o reflexo das suas penas, e suas palavras so acar destilado. Ouam-no: "Homens vis com corao de ferro fecharam-me 
numa gaiola por ser eu to encantador. Enclausurado nesta priso, ambiciono a fonte da gua da imortalidade guardada por Khizr. Como ele, visto-me de verde, pois 
sou um Khizr entre os pssaros. Eu quisera ir  fonte dessa gua, mas uma mariposa no tem foras para alar-se  grande casa de Simurgh; basta-me a primavera de 
Khizr".
      Retrucou a Poupa:
      " tu, que no tens idia da felicidade! Aquele que no est disposto a renunciar  vida no  homem. A vida te foi concedida para que possas, por um instante, 
ter um digno amigo. Comea a percorrer o Caminho, pois no s nenhuma amndoa, s apenas a casca. Entra na companhia de homens dignos e segue livremente o Caminho 
deles".
       
O louco de Deus e Khizr
      Havia um homem louco de amor a Deus. Disse-lhe Khizr:
      " homem perfeito, queres ser meu amigo?" O interpelado retrucou:
      "Tu e eu no somos compatveis, pois bebeste grandes sorvos da gua da imortalidade, de modo que existirs para sempre, ao passo que eu desejo renunciar  
vida. No tenho amigos e nem sei como sustentar-me. E enquanto te ocupas em preservar tua vida, sacrifico a minha todos os dias.  melhor que eu te deixe, como os 
pssaros escapam da armadilha; por isso, adeus".
      
5
O Pavo
      Em seguida veio o Pavo, com penas de cem - como direi? - de cem mil cores. Exibia-se, virando-se de um lado para outro, como se fosse uma noiva.
      "O pintor do mundo," jactou-se ele, "pegou na mo o pincel do djim para modelar-me. Mas se bem eu seja um Gabriel entre os pssaros, minha sina no  ser invejado. 
Eu me dava bem com a serpente no paraso terreal, e por isso fui ignominiosamente escorraado de l. Os que confiavam em mim privaram-me de uma posio de confiana, 
e meus ps foram minha priso. Mas estou sempre  espera de um guia benevolente que me conduza para fora desta escura morada e me leve s manses eternas. No espero 
chegar ao rei de que falais, bastar-me- chegar ao seu porto. Como podeis esperar que me esforce por alcanar o Simurgh se j vivi no paraso terreno? No tenho 
outro desejo seno voltar a morar l. Nada mais tem qualquer sentido para mim."
      Redargiu a Poupa: "Ests te desviando do verdadeiro Caminho. O palcio deste rei  muito superior ao teu paraso. No podes fazer nada melhor do que te esforares 
por alcan-lo.  a morada da alma, a eternidade, o objeto de nossos verdadeiros desejos, a morada do corao, a sede da verdade. O Altssimo  um vasto oceano; 
o paraso da bem-aventurana terrena no passa de uma gotinha; tudo o que no for esse oceano ser loucura. Se podes ter o oceano, por que procuras uma gota do aljfar 
vespertino? Aquele que partilha dos segredos do sol deve, acaso, perder tempo com um grozinho de poeira? O que tem tudo preocupa-se com a parte? Ocupa-se a alma 
dos membros do corpo? Se queres ser perfeito busca o todo, elege o todo, s total".

O mestre e o discpulo
      Um discpulo perguntou ao mestre:
      "Por que foi Ado obrigado a sair do Paraso?" O mestre respondeu:
      "Quando Ado, a mais nobre das criaturas, entrou no Paraso, ouviu uma voz vibrante vinda do mundo invisvel: ' vs, que estais atados ao paraso terrestre 
por uma centena de laos, sabei que priva de tudo o que existe visivelmente aquele que, nos dois mundos, estiver identificado com o que surge entre mim e ele, de 
modo que venha a atar-se apenas a mim, seu verdadeiro amigo'. Para o amante, cem mil vidas nada so sem o amado. Quem viveu para alguma coisa que no fosse Ele, 
ainda que se tratasse do prprio Ado, foi expulso. Os habitantes do Paraso sabem que a primeira coisa a que devem renunciar  o corao".
      
6
O Pato
      Envergando o seu manto mais belo, o Pato saiu, tmido, da gua e subiu at a assemblia.
      "Ningum jamais falou a uma criatura mais linda nem mais pura do que eu," disse ele. "A cada hora fao as ablues costumeiras, e depois estendo sobre a gua 
o tapete da orao. Que pssaro  capaz de viver e mover-se na gua como eu? Nisto possuo um poder maravilhoso. Entre os pssaros sou um penitente de vista clara 
e roupas limpas; e vivo num elemento puro. Nada me  mais proveitoso do que a gua, pois nela encontro meu alimento e nela tenho minha morada. Se me vexam dificuldades, 
lavo-as na gua. guas claras alimentam a corrente em que vivo, no amo a terra seca. Assim sendo, se o meu nico cuidado  a gua, por que haveria eu de deix-la? 
Tudo o que vive vive pela gua. Como poderei cruzar os ares e voar at o Simurgh? Como haver algum como eu, que se contenta com a superfcie da gua, de ter a 
ambio de ver o Simurgh?"
      Contraveio a Poupa:
      " tu, cujo deleite reside na gua, que te ocupa toda a vida! Modorras, indolente, ali - mas l vem uma onda e te leva de roldo. A gua s  boa para os que 
tm boa compostura e o rosto limpo. Se assim s, muito bem! Mas por quanto tempo permanecers limpo e puro como a gua?"
       
A histria do homem piedoso
      Algum perguntou a um santo idiota: "Quais so os dois mundos que sempre nos ocupam o pensamento?"
      E o idiota respondeu: "Tanto o mundo superior quanto o inferior so como a gota d'gua, que  e no . Foi uma gota d'gua que se manifestou no princpio, 
e depois assumiu inmeras formas encantadoras. Todas as aparncias so como a gua. Nada  mais duro do que o ferro e, no obstante isso, ele sabe que se origina 
da gua. Mas nada do que tem por base a gua, incluindo o ferro,  mais real do que o sonho. A gua no  estvel".
      
7
A Perdiz
      A Perdiz aproximou-se a seguir, graciosa mas enfatuada. Acanhada, levanta-se do seu tesouro de prolas em suas vestes de aurora. Com os olhos orlados de sangue 
e o bico vermelho, voa com a cabea ligeiramente virada, carregando o cinto e a espada. Disse ela:
      "Gosto de errar por entre as runas, pois amo as pedras preciosas. Elas me acenderam um fogo no corao, e isso me satisfaz. Quando ardo em desejo por elas, 
as pedras que engoli como que se tingem de sangue. Muitas vezes, porm, vejo-me entre pedras e fogo, inativa e perplexa.  meus amigos, vede como vivo! Ser possvel 
despertar algum que dorme sobre pedras e engole cascalho?
      "Meu corao est ferido por uma centena de dores porque meu amor s pedras preciosas me prendeu  montanha. O amor s outras coisas  transitrio; o reino 
das jias  eterno, pois elas so a essncia eterna da montanha. Conheo as montanhas e as pedras preciosas. Com meu cinto e minha espada estou sempre  cata do 
diamante, e ainda no descobri uma substncia de natureza mais sublime do que as pedras preciosas - nem a prola  to bela. Ademais, o caminho para o Simurgh  
difcil, e meus ps esto presos s pedras como se estivessem enterrados no lodo. Como poderei esperar chegar corajosamente  presena do poderoso Simurgh com a 
mo na cabea e os ps no barro? Descobrirei pedras preciosas ou morrerei. Minha nobreza  evidente, e quem no pensa como eu no merece considerao".
      Acudiu a Poupa: " tu, que tens as cores de todas as pedras, mancas um pouco e ds desculpas coxas. O sangue do corao mancha-te as garras e o bico, e tua 
busca te avilta. As jias no so mais do que pedras coloridas, e, no entanto, o amor delas te endurece o corao. Sem as suas cores, no passariam de seixozinhos 
ordinrios. Quem tem o perfume no procura a cor; quem possui a essncia no a deixa pelo brilho da forma exterior. Procura a verdadeira jia de boa qualidade e 
no te contentes com a pedra".
      
A anel de Salomo
      Nenhuma pedra foi to famosa quanto a do anel de Salomo, embora fosse muito simples e no pesasse mais do que meio daneque. Mas quando Salomo fez dela um 
selo, toda a terra ficou sob o seu imprio. Estabeleceu-se-lhe o domnio, e sua lei se estendeu at os horizontes distantes. Conquanto o vento lhe carregasse a vontade 
a todos os quadrantes, ele s possua uma pedra de meio daneque. E disse:
      "J que o meu reino e o meu domnio dependem desta pedra, daqui por diante ningum ter tamanho poder". 
      Embora Salomo tenha se tornado um grande rei  custa do seu selo, este lhe atrasou o progresso no caminho espiritual; e ele chegou ao Paraso do den quinhentos 
anos depois dos outros profetas. Se uma pedra foi capaz de surtir esse efeito em relao a Salomo, que no poderia ela fazer a um ser como tu, pobre Perdiz? Afasta 
o corao das jias comuns. Procura a jia verdadeira e continua no encalo do Bom Joalheiro.
      
8
O "Humay"
      Agora era o Humay que se erguia diante da assemblia, o Doador da Treva cuja sombra confere pompa aos reis. Por isso recebeu o nome de "Humayan," o felizardo, 
visto que de todas as criaturas  a mais ambiciosa. E disse:
      "Pssaros da terra e do mar, no sou uma ave como vs. Move-me alta ambio, e, para satisfaz-la, separei-me das outras criaturas. Sujeitei o co do desejo, 
portanto sou Feridon e Jamshid dignificados. Erguem-se reis sob influncia da minha sombra, mas os homens que tm a natureza dos mendigos no me agradam. Dou um 
osso ao co do meu desejo e ponho meu esprito no seguro contra ele. Como podem os homens voltar o rosto quele cuja sombra cria reis? Toda gente procura abrigo 
debaixo das minhas asas. Necessito, porventura, da amizade do nobre Simurgh se tenho a realeza ao meu dispor?"
      Redargiu a Poupa: " escravo do orgulho! No estendas mais a tua sombra e no te vanglories mais de ti. Neste momento, longe de conferir poder a reis, pareces 
um cachorro entretido com um osso. No consinta Deus que ponhas um Chosres no trono. Mas supondo que a tua sombra entronize governantes, amanh eles sero presa 
do infortnio e despojados da realeza, ao passo que, se nunca tivessem visto a tua sombra, no teriam de enfrentar um ajuste de contas to terrvel no ltimo dia".
       
Mahmud e o sbio
Um homem piedoso, que estava no verdadeiro Caminho, viu em sonhos o sulto Mahmud e disse-lhe:
      " auspicioso rei, como vo as coisas no Reino da Eternidade?"
      Ao que o sulto replicou:
      "Espanca-me o corpo, se quiseres, mas deixa a minha alma em paz. No digas nada, e parte, pois aqui no se fala em realeza. Meu poder era apenas vaidade e 
presuno, fantasia e erro. Pode a soberania exaltar um punhado de terra? A soberania pertence a Deus, Mestre do Universo. Agora que me dei conta de minhas fraquezas 
e de minha impotncia, envergonho-me de minha realeza. Se quiseres dar-me um ttulo, d-me o de 'atormentado'. Deus  o Rei da Natureza, por isso no me chames de 
rei. O imprio pertence a ele; e eu seria feliz agora se fosse um simples dervixe na terra. Oxal tivesse ele uma centena de poos em que pudesse enfiar-me para 
que eu nunca fosse um soberano. Fora melhor ter sido respigador num milharal. Chama Mahmud de escravo. D minhas bnos a meu filho Masud, e dize-lhe: 'Se tiveres 
entendimento, toma ensino com o estado de teu pai. Que sequem as asas e as penas daquele Humay que lanou sua sombra sobre mim!'"
      
9
O Falco desculpa-se
      Veio, a seguir, o Falco, de cabea erguida e porte de soldado. E disse:
      "Eu, que me deleito na companhia de reis, no dou ateno a outras criaturas. Cubro os olhos com um capelo para poder pr os ps na mo do rei. Estou perfeitamente 
adestrado nas regras do proceder polido e pratico a abstinncia como qualquer penitente, de sorte que, levado  presena de um rei, cumpro minhas obrigaes exatamente 
como se espera que eu as cumpra. Por que haveria eu de ver Simurgh, ainda que fosse em sonhos? Por que haveria de correr desatinadamente para ele? No me sinto chamado 
a participar dessa jornada. Satisfao-me com um petisco das mos do rei; sua corte  tudo o que quero. Quem goza dos favores reais v realizado o seu desejo; e para 
ser agradvel ao rei, basta-me voar atravs dos vales sem limites. No tenho outro desejo seno passar a vida festivamente deste modo - esperando pelo rei ou caando 
para agradar-lhe". 
       

Resposta da Poupa
      Disse a Poupa:
      " tu, que ests apegado  forma exterior das coisas e no curas dos valores essenciais, o Simurgh  um ser cuja realeza lhe assenta bem porque  nico no 
poder. Nenhum rei verdadeiro exercita nesciamente a sua vontade. O rei verdadeiro  criterioso e magnnimo. Conquanto possa amide ser justo, o rei terreno tambm 
pode ser culpado de injustia. Quanto mais perto estivermos dele, tanto mais delicada ser a nossa posio. O crente no pode deixar de ofender o rei, de modo que 
sua vida est, no raro, em perigo. Visto que se compara o rei ao fogo, mantende-vos distantes!  vs, que tendes vivido ao p de reis, cuidado! Prestai ateno 
a isto: Era uma vez um nobre rei que tinha um escravo cujo corpo se diria feito de prata. Amava-o tanto que no podia separar-se dele nem por um minuto. Deu-lhe 
os mais belos trajes e colocou-o acima dos seus iguais. As vezes, porm, o rei divertia-se disparando setas; colocava uma ma na cabea do favorito e usava-a como 
alvo. E quando o rei desfechava o tiro, o escravo ficava amarelo de medo. Um dia, algum lhe perguntou:
      'Por que teu rosto tem a cor do ouro? No s o favorito? Por que, ento, essa palidez mortal?'
      E o escravo respondeu:
      'Se o rei me atingisse em vez de atingir o alvo, diria: - Este escravo  a coisa mais intil que h na minha corte; - mas quando a flecha atinge o alvo, todos 
atribuem o feito  sua percia. Pelo que me toca, nesta penosa situao, s me resta esperar que o rei continue a atirar bem!' "
      
10
A Gara
      A Gara chegou toda apressada e ps-se, de pronto, a falar de si:
      "Minha linda casa fica  beira do mar, entre as lagoas, onde ningum me ouve cantar. Sou to inofensiva que ningum se queixa de mim. Triste e melanclica 
quedo-me, pensativa,  beira do mar salgado, com o corao cheio de desejo da gua, pois se no houvesse nenhuma que seria de mim? Mas como no sou das que moram 
no mar,  bem possvel que eu morra um dia na praia, com a boca seca. Conquanto as guas fervam e as ondas venham quebrar-se a meus ps, no posso engolir uma s 
gota; entretanto, se o oceano viesse a perder um pouco da sua gua, meu corao arderia de aflio. Para uma criatura como eu, a paixo pelo mar  bastante. No 
tenho foras que me permitam sair em busca do Simurgh, por isso peo que me dispensem. Como poderia algum como eu, que busca apenas uma gota d'gua, atingir possivelmente 
a unio com o Simurgh?"
      Disse a Poupa: " ignorante do mar, no sabes que ele est cheio de crocodilos e outras criaturas perigosas? As vezes sua gua  amarga, s vezes salgada; 
s vezes  calma, s vezes turbulenta; est sempre mudando, nunca  estvel; s vezes flui, s vezes reflui. Muitos grandes foram engolidos pelo seu abismo. O mergulhador 
nas profundezas prende a respirao para no ser vomitado como uma haste de palha. O mar  um elemento sem lealdade. No te fies nele, pois poder acabar te afogando. 
 inquieto por causa do amor que dedica ao amigo. As vezes, rola grandes vagalhes, s vezes ruge. J que o mar no encontra o que deseja, como encontrars nele 
um lugar de descanso para o corao? O oceano  um riacho que se ergue no caminho que conduz
      ao amigo; por que, ento, ficarias aqui contente e no forcejarias por ver o rosto do Simurgh?"

O sbio e o oceano
      Um sbio que tinha por hbito ponderar no significado das coisas dirigiu-se ao Oceano e perguntou-lhe por que usava vestimentas azuis, j que o azul era a 
cor do luto, e por que fervia sem fogo.
      O Oceano respondeu ao homem contemplativo: "Sinto-me perturbado porque estou separado do meu amigo. Em virtude da minha insuficincia, no sou digno dele, 
por isso visto roupas azuis como sinal do remorso que me tortura. Na minha aflio, as praias dos meus lbios esto secas, e em razo do fogo do meu amor estou alvoroado. 
Pudesse eu encontrar uma s gota da gua celestial do Kausar e estaria de posse da porta da vida eterna. A mngua dessa gota, morrerei de desejo, como os milhares 
de outros que perecem no caminho".

11
A Coruja
      Adiantou-se a Coruja com ar perplexo e foi logo dizendo:
      "Escolhi para morar uma casa em runas e que est caindo aos pedaos. Nasci entre runas e nelas me aprazo - mas sem beber vinho. Conheo centenas de lugares 
habitados, mas alguns se acham em estado de confuso e outros em estado de dio. Quem quiser viver em paz dever procurar as runas, como fazem os loucos. S me 
sinto deprimida entre elas por causa do tesouro oculto. O amor ao tesouro arrasta-me para l, pois ele se acha entre as runas. Alm disso, posso esconder minha 
busca ansiosa e espero encontrar um tesouro que no esteja protegido por nenhum talism; se o meu p topar com algum, estar realizado o desejo do meu corao. Acredito 
que o amor do Simurgh no seja uma fbula, pois no o sentem os desatentos; mas sou fraca e estou longe de ser constante no seu amor, visto que s amo meu tesouro 
e minhas runas".
      A Poupa respondeu-lhe:
      " tu que ests bbeda do amor das riquezas, supe que encontres um tesouro! Pois bem, morrers sobre ele, e tua vida se ter esvado sem que tenhas alcanado 
o alto propsito de que, afinal, ests ciente. O amor do ouro  uma caracterstica dos pagos. Aquele que faz do ouro um outro  outro Thar. No te tornars, acaso, 
igual a um samiri dos israelitas, que fabricaram o bezerro de ouro? No sabes que todo aquele que se deixa corromper pelo amor ao ouro, ter, no dia da ressurreio, 
o rosto mudado, qual moeda falsa, e ficar com cara de camundongo?"
       
O avarento
      Um bbedo escondeu um cofre de ouro e, logo depois, morreu. Um ano mais tarde, seu filho viu-o em sonhos, na forma de um camundongo, com os olhos rasos d'gua, 
correndo de um lado para outro no local em que o ouro fora escondido. Perguntou-lhe o filho:
      "Que ests fazendo aqui?"
      "Escondi um pouco de ouro e vim ver se algum o descobriu", retrucou o pai.
      "Mas por que assumiste a forma de um camundongo?", volveu o filho.
      "Porque a alma do homem que renuncia a tudo por amor ao dinheiro assume essa forma", respondeu o pai. "Atenta para mim, filho, e tira proveito do que ests 
vendo. Renuncia ao amor ao ouro!"
      

12
O Pardal
      Veio ento o Pardal, de corpo frgil e terno corao, tremendo da cabea aos ps, como se fora uma chama. E disse:
      "Estou atnito e desanimado. No sei como existir e sou frgil como um fio de cabelo. Ningum me ajuda, e no tenho sequer a fora de uma formiga. Tampouco 
possuo penugem ou penas - nada. Como h de um covarde como eu viajar at onde est o Simurgh? Um simples pardal nunca o faria. No faltam no mundo os que procuram 
essa unio, mas ela no se coaduna com um ser como eu. No desejo encetar uma jornada trabalhosa como essa por algo que jamais alcanarei. Se eu partisse em busca 
da corte do Simurgh acabaria morrendo no caminho. Portanto, j que no estou, de modo algum, em condies de levar a cabo o empreendimento, contentar-me-ei com procurar 
aqui o meu Jos no poo. Se o encontrar e tirar dali, alarei vo com ele do peixe  lua".
      A Poupa recalcitrou:
      " tu que em teu desalento s por vezes triste, por vezes alegre, no me iludem tuas alegaes artificiosas. Pequeno hipcrita! At na humildade mostras uma 
centena de sinais de vaidade e orgulho. Nem mais uma palavra! Fecha o bico e pe-te a caminho. Se morreres, morrers com os outros. E no te compares a Jos!"
       
A histria de Jac
      Quando levaram Jos, seu pai, Jac, perdeu a vista  conta das lgrimas de sangue que vertiam seus olhos. O nome de Jos no lhe saa dos lbios. Por fim, 
o anjo Gabriel foi ter com ele e ameaou-o:
      "Se tornares a pronunciar, mais uma vez, a palavra Jos, riscarei o teu nome do rol dos profetas e mensageiros".
      Quando Jac recebeu essa mensagem de Deus, o nome de Jos foi levantado da sua lngua, mas ele no cessou de repeti-lo no corao. Certa noite, vendo Jos 
num sonho, quis cham-lo, mas lembrou-se da ordem de Deus, golpeou o peito e arrancou um suspiro triste do corao imaculado. Voltou, ento, Gabriel:
      "Deus disse que, se bem no tenhas pronunciado o nome 'Jos' com a lngua, suspiraste e com isso destruste todo o efeito do teu arrependimento".
      
13
Discusso entre a Poupa e os pssaros
      Todos os pssaros, um depois do outro, comearam, ento, a apresentar justificaes tolas. Desculpa-me, leitor, se no as repito, pois isso levaria muito tempo. 
Mas como podem tais pssaros enredar o Simurgh em suas garras? Assim sendo, a Poupa continuou o seu discurso:
      "Quem prefere o Simurgh  prpria vida precisa lutar corajosamente consigo mesmo. Se o teu estmago no digere sequer um gro, como participars do festim 
do Simurgh? Quando hesitas diante de um golezinho de vinho, como bebers a grande taa,  paladino? Se te falta a energia de um tomo, como encontrars o tesouro 
do sol? Se podes afogar-te numa gota d'gua, como irs das profundezas do mar s alturas celestiais? Este no  um simples perfume, nem tarefa para quem no tem 
o rosto limpo".
      Quando os pssaros acharam que o discurso terminara, voltaram a falar  Poupa:
      "Tu te encarregaste de mostrar-nos o caminho, tu, o melhor e mais poderoso dos pssaros. Mas somos frgeis, sem penugem nem penas, e, assim, como conseguiremos 
alcanar o Sublime Simurgh? S por um milagre. Dize-nos alguma coisa sobre esse maravilhoso Ser, nem que seja por meio de um smile, seno, cegos que somos, nada 
perceberemos do mistrio. Se houvesse alguma relao entre esse Ser e ns, ser-nos-ia muito mais fcil encetar a jornada. Mas do jeito que o vemos, ele pode comparar-se 
a Salomo, e ns, a formigas mendicantes. Como h de um inseto no fundo de um poo alar-se at o grande Simurgh? Ser a realeza o quinho do mendigo?"
       
Resposta da Poupa 
      Disse a Poupa:
      " pssaros sem aspirao! Como poder saltar  vontade o amor num corao privado de sensibilidade? Considerar a questo dessa maneira, que parece agradar-vos, 
no redundar em nada. Quem ama parte de olhos abertos rumo  sua meta e brinca com a prpria vida.
      "Quando o Simurgh se apresentou fora do vu, radioso como o sol, projetou milhares de sombras sobre a terra. E quando olhou para essas sombras, surgiram pssaros 
em grande quantidade. Portanto, os diferentes tipos de aves que se vem no mundo so apenas a sombra do Simurgh. Sabei, pois,  ignorantes, que, quando compreenderdes 
isso, compreendereis exatamente a vossa relao com o Simurgh. Refleti sobre o mistrio, mas no o reveleis. Quem adquire este conhecimento afunda-se na imensidade 
do Simurgh, embora no deva pensar, por isso, que  Deus.
      "Se vos tornardes isso de que vos falo no sereis Deus, mas estareis mergulhados em Deus. Um homem assim imerso transubstancia-se? Quando compreenderdes de 
quem sois a sombra tornar-vos-eis indiferentes  vida ou  morte. Se o Simurgh no pretendesse manifestar-se, no teria lanado a sua sombra; se tivesse desejado 
permanecer escondido, sua sombra no teria aparecido no mundo. Tudo o que  produzido por ela torna-se visvel. Se o vosso esprito no estiver afinado para ver 
o Simurgh, tampouco ser o vosso corao um espelho brilhante, ajustado para refleti-lo. Na verdade, nenhum olho  capaz de contemplar-lhe a beleza e maravilhar-se 
dela, nem  capaz de entendimento; no podemos sentir-nos, em relao ao Simurgh, como nos sentimos em relao  beleza deste mundo. Mas por sua graa abundante 
ele nos deu um espelho onde ele se reflete, e esse espelho  o corao. Olhai para o vosso corao e nele vereis a imagem do Simurgh".
       
O rei encantador
      Era uma vez um rei dotado de encanto e beleza incomparveis. A aurora era um relampejar do seu semblante; o anjo Gabriel, uma emanao da sua fragrncia; e 
o reino da beleza, o Coro dos seus segredos. Sua fama espalhava-se por todo o mundo, e todas as criaturas o amavam. Quando passava pela cidade a cavalo, cobria 
o rosto com um vu carmesim; mas at os que olhavam para o vu perdiam a cabea, e os que lhe pronunciavam o nome de repente cortavam a lngua. Milhares morriam 
por amor a ele; outros davam a prpria vida, crentes de que era melhor morrer naquele instante do que viver cem anos longe dele. Assombroso! No podiam suportar-lhe 
a presena por muito tempo e, contudo, no podiam viver sem ele. Entretanto, ele se mostrava aos que conseguiam suportar-lhe a vista; os que no o conseguiam tinham 
de contentar-se com ouvir-lhe a voz. Em vista disso, o rei ordenou que se confeccionasse um espelho para que seu rosto fosse visto indiretamente. O espelho foi colocado 
no alto do palcio, e o rei ia mirar-se nele para que todos pudessem ver-lhe o reflexo.
      O mesmo sucede conosco. Se amas a beleza do teu amigo, entende que o teu corao  o espelho, v nele o teu rei na manso da sua glria. As aparncias todas 
nada mais so do que a sombra misteriosa do Simurgh. Se ele te houvesse revelado a sua beleza, tu a terias reconhecido na sua sombra. Ainda que existissem trinta 
pssaros Simurgh, ou quarenta, s lhe verias a sombra. O Simurgh no se distingue da prpria sombra, e afirmar o contrrio  laborar em erro; um e outro existem 
juntos. Busca a reunio; ou melhor, deixa a sombra e descobrirs o Segredo; se tiveres sorte vers o Sol na sombra; mas, se te perderes na sombra, como realizars 
a unio com o Simurgh?

Mahmud e Ayaz
      Perseguido pelo mau-olhado, Ayaz precisou deixar a corte do sulto Mahmud. Desesperado, caiu em profunda melancolia, deitou-se na cama e ps-se a chorar. Quando 
Mahmud soube disso, ordenou a um dos seus serviais:
      "Vai ter com Ayaz e dize-lhe: 'Sei que ests triste, mas eu tambm estou no mesmo estado. Embora meu corpo esteja longe de ti, meu esprito est perto.  tu 
que me amas, no me ausento de ti nem por um momento. Com efeito, o mau-olhado fez mal afligindo uma criatura to encantadora!' " E, logo, acrescentou:
      "Vai incontinenti, vai como o fogo, vai como a gua que jorra, vai como o raio antes do trovo!"
      Partiu o servial como o vento e, num instante, chegou aonde estava Ayaz. Mas ali j encontrou o sulto, sentado diante do escravo. E, tremendo, disse para 
si: "Que infelicidade ter de servir a um rei! Meu sangue, sem dvida, ser derramado hoje!" Em seguida, dirigindo-se ao sulto, afirmou:
      "Asseguro-vos que no parei nem por um momento, nem sentado nem de p; como foi, ento, que o rei chegou aqui antes de mim? O rei no me acredita? Se fui negligente 
de algum modo, penitencio-me".
      "No s Mahram", respondeu Mahmud, "como poderias, pois, viajar como eu? Vim por um caminho secreto. Quando pedi notcias de Ayaz, meu esprito j estava com 
ele."

14
A Poupa lhes fala da viagem proposta
      Quando ela concluiu o seu discurso, os pssaros comearam a entender alguma coisa dos mistrios antigos e da relao entre eles e o Simurgh. Mas conquanto 
sentissem o desejo de fazer a viagem, hesitavam em partir, pois as dvidas ainda lhes perturbavam a mente. Por isso disseram  Poupa:
      "Queres que abandonemos, desde j, a nossa existncia tranquila? Ns, frgeis pssaros, no podemos esperar encontrar, sozinhos, o caminho da sublime morada 
em que o Simurgh tem o seu ser".
      A Poupa replicou:
      "Falo-vos como vosso guia. Quem ama no pensa na prpria vida; para amar de verdade o homem precisa esquecer-se de si, ser asceta ou libertino. Se os vossos 
desejos no esto de acordo com o vosso esprito, sacrificai-os, e chegareis ao termo da viagem. Se o corpo de desejo obstrui o caminho, rejeitai-o; em seguida, 
dirigi a vista para a frente e olhai. Um ignorante perguntar: 'Qual  a conexo entre crena ou descrena e amor?' Pois eu digo: 'Os amantes, acaso, do valor  
vida? O amante ateia fogo a toda esperana de colheita, encosta a lmina na garganta, perfura o corpo. Com o amor vem a tristeza e o sangue do corao. O amor ama 
as coisas difceis'.
      " Escano! Enche-me a taa com o sangue do meu corao e, se no restar mais nada, d-me a borra. O amor  uma dor cruel que tudo devora. s vezes rasga 
o vu da alma, s vezes puxa-o. Um tomo de amor  prefervel a quanto existe entre os horizontes, um tomo da sua dor  melhor do que o amor feliz de todos os amantes. 
O amor  a prpria medula dos seres; mas no pode haver amor verdadeiro sem verdadeiro sofrimento. Quem quer que esteja bem alicerado no amor renuncia  f,  religio, 
 descrena. O amor abrir a porta da pobreza espiritual, e a pobreza mostrar o caminho da descrena. Quando no subsistirem nem a descrena nem a religio, vosso 
corpo e vossa alma desaparecero, e sereis ento dignos dos mistrios - esta  a nica maneira de sond-los, se o quiserdes.
      "Avanai, pois, sem medo. Abandonai as coisas infantis e, acima de tudo, tende coragem; pois uma centena de vicissitudes vos saltear de surpresa."

A histria do xeque San'An
      O xeque San'an era no seu tempo um santo homem que se aperfeioara em alto grau. Durante cinquenta anos permanecera em seu retiro, em companhia de quatrocentos 
discpulos, que trabalhavam dia e noite o prprio esprito. 
      Seus grandes conhecimentos eram beneficiados pela revelao exterior e interior. Levara grande parte da vida realizando peregrinaes a Meca. Eram sem nmero 
suas oraes e jejuns, e ele no omitia uma prtica sequer dos sunitas. Levava a cabo milagres e, com o hlito, curava doentes e deprimidos.
      Uma noite sonhou que fora de Meca  Grcia, onde adorara um dolo; e, acordando, pesaroso, do sonho opressivo, comunicou aos discpulos:
      "Preciso partir imediatamente para a Grcia a fim de descobrir o significado desse sonho".
      Deixou a Caaba em companhia dos quatrocentos discpulos e, afinal, chegaram  Grcia. Percorreram o pas de um extremo a outro e, um belo dia, entraram num 
lugar em que viram uma moa sentada num balco. A moa era crist, e a expresso de seu rosto mostrava que ela possua a faculdade de ponderar nas coisas de Deus. 
Sua beleza era como o sol no auge do esplendor, e sua dignidade a fazia parecida com os signos do Zodaco. Invejosa da sua radincia, a estrela-d'alva se demorava 
acima de sua casa. Quem quer que prendesse o corao nos fios de seus cabelos cingia o cinto de cristo; e aquele cujo desejo pousava no rubi dos seus lbios perdia 
a cabea. A lua assumia um tom mais escuro  custa do negrume de suas melenas, a terra da Grcia se arrugava em razo da beleza das suas sardas. Seus olhos eram 
uma cilada para os amantes; suas sobrancelhas arqueadas formavam foices melindrosas sobre luas gmeas. Quando o poder lhe alumiava as pupilas dos olhos, cem coraes 
se tornavam presa sua. Brilhava-lhe o rosto qual chama viva, e os midos rubis de seus lbios seriam capazes de deixar com sede o mundo inteiro. Seus clios langorosos 
lembravam uma centena de adagas, e sua boca era to pequena que nem as palavras conseguiam passar por ela. Sua cintura, esguia como um fio de cabelo, vivia apertada 
pelo zunnar; e a covinha de prata de seu queixo vivificava tanto quanto os sermes de Jesus.
      Quando ela erguia um cantinho do vu, incendiava-se o corao do xeque; e um s fio dos seus cabelos atava-lhe o lombo com cem zunnars. Ele no conseguia despregar 
a vista da moa crist, e tamanho era o seu amor que a vontade lhe escorregou das mos. Dos cabelos dela, a descrena espargiu-se-lhe sobre a f. E ele gritou:
      "Oh, como  terrvel o amor que sinto por ela! Quando a religio nos desampara, para que presta o corao?"
      Quando os companheiros compreenderam o que se passava e viram o estado a que ele ficara reduzido, levaram as mos  cabea. Alguns tentaram raciocinar com 
ele, mas o xeque recusou-se a prestar-lhes ateno. No fazia outra coisa o dia inteiro seno ficar de p, com o olhar pregado no balco e a boca aberta. As estrelas, 
que brilhavam como lmpadas, tomavam emprestado o calor daquele santo homem, cujo corao se conflagrara. O seu amor foi crescendo at deix-lo fora de si.
      " Senhor", orou ele, "tenho jejuado e sofrido na vida, mas nunca sofri como agora; estou em tormento. A noite  to longa e to negra quanto os cabelos dela. 
Onde est a lmpada do Cu? T-la-o apagado os meus suspiros ou ela se escondeu de inveja? Onde est a minha boa fortuna? Por que no me ajuda a conquistar o amor 
dessa moa? Onde est a minha razo para que eu possa fazer uso dos meus conhecimentos? Onde esto minhas mos para me cobrirem de cinzas a cabea? Onde esto meus 
ps para levar-me  minha amada, e meus olhos para ver-lhe o rosto? Onde est a minha amada para dar-me o seu corao? Que  este amor, este sofrimento, esta dor?"
      Os amigos do xeque foram procur-lo de novo. Disse um deles:
      " digno xeque, ergue-te e afugenta a tentao. S senhor de ti e executa as ablues ordenadas".
      "No sabeis que esta noite fiz uma centena de ablues e todas com o sangue do meu corao?", replicou ele.
      Outro acudiu:
      "Onde est o teu tero? Como podes orar sem ele?"
      E o xeque respondeu: "Atirei fora o meu tero para poder cingir-me com o zunnar cristo".
      " santo velho, se pecaste, arrepende-te sem demora", sobreveio outro.
      "Arrependo-me agora", retrucou ele, "de haver seguido a verdadeira lei, e s desejo abrir mo dessa absurdidade."
      "Deixa este lugar e vai adorar a Deus", insistiu outro.
      E ele retrucou:
      "Se o meu dolo estivesse aqui, prosternar-me-ia diante dele".
      E outro: "Queres dizer que no tentars sequer arrepender-te? J no s um seguidor do Islam?"
      "Ningum se arrepende mais do que eu de s agora haver-me apaixonado", replicou o xeque.
      E outro ainda: "As regies infernais estaro  tua espera se teimares em palmilhar este caminho; mas vigia-te e as evitars".
      "O inferno s est a por causa dos meus suspiros, que seriam capazes de alimentar sete infernos."
      Vendo que suas palavras no produziam efeito sobre o xeque, se bem o tivessem seguido a noite toda, os amigos se foram. Entrementes, o Turco da Manh, de sabre 
e escudo de ouro, cortou a cabea da Noite Negra, de modo que o mundo da razo se banhou na radincia do Sol. O xeque, joguete do seu amor, vagabundeou com os cachorros 
e ficou sentado, durante um ms, na rua,  espera de uma ocasio que lhe permitisse ver o rosto dela. O p era a sua cama, e o degrau da porta da casa da moa crist, 
o seu travesseiro.
      Vendo, ento, que ele estava irremediavelmente apaixonado, a formosa crist cobriu o rosto com o vu e disse-lhe:
      " xeque, como se d que tu, um asceta, estejas to bbedo do vinho do politesmo e te assentes numa rua crist nesse estado? Se me adorares desse jeito acabars 
ficando louco".
      Ao que o xeque respondeu:
      "Isso foi porque me roubaste o corao. Devolve-mo ou aceita o meu amor. Se quiseres, sacrificarei minha vida por ti, mas podes recuperar essa vida com um 
toque dos teus lbios. Por tua causa meu corao est conflagrado. Derramei lgrimas como chuva, e meus olhos perderam a vista. Onde existia um corao agora s 
existe sangue. Se eu me unisse a ti recobraria a vida. s o sol, eu sou a sombra. Sou um homem perdido, mas, se te inclinares para mim, tomarei debaixo das asas 
as sete cpulas do mundo. Imploro-te, no me deixes!"
      " velho tolo!", contraveio ela. "No tens vergonha de usar a cnfora por sudrio? Deverias corar por sugerir intimidade comigo com o teu hlito frio! Fora 
melhor que te envolvesses numa mortalha do que perderes tempo comigo. No podes inspirar amor. Vai-te!"
      "Dize o que quiseres, que ainda assim te amo", voltou o xeque. "Que importa que sejamos moos ou velhos se o amor toca todos os coraes?"
      "Muito bem", disse ela, ento. "J que no te deixas convencer, ouve o que te digo. Lava as tuas mos do Islam; pois o amor que no se identifica com a amada 
no passa de cor e perfume."
      "Farei quanto quiseres", conveio ele. "Empreenderei tudo o que ordenares,  tu, cujo corpo  igual  prata. Sou teu escravo. Enrola um anel dos teus cabelos 
no meu pescoo para lembrar-me da minha escravido."
      "Se s homem de ao", tornou a jovem crist, "ters de fazer quatro coisas: prostrar-te diante dos dolos, queimar o Coro, beber vinho e fechar os olhos 
para a tua religio."
      Ele respondeu:
      "Beberei vinho em homenagem  tua beleza, mas no posso cumprir as outras trs exigncias".
      "Muito bem", assentiu ela, "vem beber vinho comigo, que dentro em pouco aceitars as outras condies."
      E conduziu-o a um templo de magos, onde se lhe deparou estranhssimo ajuntamento. Sentaram-se  mesa de um banquete, a que a convidaram por sua beleza. Ela 
estendeu-lhe uma taa de vinho, e quando ele pegou na taa e olhou para os risonhos rubis dos lbios dela, como duas tampas de um escrnio, o fogo ardeu-lhe no corao 
e uma torrente de sangue afluiu-lhe aos olhos. Tentou lembrar-se dos livros sagrados que lera e escrevera sobre religio, e do Coro, que to bem conhecia; mas quando 
o vinho lhe passou da taa para o estmago, esqueceu-os todos; desvaneceu-se-lhe o saber espiritual. Perdeu o livre-arbtrio e deixou o corao cair-lhe das mos. 
E quando tentou pr a mo no pescoo dela, a moa refugou-o:
      "Apenas finges amar. No compreendes o mistrio do amor. Se estiveres seguro do teu amor encontrars o caminho das minhas madeixas. Perde-te na descrena com 
a ajuda dos meus cabelos; segue-lhes as mechas e poders pr a mo no meu pescoo. Mas se no quiseres seguir o meu caminho, levanta-te e vai; e leva a tua capa 
e o teu cajado de faquir".
      Ouvindo isso, o amoroso xeque sentiu-se desalentado; e cedeu, sem mais cerimnias, ao seu destino. O vinho que bebera tornara-lhe a cabea to varivel quanto 
uma bssola. O vinho era velho e o seu amor era jovem. Em que outra coisa poderia ele ter-se transformado seno num bbedo apaixonado?
      " Esplendor da Lua", exclamou, "dize-me o que desejas. Se eu no era um alcolatra antes de perder o juzo, agora que estou embriagado queimarei o Coro diante 
do dolo."
      Disse a jovem beldade:
      "Agora, sim! Agora s verdadeiramente o meu homem.
      s digno de mim. At este momento eras cru no amor, mas a experincia cozeu-te. timo!"
      Quando os cristos ouviram dizer que o xeque abraara sua crena, levaram-no, ainda brio,  igreja e disseram-lhe que amarrasse um zunnar  cintura. Ele obedeceu, 
lanou ao fogo o manto de dervixe, abdicou da f e entregou-se s prticas da religio crist.
      E disse  moa:
      " dama encantadora, ningum jamais fez tanto por uma mulher quanto eu. Adorei os teus dolos, bebi vinho e renunciei  verdadeira f. Tudo isso fiz por amor 
de ti e para poder possuir-te".
      E ela respondeu-lhe:
      "Velho bobo, escravo do amor, como pode uma mulher como eu unir-se a um faquir? Preciso de prata e ouro, e, visto que no tens nada disso, vai-te embora".
      " mulher adorvel," retrucou o xeque, "teu corpo  um cipreste e teus seios so prata. Se me repelires, levar-me-s ao desespero. A idia de possuir-te alvoroou-me. 
Por tua causa meus amigos se tornaram meus inimigos. Como o s, assim o so eles; que farei?  minha amada, eu quisera antes estar no inferno contigo do que no cu 
sem ti."
      Por fim, ela se abrandou e acabou aceitando o xeque como seu homem, comeando tambm a sentir a chama do amor. Mas, para p-lo um pouco mais  prova, disse-lhe:
      "Agora, por meu dote,  homem imperfeito, vai guardar meus porcos pelo espao de um ano; depois disso, passaremos juntos a vida inteira, na alegria ou na tristeza!"
      Sem um protesto, o xeque da Caaba, o santo, concordou em transformar-se em porqueiro.
      Na natureza de cada um de ns h uma centena de porcos.  vs, que sois no-entidades, estais pensando apenas no perigo que corria o xeque! O perigo se encontra 
em cada um de ns e ergue a cabea a partir do momento que enveredamos pelo caminho do conhecimento de ns mesmos. Se no conhecerdes vossos prprios porcos no 
conhecereis o Caminho. Mas se de fato vos puserdes a campo, encontrareis um milhar de porcos - um milhar de dolos. Enxotai os porcos, queimai os dolos na plancie 
do amor; pois, do contrrio, ficareis como ficou o xeque, desonrado pelo amor. Pois bem, quando correu a voz de que o xeque se fizera cristo, todos os seus companheiros, 
tomados de profunda angstia, se afastaram; todos, menos um, que lhe disse: "Conta-nos o segredo dessa histria para que possamos nos tornar cristos contigo. No 
queremos que s tu cometas apostasia, de modo que tambm nos cingiremos com o zunnar cristo. Se no concordares, retornaremos  Caaba e passaremos o tempo imersos 
em oraes a fim de no vermos o que vemos agora".
      Disse o xeque:
      "Minha alma est cheia de tristeza. Vai para onde te levarem os teus desejos. Quanto a mim, a igreja  o meu lugar, e a moa crist, o meu destino. Sabes por 
que s livre? Porque no ests na minha posio. Se estivesses, eu teria um companheiro no meu desditoso amor. Regressa, pois, querido amigo,  Caaba, que ningum 
pode participar do meu estado atual. Se perguntarem por mim, responde: 'Seus olhos esto cheios de sangue, sua boca, cheia de veneno. Ele continua preso nas fauces 
dos drages da violncia. Nenhum infiel consentiria em fazer o que fez esse orgulhoso muulmano por efeito do destino. Uma jovem crist prendeu-lhe o pescoo num 
anel dos seus cabelos'. Se me censurarem, dize-lhes que muitos caem no meio da estrada, que no tem comeo nem fim, mas alguns, mais afortunados, se refazem da queda 
e do perigo".
      Dito isso, desviou o rosto do amigo e voltou  vara de porcos.
      Seus seguidores, que o observavam  distncia, choraram amarguradamente. Por fim, puseram-se a caminho, de volta  Caaba, e, corridos de vergonha e confuso, 
foram esconder-se num canto.
      Ora, estava na Caaba, naquela ocasio, um amigo do xeque, que era vidente e trilhava o caminho verdadeiro. Ningum o conhecia melhor do que ele, se bem no 
o tivesse acompanhado  Grcia. Quando esse homem pediu notcias do amigo, os discpulos lhe contaram tudo o que acontecera ao xeque e perguntaram-lhe que feio galho 
de rvores traspassara o peito dele, e se aquilo sucedera por vontade do destino. Contaram, mais, que uma jovem infiel o amarrara com um nico fio de cabelo e lhe 
fechara os cem caminhos do Islam.
      "Ele brinca com suas madeixas e suas sardas", acrescentaram, "e queimou a prpria khirka. Abandonou a religio, e agora, com um zunnar  cintura, apascenta 
uma aduada de porcos. Mas, conquanto tenha empenhado a prpria alma, quer-nos parecer que ainda h esperana."
      Ouvindo isso, o rosto do discpulo fez-se cor de ouro e ele entrou a lamentar-se, atribulado. Depois disse:
      "Companheiros de infortnio, em religio no h homem nem mulher. Quando um amigo infeliz precisa de auxlio, sucede muita vez que s uma pessoa em mil pode 
ser-lhe de alguma utilidade".
      Em seguida, censurou-os por haverem abandonado o xeque, dizendo que at deviam ter-se feito cristos por amor a ele. E ajuntou:
      "O amigo deve continuar amigo.  no infortnio que descobrimos em quem podemos confiar; pois na prosperidade tereis um milhar de amigos. Agora que o xeque 
caiu na goela do crocodilo, todos se afastam dele, ciosos da prpria reputao. Se o evitardes  conta desse estranho sucesso, sereis julgados e condenados".
      "Ns nos oferecemos para ficar ao seu lado", responderam os outros, "e at concordamos em tornar-nos idlatras. Mas como ele  um homem experimentado e sbio, 
e temos nele absoluta confiana, quando nos aconselhou a voltar, voltamos para c."
      O discpulo fiel replicou:
      "Se realmente desejais agir, precisais bater  porta de Deus; a seguir, pela orao, sereis admitidos  sua presena. Deveis estar pedindo a Deus pelo vosso 
xeque, cada qual recitando uma prece diferente; e Deus, vendo o vosso estado de confuso, t-lo-ia devolvido a vs. Por que vos abstivestes de bater  porta de Deus?"
      Ouvindo-o, os outros tiveram vergonha de erguer a cabea. Mas ele insistiu:
      "Esta no  a hora de lamentaes. Vamos agora ao tribunal de Deus. Dei temo-nos no p e cubramo-nos com as vestes da splica a fim de podermos recuperar o 
nosso chefe!"
      Partiram os discpulos sem demora para a Grcia e, ali chegados, ficaram perto do xeque. Rezaram quarenta dias e quarenta noites, no comeram nem dormiram; 
no provaram po nem gua. Afinal, a fora das rezas desses homens sinceros fez-se ouvir no Cu. Anjos, arcanjos e todos os santos vestidos de verde nas alturas 
e nos vales envergaram, ento, as vestes do luto. A seta da orao atingiu o alvo. Ao despontar da manh, um zfiro almiscarado ps-se a soprar suavemente sobre 
o discpulo fiel, que orava em sua cela, e o mundo desvelou-se-lhe ao esprito. Viu o profeta Maom aproximando-se, radioso como a lua, com duas madeixas de cabelo 
a cair-lhe sobre o peito; a sombra de Deus era o sal do seu semblante, o desejo de uma centena de mundos estava preso a cada um dos seus fios de cabelo. A graa 
do sorriso atraa todos os homens para ele. Ergueu-se o discpulo e disse:
      " mensageiro de Deus, guia de todas as criaturas, ajuda-me! O nosso xeque desencaminhou-se. Mostra-lhe o caminho, imploro-te, em nome do Altssimo!"
      Replicou Maom:
      " tu, que vs coisas com o olho interior, graas aos esforos que envidaste, teus desejos puros sero atendidos. Entre o xeque e Deus houve, por muito tempo, 
um ponto negro; mas fiz jorrar o orvalho da splica e espalhei-o sobre o p da sua existncia. Ele se arrependeu, e o seu pecado foi lavado. As faltas de uma centena 
de mundos desaparecem no vapor de um instante de arrependimento. Quando o oceano da boa vontade se movimenta, suas ondas lavam os pecados de homens e mulheres".
      O discpulo soltou um grito que comoveu todo o cu. Correu para transmitir aos companheiros a boa nova e, logo, chorando de alegria, endereou-se ao lugar 
onde o xeque guardava os seus porcos. Mas o xeque se diria um fogo, um iluminado. Lanara de si o cinto cristo, arrancara da cabea o gorro da embriaguez e renunciara 
ao cristianismo. Via-se tal qual era, e, derramando lgrimas de remorso, ergueu as mos para o cu; tudo o que abandonara - o Coro, os mistrios e profecias - voltaram-lhe, 
e ele se libertou da sua misria e da sua loucura.
      Disseram-lhe os discpulos:
      "Esta  a hora da gratido e do agradecimento. O Profeta intercedeu por ti. Graas a Deus, ele te ergueu de um oceano de piche e colocou-te os ps no caminho 
do Sol".
      Nisso, o xeque tornou a vestir a khirka, fez suas ablues e ps-se a caminho do Hejaz.
      Enquanto tudo isso acontecia, a moa crist viu em sonhos o sol descendo at ela, e ouviu estas palavras:
      "Segue o teu xeque, abraa-lhe a f, s o seu p. Tu, que ests maculada, s pura como ele  agora. Tu o conduziste ao teu caminho, entra agora no dele".
      Assim que ela acordou, fez-se luz no seu esprito; ansiava por encetar a jornada. A mo segurou o corao, e o corao caiu-lhe da mo. Mas, quando compreendeu 
que estava s e no tinha a menor idia do caminho, a alegria mudou-se-lhe em pranto, e ela saiu correndo para atirar cinzas sobre a cabea. Em seguida, saiu  procura 
do xeque e dos amigos dele; mas, cansada e angustiada, coberta de suor, deixou-se cair ao cho e gritou:
      "Possa Deus, o Criador, perdoar-me! Sou uma mulher desgostosa da vida. No me firas, pois eu te feri por ignorncia, e por ignorncia cometi muitos erros. 
Esquece o mal que te fiz. Aceito a verdadeira f".
      Uma voz interior informou disso o xeque. Ele se deteve no meio da caminhada e disse:
      "Aquela moa j no  uma infiel. A luz a visitou, e ela entrou em nosso Caminho. Voltemos. Podemos agora manter-nos intimamente ligados ao nosso dolo sem 
pecado".
      Os companheiros, porm, objetaram-lhe:
      "Mas, ento, para que todo o teu arrependimento e remorso? Queres voltar para o teu amor?"
      Ele falou-lhes da voz que ouvira e recordou-lhes que renunciara aos seus caminhos anteriores. Por isso retrocederam at chegar ao stio em que jazia a moa. 
O rosto lhe assumira a cor do ouro amarelo, os ps estavam descalos, as vestes rasgadas. Quando o xeque se inclinou sobre ela, a moa desmaiou. Ao tornar a si, 
as lgrimas lhe saltaram dos olhos como o orvalho das rosas, e ela disse:
      "A vergonha me consome por tua causa. Ergue o vu do segredo e instru-me no Islam para que eu possa palmilhar o Caminho."
      Quando o formoso dolo se achou finalmente entre os fiis, os companheiros derramaram lgrimas de jbilo.
      " xeque", disse ela, "j no tenho foras. Quero deixar este mundo poeirento e ensurdecedor. Adeus, xeque San'an. Confesso meus erros. Perdoa-me e deixa-me 
ir."
      Assim, aquela lua de beleza, que no vivera mais do que a metade de uma vida, escapou de sua mo. O sol escondeu-se atrs das "nuvens enquanto a sua alma gentil 
se separava do corpo. Ela, uma gota no oceano da iluso, regressara ao verdadeiro oceano.
      Todos partimos como o vento; ela se foi, e ns tambm nos iremos. Essas coisas ocorrem amide no caminho do amor. H desespero e misericrdia, iluso e segurana. 
Conquanto o corpo de desejo no compreenda os segredos, a adversidade no pode atirar longe a bola de plo da boa fortuna. Precisamos ouvir com o ouvido da mente 
e do corao, e no com o do corpo. A luta do esprito com o corpo de desejo no tem fim. Lamenta! Pois h motivos para chorar.
      
15
Os pssaros discutem a proposta para chegar ao Simurgh
      Depois de refletirem na histria do xeque San'an, decidiram os pssaros renunciar a todo o seu modo de vida anterior. A idia do Simurgh arrancou-os da apatia; 
s o amor dele lhes enchia os coraes. Comearam a pensar em como iniciar a viagem. Disseram:
      "Primeiro, precisamos de um guia para fazer e desfazer os ns. Precisamos de um chefe que nos diga o que fazer, que nos salve deste mar profundo. Obedecer-lhe-emos 
de todo o corao e faremos o que ele disser, seja agradvel, seja desagradvel, de modo que a nossa bola caia sobre o malho do Cucaso. O tomo, ento, se unir 
ao sol majestoso; e a sombra do Simurgh cair sobre ns. Agora, pois, tiremos a sorte para saber quem ser o chefe. Aquele sobre o qual recair a sorte ser nosso 
guia; ser grande entre os pequenos".
      Seguiu-se a isso verdadeira comoo, em que todos falavam ao mesmo tempo, mas, quando tudo ficou pronto, a excitao e os chilros sumiram e os pssaros se 
calaram. O sorteio foi dirigido com a devida cerimnia e, finalmente, a sorte manifestou-se em favor da animosa Poupa. Todos concordaram e prometeram obedecer-lhe, 
com o risco da prpria vida, jurando no poupar a alma nem o corpo. A Poupa adiantou-se e cingiram-lhe a cabea com uma coroa.
      No stio indicado para a partida, eram tantos os pssaros reunidos que ocultavam a lua e o peixe; mas, quando viram a entrada do primeiro vale, ergueram-se, 
assustados, at as nuvens. Depois, com muito adejar de asas e penas e muito encorajamento recproco, retomou-os a nsia de desistir de tudo. Pois a tarefa que tinham 
pela frente era pesada e o percurso, assaz comprido. O silncio pairava, prximo, sobre o caminho que se estendia diante deles, e um pssaro perguntou  Poupa por 
que a estrada estava to deserta.
      "Por causa do temor que inspira o rei a cuja morada ela conduz", explicou a interpelada.
       
Anedota de Bayazid Bistami
      Uma noite, ao sair da cidade, o xeque Baya2id reparou que um profundo silncio se estendia sobre a plancie. A lua alumiava o mundo, tornando a noite to clara 
quanto o dia. As estrelas agrupavam-se de acordo com suas simpatias, e cada constelao tinha uma funo especial. O xeque caminhava sem perceber nenhum movimento 
e sem avistar vivalma. Com o corao abalado, disse:
      "Senhor, uma tristeza penetrante me oprime. Por que uma corte to sublime carece de adoradores ardentes?"
      "No te surpreendas", respondeu-lhe uma voz interior, "o rei no admite toda a gente  sua corte. A dignidade no lhe permite receber vagabundos  sua porta. 
Quando o santurio do nosso esplendor fulgura, ele desdenha os dorminhocos e desatentos. s um dos mil que anseiam por admisso, e precisas aguardar com pacincia."
      
16
Os pssaros comeam a jornada
      O medo e a apreenso arrancaram gritos plangentes dos pssaros quando se viram diante de uma estrada sem fim, onde o vento forte do alheamento das coisas terrenas 
rachou a abbada do cu. Na sua ansiedade, juntaram-se e foram pedir conselho  Poupa. Disseram:
      "No sabemos como teremos de apresentar-nos ao rei com o devido respeito. Mas tu estiveste em presena de Salomo e conheces os primores da etiqueta. Tambm 
subiste e desceste esta estrada e voaste muitas vezes ao redor da terra. s o nosso im para o que der e vier. Pedimos-te, portanto, que vs ao minabar e nos instruas. 
Fala-nos da estrada e da corte do rei, e das cerimnias que ali se realizam, porque no desejamos fazer m figura. Alm disso, todo tipo de dificuldade nos conturba 
a mente, e, para essa jornada,  mister que estejamos livres de preocupaes. Temos muitas perguntas a fazer e desejamos que nos dissipes as apreenses, pois de 
outro modo no conseguiremos enxergar claro nesta longa estrada".
      A Poupa colocou a coroa na cabea, sentou-se no trono e disps-se a falar-lhes. Quando o exrcito de pssaros se enfileirou diante dela, o Rouxinol e a Rolinha 
subiram ao slio e, como dois leitores com a mesma voz, desferiram um canto to doce que todos os que o ouviram se sentiram elevados para fora de si mesmos. Ato 
contnuo, um depois do outro, diversos pssaros subiram at ela para expor suas dificuldades e desculpar-se.
      
17
O discurso do primeiro pssaro
      O primeiro pssaro disse  Poupa:
      " tu, que foste escolhida para nosso chefe, dize-nos o que faz com que te destaques entre ns. J que pareces ser como ns, e ns como tu, onde reside a diferena? 
Que pecados do corpo ou da alma cometemos para sermos ignorantes, ao passo que tu tens entendimento?"
      A Poupa replicou:
      "Sabe,  pssaro, que Salomo, certa vez, me viu por acaso; e que minha boa fortuna no resultou do ouro nem da prata, seno desse encontro feliz. Como h 
de uma criatura tirar proveito apenas da obedincia? O prprio Iblis obedece. Sem embargo disso, se algum aconselhar a rejeio da obedincia, ser maldito para 
sempre. Pratica a obedincia e logrars um vislumbre do verdadeiro Salomo".

Mahmud e o pescador
      O sulto Mahmud, certa vez, separado do seu exrcito, galopava sozinho com o vento. No demorou muito e viu um menininho sentado  beira de um rio, no qual 
lanara a sua rede. O sulto abeirou-se dele e, vendo-o triste e deprimido, perguntou-lhe:
      "Querida criana, que  que te faz to triste? Nunca vi ningum to sorumbtico".
      " ilustre prncipe", replicou o menino, "somos sete ao todo; no temos pai, e nossa me  muito pobre. Todo dia venho aqui e tento pegar uns peixes para o 
jantar. S quando consigo pescar alguns  que fazemos uma refeio noturna."
      "No queres que eu faa uma tentativa?", perguntou o sulto. E como o menino consentisse, atirou a rede, a qual, compartindo da proverbial boa sorte do sulto, 
em pouco tempo apanhou cem peixes. Diante disso, falou o menino consigo: "Minha boa fortuna  espantosa. Que sorte que todos esses peixes tenham vindo cair na minha 
rede!"
      Atalhou, contudo, o sulto:
      "No te iludas, meu filho. Sou eu a causa da tua boa sorte. Foi o sulto quem pegou esses peixes para ti".
      Dizendo isso, montou a cavalo. O menino rogou-lhe que levasse a sua parte, mas o sulto no aceitou a oferta, dizendo que ficaria com a pesca do dia seguinte.
      "Amanh pescars para mim", disse ele.
      E retornou ao palcio. No dia seguinte, mandou um dos seus oficiais buscar o menino. Quando eles chegaram, fez o menino sentar-se no trono, ao seu lado.
      "Senhor", acudiu um dos cortesos, "esse menino  um mendigo!"
      "No te preocupes", redarguiu o sulto, "ele agora  meu companheiro. E, visto que somos parceiros, no posso mand-lo embora."
      Assim sendo, o sulto tratou-o como a um igual. Por fim, algum perguntou ao menino:
      "Como foi que vieste a lograr tamanha distino?"
      E o menino respondeu:
      "A alegria chegou e a tristeza se foi, porque encontrei um monarca afortunado".
      
Mahmud e o lenhador
      De outra feita, quando cavalgava sozinho, o sulto Mahmud encontrou um velho lenhador que conduzia um burro carregado de espinheiros. A um dado momento, o 
animal tropeou e, quando caiu, os espinhos feriram a cabea do velho. Ao ver os espinheiros no cho, o burro de pernas para o ar e o homem esfregando a cabea, 
o sulto perguntou:
      " infeliz, ests necessitando de um amigo?"
      "Estou sim", replicou o lenhador. "Bondoso cavaleiro, se quiseres ajudar-me, ainda colherei meus lucros, e, a ti, nenhum mal te advir disso. Teu semblante 
 um bom pressgio para mim."
      O bondoso sulto apeou do cavalo e, tendo puxado o burro para obrig-lo a levantar-se, ergueu o feixe de espinheiros e amarrou-o ao lombo do animal. Em seguida, 
retornou, a cavalo, para onde estava o exrcito. E disse aos soldados:
      "Um velho lenhador est vindo para c com um burro carregado de espinheiros. Barrai-lhe o caminho para que ele tenha de passar diante de mim".
      Ao aproximar-se dos soldados, disse o lenhador para si: "Como passarei por eles com este frgil animal?" Entrou, assim, por outro caminho, mas, avistando o 
pra-sol real  distncia, ps-se a tremer: a estrada que se vira forado a tomar o levaria a passar bem defronte do sulto. Ao aproximar-se um pouco mais, sua confuso 
aumentou, pois avistou debaixo do pra-sol um rosto familiar.
      " Deus", exclamou, "em que situao me vejo! Hoje tive Muhmud por carregador!"
      Quando o homem chegou  sua frente, o sulto Mahmud perguntou-lhe:
      "Meu pobre amigo, que fazes para viver?"
      Ao que o lenhador replicou:
      "J o sabeis. Sede sincero. No me reconheceis? Sou um pobre velho, lenhador de profisso; dia e noite ajunto espinheiros no ermo e vendo-os, mas o meu burro 
est morrendo de fome. Se me quereis bem, dai-me um pouco de po".
      "Pobre homem", volveu o sulto, "quanto queres pelo teu feixe?"
      "Visto que no quereis receb-lo de graa e no desejo vend-lo, dai-me uma bolsa de ouro."
      Ouvindo isso, os soldados gritaram:
      "Dobra a lngua, insensato! O teu feixe no vale sequer um punhado de cevada. Devias d-lo por nada".
      O velho retorquiu:
      "Est tudo muito bem, mas o seu valor agora se alterou. Quando um homem de sorte como o sulto pe as mos no meu feixe de espinheiros, estes se transformam 
em rosas. Se quiser compr-los, ele ter de pagar, no mnimo, um dinar, pois, ao toc-los, aumentou cem vezes o valor dos meus espinheiros".
      
18
O discurso do segundo pssaro
      Outro pssaro, avizinhando-se da Poupa, disse:
      " protetora do exrcito de Salomo! Faltam-me foras para empreender esta jornada. Estou fraco demais para cruzar os vales. A estrada  to difcil que me 
deitarei para morrer no primeiro pouso. H vulces pelo caminho. Alm disso, no convm a todos empenharem-se numa empresa dessa natureza. Milhares de cabeas rolaram 
como rolam as bolas no plo, pois muitos que partiram em demanda do Simurgh pereceram. Numa estrada como esta, onde inmeras criaturas sinceras esconderam a cabea 
com medo, que ser de mim, que sou apenas p?"
      A Poupa respondeu:
      " tu, que tens o semblante pesaroso! Por que est to oprimido o teu corao? Visto que tens to escasso valor para o mundo, tanto faz que sejas jovem e valente 
ou velho e fraco. O mundo, de fato,  excremento; ali perecem criaturas diante de cada porta. Milhares ficam amarelas como a seda e morrem entre lgrimas de aflio. 
 melhor perderes a vida numa busca do que languesceres miseravelmente. Se no formos bem sucedidos e morrermos de dor, tanto pior; mas, visto que os erros so numerosos 
neste mundo, poderemos, pelo menos, evitar a prtica de novos. Milhares de criaturas esto manhosamente ocupadas na procura do corpo morto do mundo; assim, se te 
entregares a esse comrcio, sobretudo com astcia, sers capaz de fazer do teu corao um oceano de amor? Dizem alguns que o desejo das coisas espirituais  presuno 
e que nenhum mero arrogante pode atingi-las. Mas no ser melhor sacrificarmos a vida na busca desse desejo do que nos identificarmos com um negcio? Vi tudo e fiz 
tudo, e nada abalar minha resoluo. Por muito tempo tratei com homens e vi como so poucos os que no esto realmente aferrados s riquezas. Enquanto no morrermos 
para ns mesmos e no nos identificarmos com alguma coisa ou com algum, no seremos livres. O caminho espiritual no foi feito para os que esto envoltos na vida 
exterior. Se fores homem capaz de ao, pe os ps neste caminho e no te entregues a artifcios femininos. Sabe com certeza que, mesmo que a busca fosse mpia, 
ainda assim seria necessrio empreend-la. De fato no  fcil; o fruto est sem folhas na rvore do amor. Dize ao que tem folhas que renuncie a elas.
      "Quando senhoreia o homem, o amor levanta-lhe o corao, mergulha-o em sangue, arremessa-o, prostrado, para fora da cortina, no lhe d descanso; mata-o e 
ainda exige o preo do sangue. Bebe a gua das lgrimas e come o po fermentado com o luto; mas, se for mais fraco do que a formiga, o amor lhe emprestar foras."
      
Anedota de um contemplativo
      Um louco, um idiota de Deus, andava nu quando outros homens andavam vestidos. E ele pediu:
      " Deus, dai-me um belo traje, e ficarei contente como os outros homens".
      Respondeu-lhe uma voz vinda do mundo invisvel:
      "Dei-te um sol quente; senta-te e deleita-te nele".
      "Por que me castigas?", volveu o louco. "Uma roupa melhor no seria prefervel ao sol?"
      Tornou a voz:
      "Espera dez dias com pacincia, que, logo depois, te darei outra vestimenta".
      O sol crestou-o durante oito dias; findo esse perodo, apareceu um pobre e deu-lhe uma roupa que tinha um milhar de remendos. O louco disse a Deus:
      " vs, que tendes conhecimento das coisas ocultas, por que me destes esta vestimenta remendada? Queimastes, acaso, todas as vossas vestes e precisastes remendar 
esta velha? Costurastes, um ao outro, um milhar de trajes. Com quem aprendestes tal arte?"
      No  fcil ter tratos com a corte de Deus. O homem precisa tornar-se como o p da estrada para chegar at l. Depois de longa luta, imagina ter atingido a 
meta, quando, na verdade, ainda est longe dela.
       

A histria de Rabi'ah
      Se bem fosse mulher, Rab'ah era a coroa dos homens. De uma feita, levou oito anos numa peregrinao  Caaba medindo no cho a prpria altura. Quando, afinal, 
chegou  porta do templo sagrado, pensou: "Agora, finalmente, executei minha tarefa". No dia consagrado, quando ia entrar na Caaba, suas mulheres a desertaram'. 
Em vista disso, Rabi'ah voltou sobre seus passos e disse:
      " Deus, possuidor da glria, durante oito anos medi o trajeto com a altura do meu corpo e, agora, quando o dia to almejado surge em resposta s minhas preces, 
pondes espinhos em meu caminho!"
      Para compreender a importncia de um incidente como esse faz-se mister descobrir um amante de Deus como Rabi'ah. Enquanto flutuardes sobre o oceano profundo 
do mundo suas ondas vos acolhero e repeliro, alternativamente. s vezes, sereis admitidos na Caaba; outras, suspirareis num pagode. Se conseguirdes alienar-vos 
dos apegos do mundo, sereis felizes; mas se permanecerdes apegados, vossa cabea girar qual m de moinho. Nem por um momento estareis tranquilos; uma simples mosca 
vingar transtornar-vos.

O idiota de Deus
      Era costume do pobre homem apaixonado por Deus demorar-se em certo lugar; um belo dia, um rei do Egito, que passara muitas vezes por ele com os seus cortesos, 
de-teve-se e lhe disse:
      "Vejo em ti certa qualidade de tranquilidade e relaxamento".
      O idiota replicou:
      "Como poderia eu estar tranquilo se me vejo entregue s moscas e s pulgas? As moscas me atormentam o dia inteiro e,  noite, as pulgas no me deixam dormir. 
Uma mosca minscula que entrou no ouvido de Nenrode perturbou o crebro daquele idiota por sculos. Talvez eu seja o Nenrode destes tempos, pois tenho recebido o 
quinho que me cabe das minhas amigas, as moscas e as pulgas".
       
19
O discurso do terceiro pssaro
      Disse  Poupa o terceiro pssaro:
      "Como me porei a caminho se estou cheio de defeitos? Pode uma mosca suja ser digna do Simurgh do Cucaso? Como poder um pecador que se afasta da verdadeira 
via aproximar-se do rei?"
      Replicou a Poupa:
      " pssaro desanimado, no te desesperes assim. Pede a graa e o favor de Deus. Se jogas fora com tanta facilidade o teu escudo, ser realmente difcil a tua 
tarefa".

Anedota de um criminoso
      Um homem culpado de muitos pecados arrependeu-se amargamente e retornou ao caminho verdadeiro. Com o passar do tempo, porm, o desejo das coisas do mundo voltou-lhe 
mais forte do que nunca, e ele tornou a entregar-se aos maus pensamentos e aes. Mais tarde, a tristeza lhe apertou de novo o corao e reduziu-o a um estado miservel. 
Quis mudar novamente de atitude, mas carecia de foras para faz-lo. Dia e noite, como gro de trigo em panela quente, seu corao no se aquietava e suas lgrimas 
regavam o p. Certa manh, uma voz misteriosa lhe falou:
      "Ouve o Senhor do Mundo. Quando te arrependeste pela primeira vez, aceitei tua penitncia. Eu podia ter-te punido e no te puni. Quando, pela segunda vez, 
voltaste a pecar, concedi-te uma trgua e, ento, nem mesmo na minha clera te fiz morrer. E hoje,  nscio, reconheces a tua perfdia e desejas voltar para mim 
pela terceira vez. Regressa, pois, ao Caminho. Abro-te a minha porta e espero. Quando tiveres mudado realmente de atitude, os teus pecados te sero perdoados".
       
O anjo Gabriel e a boa inteno
      Uma noite, quando se achava no Sidrah, o anjo Gabriel ouviu o Senhor pronunciar palavras de assentimento, e disse consigo: "Neste momento, um servo de Deus 
est invocando o Eterno, mas quem ser? S sei que deve ter um mrito muito grande, que o seu corpo de desejo est morto e que o seu esprito est vivo". E, sem 
perda de tempo, partiu ao encontro desse mortal feliz. Porm, embora vasculhasse a terra e as ilhas, as montanhas e as plancies, no conseguiu encontr-lo. Por 
isso voltou para Deus e tornou a ouvir uma resposta favorvel  orao.
      Mais uma vez voou sobre a terra e o mar, at que, afinal, lhe foi preciso perguntar:
      " Deus, qual  o caminho que me conduzir ao teu servo?"
      Deus respondeu:
      "Vai ao pas de Rum e, em certo mosteiro cristo, o encontrars".
      Gabriel voou at o mosteiro e ali, prosternado diante de um dolo, encontrou o objeto dos favores divinos.
      " mestre do mundo", exclamou Gabriel, "descerra o vu deste mistrio. Como podes responder  prece de um idlatra num mosteiro?"
      E Deus respondeu:
      "O seu corao est obscurecido. Ele no se d conta de que perdeu o caminho. Mas como erra por ignorncia, minha bondade amorosa o perdoa e lhe abre o caminho 
para um estado elevado".
      E o Altssimo desatou a lngua do homem para que ele pudesse pronunciar o nome de Deus.
      No devemos descurar nem das menores coisas. No se compra a Renncia numa loja, nem se alcana a corte do Altssimo pagando uma soma qualquer.
       
O sufi
      Enquanto se dirigia, s pressas, para Bagd, um sufi ouviu algum dizer:
       
      "Tenho grande quantidade de mel, que venderia por um preo bem razovel se algum quisesse comprar-mo".
      O sufi abordou-o e indagou:
      " meu bom homem, no gostarias de dar-me um pouco do teu mel em troca de nada?"
      O homem, encolerizado, retrucou:
      "Vai-te embora. Alm de ganancioso s louco? No sabes que nunca se consegue nada em troca de nada?"
      Nisso, uma voz interior disse ao sufi:
      "Deixa este lugar, que te darei o que o dinheiro no pode comprar: toda a boa fortuna e tudo o que desejas. A misericrdia de Deus  um sol ardente que chega 
ao menor dos tomos. Deus at repreendeu o profeta Moiss por causa de um descrente".

Deus repreende Moiss
      Um dia, disse Deus a Moiss:
      "Korah, soluando, cbamou-te setenta vezes e tu no respondeste. Se ele me tivesse chamado assim, uma vez que fosse, eu lhe teria arrancado o corao do poo 
do politesmo e coberto o peito com o indumento da f.  Moiss, fizeste-o perecer numa centena de agonias e o jogaste na terra com ignomnia. Se fosses o seu criador, 
terias sido menos severo com ele".
      Quem se mostra misericordioso at com os que no tm misericrdia  altamente favorecido pelos homens compassivos. Se cometeres as faltas dos pecadores comuns, 
tu mesmo te tornars num dos maus.
      
20
A busca do quarto pssaro
      Outro pssaro confessou  Poupa: "Sou efeminado, e s sei pular de galho em galho. s vezes, sou libertino e dissoluto; outras, abstinente. s vezes, meus 
desejos me arrastam para as tabernas, outras, meu esprito me empurra para a prece. s vezes, contra minha vontade, Satans me desencaminha; outras, os anjos me 
trazem de volta. Entre os dois me vejo como entre o poo e a priso; que mais posso fazer seno lamentar-me, como Jos?"
      Respondeu-lhe a Poupa:
      "Isso acontece a todo homem, de acordo com a sua natureza. Se tivssemos sido livres do pecado desde o princpio, Deus no teria precisado mandar-nos seus 
mensageiros e profetas. Atravs da obedincia podes atingir a felicidade.  vs que vos refestelais na sauna da indolncia e, apesar disso, estais cheios de desejos 
ociosos, enquanto continuardes a alimentar o co do desejo vossa natureza ser pior do que a de um hermafrodita impotente".
       
Anedota de Shabli
      Shabli, certa vez, desapareceu de Bagd e ningum sabia para onde havia ido. Afinal, foi encontrado numa casa de eunucos, sentado com os olhos midos e os 
lbios secos entre aquelas grotescas criaturas. Disseram-lhe os amigos:
      "Isto no  lugar para ti, estudioso dos mistrios divinos".
      E ele replicou:
      "Em matria de religio, essas pessoas no so homens nem mulheres. Sou como elas. Afundo na inrcia, e minha virilidade  um oprbrio. Se usardes o louvor 
e a censura para fazer distines, estareis criando dolos. Se ocultais uma centena de dolos debaixo da khirka, por que apareceis aos homens como um sufi?"

A briga de dois sufis
      Dois homens que usavam a khirka dos sufis insultavam-se mutuamente perante o tribunal. O juiz apartou-os e disse:
      "No fica bem a sufis discutirem entre si. Se vos cobristes com o manto da resignao, por que brigais? Se sois homens de violncia, atirai fora vossos mantos. 
Mas se sois dignos deles, reconciliai-vos. Eu, que sou juiz e no um homem do caminho espiritual, sinto-me envergonhado pela khirka; enquanto a usardes, melhor seria 
que concordsseis em discordar do que brigardes".
      Se quiserdes seguir o caminho do amor, atirai s urtigas vossos preconceitos e renunciai ao amor, s coisas do corpo. Entrementes, para no serdes causa do 
mal, no deis lugar ao ressentimento nem ao egosmo.
       
O rei e o mendigo
      Certa vez, no Egito, um infeliz apaixonou-se pelo rei. Este, ao saber disso, mandou que trouxessem o homem desencaminhado  sua presena e disse-lhe:
      "Visto que ests apaixonado por mim, ters de escolher uma de duas coisas - a decapitao ou o exlio".
      O homem respondeu que preferia o exlio e, quase fora de si, preparou-se para partir. O rei, todavia, ordenou que o decapitassem.
      "Mas ele  inocente", interveio um camarista. "Por que precisa morrer?"
      "Porque ele", volveu o rei, "no  um amante de verdade e no foi totalmente sincero. Se, de fato, me desejasse, teria querido antes perder a cabea do que 
deixar o objeto do seu amor. Teria sido ou tudo ou nada. Houvesse ele consentido na execuo, eu me teria preparado para a ocasio e me teria feito seu dervixe. 
Quem me tem amor, mas tem maior amor  sua cabea, no  um amante verdadeiro."
      
21
As desculpas do quinto pssaro
      Outro pssaro disse  Poupa:
      "Sou meu prprio inimigo; h um ladro em mim. Como posso fazer essa viagem estorvado por apetites corporais e por um co do desejo que no quer submeter-se? 
Como posso salvar minha alma? Conheo o lobo furtivo que anda a esmo, mas no conheo este cachorro, e ele  to atraente! No sei onde estou com este corpo infiel. 
Chegarei, um dia, a compreend-lo?"
      A Poupa replicou:
      "Tu mesmo s um co perdido e espezinhado. Tua 'alma', caolha e vesga,  vil, preguiosa e infiel. Se um homem se sente atrado para ti,  porque, na verdade, 
est ofuscado pelo falso brilho da tua 'alma'. No  bom para esse co do desejo ser amimalhado e untado de leos. Em criana, o homem  fraco e descuidado; jovem, 
empenha-se em lutar; e quando nele se instala a velhice, o desejo se acaba e o corpo fraqueja. Sendo assim a existncia, como adquirir o co o ornamento das qualidades 
espirituais? Vivemos descuidosos do princpio ao fim e nada obtemos. Muitas vezes o homem chega ao termo vazio, sem ter nada em si alm do desejo das coisas do mundo 
exterior. Milhares perecem de dor, mas o co do desejo nunca morre. Ouve a histria do coveiro que envelheceu no seu mister. Algum lhe perguntou: 'Queres responder 
a uma pergunta minha, visto que passaste a vida inteira cavando sepulturas? Dize-me: j viste algum prodgio?' Ao que o coveiro respondeu: 'Meu co do desejo assistiu 
a sepultamentos durante setenta anos, mas ele mesmo nunca morreu e nunca obedeceu, nem por um momento, s leis de Deus. Isso no  um prodgio?' "
       
Uma anedota de Abbasah
      Uma tarde, disse Abbasah:
      "Suponhamos que os descrentes que enchem a terra, e at os loquazes turcomanos, aceitassem sinceramente a F - uma coisa dessas seria possvel. Mas cento e 
vinte mil profetas foram mandados  alma descrente para obrig-la a aceitar a f muulmana sob pena de morte, e ainda no tiveram xito. Por que tanto zelo para 
to magro resultado?"
      Estamos todos sob o domnio dos nafs deste corpo infiel e desobediente que mantemos em ns mesmos. Ajudado como  por dois lados, seria surpreendente que o 
corpo perecesse. O esprito, como fiel cavaleiro, cavalga, mas o co  sempre seu companheiro; embora galope, o co o acompanha. O amor que o corao recebe  tomado 
pelo corpo. Entretanto, quem se tornar senhor do co apanhar na rede o leo dos dois mundos.
      
22
Um rei interroga um dervixe
      Certa vez um rei viu um homem que, embora andrajoso, trabalhava no aperfeioamento de si mesmo. Chamou-o e perguntou-lhe:
      "Quem est em melhor situao: tu ou eu?"
      O homem respondeu:
      " ignorante, bate no peito e cala-te. Quem se gaba no conhece o significado das palavras; mas devo dizer-te uma coisa: no pode haver dvida de que um homem 
como eu est em condies mil vezes superiores s de um homem como tu. Sem ter experimentado sequer o sabor da religio, o teu co do desejo reduziu-te  condio 
de burro.  o teu senhor e te cavalga preso pelo freio, puxando-te a cabea para c e para l. Fazes tudo o que ele ordena. s uma no-entidade, e no prestas para 
nada, ao passo que eu, que conheo os segredos do corao, fiz desse co meu burro e o montei. O teu co te governa, mas, se fizeres dele um burro, sers como eu 
e estars em condies cem vezes melhores do que as dos teus semelhantes".
       
As desculpas do sexto pssaro
      Outro pssaro disse  Poupa:
      "Toda vez que desejo ingressar no Caminho o Diabo me desperta a vaidade e me impede de procurar um guia. Meu corao est perturbado, porque no tenho foras 
para resistir-lhe. Como posso salvar-me de Iblis e vivificar-me com o vinho do Esprito?"
      A Poupa respondeu:
      "Enquanto o co do desejo correr  tua frente, o Diabo no te deixar, mas empregar as manhas do co para induzir-te ao erro. Ento cada um dos teus vos 
desejos se transformar num demnio, e cada demnio a que te entregares gerar uma centena de outros. Este mundo  uma sauna ou priso, o domnio do Diabo; no mantenhas 
relaes com este mundo nem com o seu amo".
       
A queixa de um novio sobre a tentao de um demnio
      Um jovem estouvado saiu  procura de um xeque que estava jejuando a fim de queixar-se das quarenta tentaes que lhe armara um demnio. Disse ele:
      "Esse demnio me arreda do Caminho e reduz a nada minha religio".
      Retrucou o xeque:
      "Meu caro jovem, pouco antes de vires procurar-me vi esse demnio vagueando  tua volta. Ao contrrio do que dizes, ele estava vexado e atirava poeira na cabea 
porque o havias maltratado. E disse-me: 'O mundo inteiro  meu domnio, mas no tenho poder sobre os inimigos do mundo'. Dize ao demnio que se afaste e ele te deixar 
em paz".
       
O "khoja" e o sufi
      Ouvindo um khoja dizer esta orao: " Deus, tende piedade de mim e favorecei meus empreendimentos", um sufi lhe disse:
      "No espetes piedade se no tomaste a khirka do sufi. Levantaste o rosto para o cu e para as quatro paredes de ouro. s servido por dez escravos e dez escravas. 
Como chegar a ti, em segredo, a graa divina? Observa-te e v se mereces favores. Visto que rezas para lograr propriedades e honras, a piedade esconder o rosto. 
Vira as costas para tudo isso e s livre, como so livres os homens aperfeioados".
       

23
As desculpas do stimo pssaro
      Outro pssaro disse  Poupa:
      "Amo o ouro; para mim  como a amndoa na casca. Se no tiver ouro, estarei de ps e mos amarrados. O amor das coisas terrenas e o amor do ouro me encheram 
de desejos vos, que me cegam para as coisas espirituais".
      A Poupa replicou:
      " tu que te deixas ofuscar pelas formas exteriores, em cujo corao nunca se faz presente o valor das coisas reais! s como o homem que s consegue enxergar 
no escuro, o nictalope; s como a formiga, atrada pelas aparncias. Procura compreender o sentido das coisas. Sem a sua cor, o ouro seria um metal comum; o que 
te seduz  a cor, como a uma criana. No fica bem a um homem de verdade o amor do ouro, que pode ser escondido na vagina de uma mula! Escondem-se, porventura, coisas 
preciosas num lugar como esse? Se no deixas que a ningum aproveite o teu ouro, a ti tampouco aproveitar. Mas se deres um bolo a um pobre desgraado, ambos tirareis 
proveito disso. Se tiveres ouro, poders fazer bem a muitos; mas se o teu ombro estiver marcado, isso tambm ter sido provocado pelo ouro. Tens de pagar o aluguel 
de uma loja, e o preo, s vezes,  a tua prpria alma. Sacrificas tudo pelo teu negcio, at aqueles a quem s mais apegado e, por fim, nada tens. S podemos esperar 
que a fortuna deixe uma escada debaixo do patbulo. Isso no quer dizer que no deves fazer uso das coisas do mundo, mas que deves espalhar o que possuis por todos 
os lados. A boa fortuna te procura na medida em que ds. Se no podes renunciar completamente  vida, podes pelo menos libertar-te do amor s riquezas e s honras".
       
O "pir" e seu companheiro
      Um jovem discpulo, desconhecido do seu xeque (como ele supunha), possua um pequeno tesouro de moedas de ouro. O xeque nada disse sobre isso e, um belo dia, 
ambos partiram numa viagem. O discpulo comeou a ficar com medo, pois o ouro corrompe quem o possui. Tremendo, perguntou ao xeque:
      "Que estrada devemos tomar?"
      Respondeu-lhe o xeque:
      "Livra-te daquilo que te faz ter medo, e qualquer estrada ser boa. O Diabo se arreceia do homem indiferente ao dinheiro e foge dele prontamente. Por amor 
de um gro de ouro seria capaz de dividir um fio de cabelo. No caminho da religio o ouro  como um burro manco: no tem valor, s peso. Quando chega para um homem 
desprevenido, a riqueza primeiro o aturde e depois o governa. Ter amor ao dinheiro e s propriedades  o mesmo que ser atirado a um poo com as mos e os ps amarrados. 
Evita esse poo fundo, se puderes, e, se no puderes, segura a respirao, que o ar dentro dele  mais do que extraordinrio".
       
Deus repreende um dervixe
      Um santo homem que encontrara prosperidade em Deus entregou-se ao culto e  adorao durante quarenta anos. Fugira do mundo, mas, como Deus se achava intimamente 
unido a ele, sentia-se satisfeito. Esse dervixe cercara no deserto um pedao de cho, no meio do qual se erguia uma rvore na qual um pssaro construra o seu ninho. 
O canto do pssaro era doce, porque em cada uma de suas notas havia uma centena de segredos. O servo de Deus ficou enfeitiado. Mas Deus contou o caso a um vidente 
com as seguintes palavras:
      "Dize a esse sufi o quanto me espanta ver que, depois de tantos anos de devoo, ele tenha acabado me vendendo por um pssaro. O pssaro, de fato,  admirvel, 
mas o seu canto o prendeu numa armadilha. Eu o comprei, e ele me vendeu".
       
24
As desculpas do oitavo pssaro
      Outro pssaro disse  Poupa:
      "Tenho o corao alvoroado de felicidade porque moro num stio delicioso. Possuo um palcio de ouro, to belo que toda gente o admira, e ali vivo num mundo 
de contentamento. Como esperar que eu abandone tudo isso? Nesse palcio sou como um rei entre pssaros; por que, ento, me exporia s agruras dos vales de que falas? 
Devo renunciar, de um golpe s, ao meu palcio e  minha realeza? Nenhuma criatura sensata abandonaria o jardim de Irem para empreender uma viagem to trabalhosa 
e to difcil!"
      A Poupa replicou:
      " tu que careces de inspirao e energia! s um co ou desejas ser atendente do hammam? Este mundo inferior no passa de uma sauna, e teu palcio faz parte 
dela. Ainda que seja um paraso, a morte, um dia, o converter numa priso de sofrimento. S se a morte deixasse de exercer seu domnio sobre as criaturas poderias 
permanecer contente no teu palcio de ouro".
       
O gracejo de um sbio em relao a um palcio
      Um rei construiu um palcio que lhe custou cem mil dinares. Adornado por fora de torres e cpulas douradas, era por dentro um paraso, graas aos mveis e 
tapetes. Concluda a construo, o rei convidou homens de todos os pases para visit-lo. Os convidados chegaram carregados de presentes, e o rei os fez sentarem-se 
ao seu lado. Em seguida, rogou-lhes:
      "Dizei-me o que achais do meu palcio. Esqueceu-se, acaso, de alguma coisa cuja falta lhe desfigura a beleza?"
      Todos protestaram que nunca existira na terra um palcio igual e que nunca se veria outro semelhante. Isto , todos menos um, um sbio, que se levantou e disse:
      "Existe, senhor, uma pequena rachadura que, para mim, constitui um defeito. No fora esse defeito e o prprio paraso vos traria presentes do mundo invisvel".
      "No vejo defeito nenhum", volveu o rei, colrico. "s um ignorante e s queres fazer-te importante."
      "No, orgulhoso rei", revidou o sbio, "a fresta a que me refiro  a mesma pela qual passar Azrael, o anjo da morte. Prouvera a Deus que pudsseis fech-la, 
pois, do contrrio, para que prestam o teu palcio magnfico, a tua coroa e o teu trono? Quando a morte chegar, eles no passaro de um punhado de p. Nada subsiste, 
e  isso que estraga a beleza da vossa morada. Nenhuma arte poder tornar estvel o instvel. Ah! No depositeis vossas esperanas de felicidade num palcio! No 
deixeis caracolar o corcel do vosso orgulho. Se ningum se atreve a falar com franqueza ao rei e lembrar-lhe as suas faltas, isso  uma grande infelicidade."
       

A aranha
      J observaste a aranha e reparaste em como passa fantasticamente o tempo? Com rapidez e previdncia, tece a teia maravilhosa, uma casa que aparelha para o 
seu uso. Quando a mosca se precipita de ponta-cabea na teia, ela corre a sugar o sangue da criaturinha e deixa seu corpo secar para servir-lhe de alimento. Depois, 
um belo dia, aparece a dona da casa brandindo uma vassoura e, num instante, l se vo a teia, a mosca e a aranha - todas elas!
      A teia representa o mundo; a mosca, a subsistncia que Deus nele colocou para o homem. Ainda que te caiba por sorte o mundo todo, podes perd-lo num abrir 
e fechar de olhos. No passas de uma criana no caminho da compreenso; no obstante, ficas brincando com bobagens do lado de fora da cortina. No lutes por lugares 
e posies se no comeste os miolos de um burro. E sabe, tolo estouvado, que este mundo  entregue aos touros. Aquele para o qual tambores e bandeiras significam 
alta dignidade nunca ser um dervixe; essas coisas so apenas o assobiar do vento, menos valiosas do que a menor das moedas. Doma o caracolar do corcel da tua loucura, 
e no te deixes iludir pela posse do poder. Assim como se esfola a pantera, assim a vida te ser arrebatada.
      Abre os olhos da verdadeira inspirao e descobre o caminho espiritual; pe os ps no Caminho de Deus e procura a corte celeste. Depois que a tiveres vislumbrado, 
j no estars aferrado ao brilho deste mundo.
       
O dervixe misantropo
      Cansado e desacoroado, exausto depois de muito caminhar no deserto, um homem chegou finalmente a um lugar em que vivia um dervixe solitrio, e perguntou-lhe:
      " dervixe, como vo as coisas para ti?"
      Ao que o dervixe replicou:
      "No te envergonhas de fazer uma pergunta como essa vendo-me aqui parado num lugar to restrito e to fechado?"
      "Isso no  verdade", contestou o homem. "Como podes estar fechado se vives neste imenso deserto?"
      E o dervixe:
      "Se o mundo no fosse to pequeno, nunca me terias encontrado!"
      
25
As desculpas do nono pssaro
      
      Outro pssaro disse  Poupa:
      " pssaro eminentssimo, sou escravo de um ser encantador que tomou posse de mim e privou-me da razo. A imagem do seu rosto querido  um ladro do grande 
Caminho; ela ps fogo na colheita da minha vida, e, quando nos separamos, no tenho um momento de paz. Estando, assim, meu corao inflamado de paixo, no sei como 
poderei realizar a viagem. Ser-me-ia preciso cruzar os vales e passar por uma centena de privaes. Pode-se, acaso, esperar que eu desampare a minha beldade para 
jornadear debaixo de um sol causticante e de um frio asprrimo? Sou fraco demais para partir sem ela; sou apenas o p da sua estrada. Tal  o meu estado. Que posso 
fazer?"
      A Poupa respondeu:
      "Ests aferrado a coisas visveis e entregue, de ps e mos atadas, ao sofrimento que a isso se segue. O amor sensual  um jogo. Fugaz  o amor inspirado pela 
beleza passageira. Ests sempre comparando um corpo de sangue e humores  beleza da lua. Que h de mais feio do que um corpo composto de carne e ossos? A verdadeira 
beleza est escondida. Procura-a, pois, no mundo invisvel. Se casse o vu que esconde os mistrios dos nossos olhos, nada mais restaria no mundo. Todas as formas 
visveis seriam reduzidas a nada".
       
Uma anedota de Shabli
      Certo dia, desfeito em prantos, um homem aproximou-se de Shabli. O sufi perguntou-lhe por que chorava.
      " xeque", disse ele, "eu tinha um amigo cuja beleza me tornava a alma to verdejante quanto os galhos das rvores na primavera. Ele morreu ontem, e eu tambm 
vou morrer de tristeza."
      Respondeu-lhe Shabli:
      "Por que te lastimas? Durante muito tempo privaste da sua amizade. Vai agora e busca outro amigo, um amigo que no morra, e assim no acumulars motivos de 
pesar. O apego a um mortal s pode redundar em sofrimento".
       
O rico mercador
      Um mercador rico em bens e dinheiro possua uma escrava doce como o acar. Apesar disso, um dia decidiu vend-la. Pouco tempo depois, no entanto, principiou 
a sentir-lhe a falta. Em sua saudade, procurou o novo proprietrio, a quem pediu que lha vendesse de volta, oferecendo mil moedas de ouro pelo seu resgate. Mas o 
outro se negou a desfazer-se dela. Por isso o mercador se foi e, jogando p sobre a cabea, disse:
      "A culpa  minha por haver costurado meus lbios e meus olhos; na minha cupidez, vendi minha amante por uma moeda de ouro. Foi um mau dia para mim aquele em 
que a vesti com os melhores vestidos e a levei ao bazar para vend-la por bom preo".
      Cada um dos sopros que medem tua existncia  uma prola, e cada um dos teus tomos  um guia para Deus. Os benefcios deste amigo cobrem-te da cabea aos 
ps. Se o conhecias verdadeiramente, como pudeste suportar a separao?
       
Uma anedota de Hallaj
      Quando se achava a pique de ser empalado, Hallaj pronunciou apenas estas palavras:
      "Eu sou Deus".
      Cortaram-lhe as mos e os ps, de modo que ele ficou lvido em virtude da perda de sangue. Logo, porm, ele esfregou no rosto os cotos dos braos, dizendo:
      "No me convm hoje parecer plido, porque pensaro que estou com medo. Vermelharei o rosto para que o homem sanguinrio que executou a sentena veja, quando 
virar os olhos para o cadafalso, que sou um homem corajoso".
      Quem come e dorme no ms de julho com o drago de sete cabeas dar-se- muito mal num jogo desses, mas o patbulo ser uma coisa insignificante para ele.
      
26
As desculpas do dcimo pssaro
      Esse pssaro disse  Poupa:
      "Tenho medo da morte. Ora, este vale  vasto, e no tenho nada para a viagem. Estou to cheio do medo da morte que a vida me deixar no primeiro ponto de parada. 
Ainda que eu fosse um poderoso emir,  hora da morte no sentiria menos medo. Aquele que tenta aparar o bote da morte com uma espada t-la- quebrada como um kalam; 
pois, infelizmente, a f na fora da mo e da espada s acarreta decepo e tristeza".
      Respondeu-lhe a Poupa:
      " tu, que s volvel e fraco de vontade! Queres continuar sendo um simples conjunto de ossos e medulas? No sabes que a vida, seja longa, seja curta, se compe 
de uns poucos sopros? No compreendes que quem quer que tenha nascido tambm tem de morrer? Que vai para dentro da terra e que o vento dispersa os elementos de que 
foi feito o seu corpo?
      "Foste alimentado para a morte; e trazido ao mundo para que possas ser levado dele! O cu  como um prato voltado para baixo que, todas as tardinhas, mergulha 
no sangue do ocaso. Poder-se-ia dizer que o sol, armado de uma cimitarra, vai cortando cabeas sobre esse prato. Sejas tu bom ou mau, s apenas uma gota d'gua amassada 
com terra. Embora tenhas passado toda a vida numa posio de autoridade, acabars, no fim, morrendo em aflio."


A Fnix
      A Fnix  um pssaro admirvel e lindo que vive no Hindusto. No tem companheiro, vive s. Seu bico, muito comprido e liso,  todo furado, como a flauta, 
e tem quase cem furos. Cada furo produz um som, e em cada som h um segredo especial. s vezes, ela cria msica atravs dos furos, e ao ouvir as notas que ela emite, 
meigas e plangentes, pssaros e peixes se agitam e os mais ferozes animais caem em xtase; depois, todos se calam. De uma feita, um filsofo visitou o pssaro e 
aprendeu com ele a cincia da msica. A Fnix vive cerca de mil anos e sabe exatamente o dia em que vai morrer. Chegada a hora da morte, rene  sua volta grande 
quantidade de folhas de palmeira e, desvairada entre as folhas, desfere gritos merencreos. Pelos furos do bico, emite notas variadas, e a msica lhe sai do fundo 
do corao. Suas lamentaes expressam a tristeza da morte, e ela treme qual uma folha. Ao som da sua trombeta, os pssaros e animais se aproximam para assistir 
ao espetculo, desnorteados, e muitos morrem por lhes faltarem as foras. Enquanto ainda respira, a Fnix bate as asas e eria as penas, e, com isso, produz fogo. 
O fogo se espalha pelas copas das palmeiras, e tanto as frondes quanto o pssaro so reduzidos a carves acesos e, logo, a cinzas. Mas depois que a derradeira chama 
tremeluz e se extingue, uma nova e pequena Fnix surge das cinzas.
      Nunca sucedeu a ningum renascer aps a morte? Ainda que vivesses tanto quanto a Fnix, morrerias quando se enchesse a medida da tua existncia. Os seus mil 
anos de vida esto cheios de lamentaes, e ela permanece s, sem companheiro nem filhos, e sem contato com ningum. Quando chega o fim, atira as prprias cinzas 
ao vento, de modo que se possa saber que ningum escapa da morte, seja qual for o artifcio que empregar. Aprende, pois, com o milagre da Fnix. A morte  um tirano, 
mas precisamos t-la sempre em mente. E, conquanto tenhamos muito que aguentar, isso  nada comparado ao morrer.
       
Conselho de Tai ao morrer
      Quando Tai jazia agonizante, algum lhe perguntou:
      " Tai, tu que viste a essncia das coisas, como ests agora?"
      E ele replicou:
      "No posso dizer nada sobre o meu estado. Medi o vento todos os dias da minha vida, mas eis que chegou o fim e serei enterrado; portanto, boa noite".
      No h outro remdio para a morte seno encar-la de frente desde o princpio. Todos nascemos para morrer; a vida no ficar conosco; precisamos resignar-nos 
a isso. At o que teve o mundo inteiro debaixo do selo do seu anel agora no  mais que um mineral na terra.
       

Jesus e o cntaro de gua
      Jesus bebeu da gua de um lmpido regato, cujo gosto era mais agradvel que o do orvalho da rosa. Um dos seus companheiros encheu um cntaro com a mesma gua, 
e eles se puseram de novo a caminho. Mais adiante, sentindo sede, Jesus tomou um gole da gua do cntaro, mas ela lhe soube mal; detendo-se, espantado, rezou:
      " Deus, a gua do regato e a gua do cntaro so a mesma. Dizei-me por que uma  mais doce do que o mel e a outra  to amarga".
      Falando, ento, disse o cntaro a Jesus:
      "Estou muito velho e j fui modelado mais de mil vezes debaixo do firmamento das nove cpulas - s vezes como vaso, s vezes como cntaro, s vezes como jarro. 
Fosse qual fosse a forma que assumia, eu sempre tinha comigo o travo da morte. Sou feito de modo que a gua que carrego compartilha sempre desse amargor".
       homem imprudente! Procura entender o sentido do cntaro. Forceja por desvendar o mistrio antes que a vida te seja arrebatada. Se, enquanto vivo, no lograres 
encontrar-te, conhecer-te, como compreenders o segredo da tua existncia ao morrer? Participas da vida do homem e, no entanto, no passas de um pseudo-homem.
       

Scrates e seus discpulos
      Quando Scrates se achava prestes a morrer, disse-lhe um dos discpulos:
      "Mestre, depois que vos tivermos lavado e amortalhado, onde desejais ser enterrado?'
      Scrates respondeu:
      "Se me encontrares, querido discpulo, enterra-me onde quiseres, e boa noite! Se em minha longa vida no consegui encontrar-me, como me encontrareis depois 
que eu estiver morto? Vivi de tal maneira que, neste momento, s sei que o menor dos fios de cabelo do conhecimento de mim mesmo no  evidente".
       
27
As desculpas do undcimo pssaro
      Outro pssaro disse  Poupa:
      " tu cuja f  sincera, no tenho sequer um sopro de boa vontade. Passei a vida atormentado, ambicionando a bola do mundo. Tamanha  a tristeza que mora em 
meu corao que nunca cesso de lamentar-me. Acho-me sempre num estado de assombro e impotncia; e quando, por um momento, me sinto contente, eis-me descrente. Em 
consequncia disso, fiz-me dervixe. Mas agora hesito em aventurar-me pela estrada do conhecimento espiritual. Se eu no tivesse o corao to cheio de tristeza, 
ficaria encantado com a viagem. Sinto-me, porm, num estado de perplexidade. E agora que te expus o meu caso, dize-me o que devo fazer".
      Disse a Poupa:
      "Tu que te entregaste ao orgulho, engolido pela pena de ti mesmo,  bom que estejas perturbado. Vendo que o mundo passa, tu mesmo devias passar ao lado dele. 
Abandona-o, pois quem quer que se identifique com as coisas transitrias no pode ter parte com as duradouras. Os sofrimentos que te afligem podem tornar-se gloriosos 
e no humilhantes. Aquilo que na aparncia exterior  sofrimento pode ser tesouro para o vidente. Uma centena de bnos cair sobre ti se fizeres um esforo no 
Caminho. Mas, tal como s, no passas de uma pele que recobre um crebro obtuso".
       
O escravo agradecido
      Um dia, um rei, bondoso por natureza, deu uma rara e bela fruta a um escravo, que a provou e logo declarou nunca haver provado nada to saboroso em sua vida. 
Isso levou o rei a querer prov-la tambm e a pedir ao escravo que lhe desse um pedao. Mas, quando a levou  boca, o rei achou a fruta amarssima e ergueu as sobrancelhas 
num esgar de espanto. O escravo explicou:
      "Senhor, havendo eu j recebido tantos presentes de vossas mos, como poderia queixar-me de um fruto amargo? Visto que fazeis chover benesses sobre mim, por 
que um simples amargor me alienaria de vs?"
      Portanto, servo de Deus, se experimentas o sofrimento no teu forcejar, deixa-te persuadir de que isso pode ser um tesouro para ti. A coisa parece virada do 
avesso, mas lembra-te do escravo.
       
O xeque e a velha
      Uma velha pediu ao xeque Mahmah:
      "Ensina-me uma prece para que eu possa achar contentamento. At hoje sempre fui dominada pelo descontentamento, mas agora desejo libertar-me".
      Replicou o xeque:
      "Muito tempo atrs, recolhi-me a uma espcie de fortaleza a fim de buscar com ardor o que desejas, mas nunca o senti e nunca o vi. Enquanto no aceitarmos 
tudo no caminho do amor, como poderemos estar contentes?"
       
Uma pergunta feita a Junaid
      Algum perguntou a Junaid:
      "Escravo de Deus, que no obstante s livre, dize-me como alcanar o estado de contentamento".
      Ao que Junaid replicou:
      "Aprendendo, pelo amor, a aceitar".
      O tomo s tem um brilho aparente. Por natureza  apenas um tomo, mas, se se perder no sol, compartir para sempre da qualidade solar.

O morcego em busca do sol
      Certa noite, ouviu-se um morcego dizer:
      "Como se d que eu seja incapaz, at por um momento, de ver o sol? Passei a vida inteira desesperado porque nem por um instante pude perder-me nele. Por meses 
e anos tenho voado para c e para l de olhos fechados, e aqui estou eu!"
      Um contemplativo interpelou-o:
      "O orgulho te persegue, e ainda tens milhares de anos para viajar. Como pode um ser como tu descobrir o sol? Pode a formiga alcanar a lua?"
      "Apesar disso", teimou o morcego, "continuarei tentando."
      E assim, por mais alguns anos, continuou a procurar, at que lhe faltaram as foras e as asas. Como ainda no tivesse descoberto o sol, imaginou:
      "Talvez eu o tenha ultrapassado".
      Ouvindo-o, um pssaro sbio interveio:
      "Ests sonhando; s tens voado em crculos e no avanaste nem um passo; e afirmas, em teu orgulho, que ultrapassaste o sol!"
      Isso deixou to abismado o morcego, que, compreendendo a prpria impotncia, humilhou-se completamente, dizendo:
      "Encontraste um pssaro com viso interior, no vs mais longe".
      
28
A pergunta do duodcimo pssaro
      Outro pssaro disse  Poupa:
      " tu que s nosso guia, que acontecer se eu te fizer a entrega do meu arbtrio? No posso, de livre e espontnea vontade, aceitar os trabalhos e sofrimentos 
que sei que terei de aguentar, mas posso concordar em obedecer s tuas ordens; e se eu, porventura, der uma cabeada, saberei ressarcir-te".
      A Poupa replicou:
      "Falaste bem, no se pode esperar nada melhor do que isso. Pois como hs de continuar senhor de ti se segues teus gostos e desgostos? Mas se obedeceres voluntariamente 
poders tornar-te senhor de ti mesmo. Quem se submete  obedincia nesse caminho livra-se de decepes e safa-se de muitas dificuldades. Servir a Deus por uma hora, 
de acordo com a verdadeira lei, vale tanto quanto servir ao mundo por uma existncia inteira. Quem aceita o sofrimento passivo  como o cachorro perdido que precisa 
obedecer aos caprichos de qualquer transeunte. Mas quem suporta, nem que seja por um momento, o sofrimento ativo neste caminho ser plenamente recompensado".
       
Bayazid e Tarmazi
      Um doutor erudito, eixo do mundo abenoado com excelentes qualidades, referiu o seguinte:
      "Uma noite, vi num sonho Bayazid e Tarmazi, que me pediram para ser seu chefe. Fiquei muito curioso por saber por que esses dois xeques eminentes me tratavam 
com tamanha deferncia. Lembrei-me ento de que, certa manh, arranquei um suspiro das profundezas do corao e, quando o sopro subiu, fez girar o martelo da porta 
do santurio, de modo que esta se abriu para mim. Entrei, e todos os mestres espirituais e seus discpulos, falando sem palavras, perguntavam-me qualquer coisa - 
todos, exceto Bayazid Bistami, que desejava encontrar-se comigo mas no queria perguntar-me coisa alguma. Disse ele: 'Quando ouvi o chamado do teu corao compreendi 
que no preciso de mais nada seno obedecer s tuas ordens e ser guiado pela tua vontade. Como no sou nada, quem sou eu para dizer o que desejo? Basta ao servo 
cumprir os desejos do amo'.
      "Foi por isso que os xeques me trataram com respeito e me deram precedncia. Quando caminha em obedincia, o homem age de acordo com a palavra de Deus. No 
 servo de Deus o que se gaba de o ser. O verdadeiro servo revela sua qualidade no tempo do ordlio. Sujeita-te, pois, a provaes, para que possas conhecer-te."
       
O escravo e o manto de honra
      Um rei deu um manto de honra a um escravo, que saiu do palcio real muito satisfeito da vida. Enquanto caminhava, a poeira da rua depositou-se nele, e o escravo, 
inadvertidamente, enxugou o rosto com a manga do manto. Algum que tinha inveja dele foi correndo informar o rei do que acontecera, e o monarca, indignado com essa 
quebra das boas maneiras, mandou empal-lo.
      Quem se desonra com um proceder indecoroso no  digno de limpar o tapete de um rei.
      
29
O pedido do dcimo terceiro pssaro
      Outro pssaro pediu  Poupa:
      " tu cujos motivos so sem malcia, dize-me como posso ser sincero neste caminho para Deus. Visto que no consigo desistir do desejo do meu corao, gasto 
quanto tenho para atingir minha meta. Perdi o que tinha; o que guardei converteu-se em escorpies em minhas mos. Lao nenhum me prende, e lancei de mim todas as 
algemas e impedimentos. Desejo ser sincero no Caminho espiritual, na esperana de ver um dia, face a face, o objeto do meu culto".
      A Poupa retrucou:
      "O Caminho no est aberto para qualquer um; s aos justos se permite trilh-lo. Quem se esfora neste Caminho deve faz-lo tranquilamente e com todo o corao. 
Quando tiveres queimado tudo o que possuis, junta as cinzas e senta-te sobre elas. Enquanto no morreres para todas as coisas deste mundo, uma por uma, no sers 
livre. E vendo que no ficars muito tempo na priso do mundo, aparta-te de tudo. Quando vier a morte, podero as coisas que ora te escravizam afast-la? Para palmilhar 
esta estrada faz-se mister sinceridade consigo mesmo - e ser um homem sincero consigo mesmo  mais difcil do que pensas".
       
Dito alegrico de Tarmazi
      O santo do Turquesto disse um dia a si mesmo: "Amo duas coisas: meu filho e meu cavalo malhado. Se eu fosse informado de que meu filho havia morrido, entregaria 
meu cavalo em ao de graas, pois essas duas coisas so como dolos para a minha alma".
      Pe fogo nas tuas faltas, nos teus ressentimentos e nas tuas vaidades. Queima-os e no te gabes de ser mais sincero do que os outros. Quem se orgulha da prpria 
sinceridade deveria esforar-se por se ver tal qual .
       
O xeque Khircani e a berinjela
      Um dia, o xeque Khircani, que descansava sobre o prprio trono de Deus, sentiu muita vontade de comer uma berinjela. Pediu-a com a trompa e com a voz, de modo 
que sua me foi busc-la. Assim que ele comeu a berinjela, aconteceu uma desgraa: cortaram a cabea de seu filho, e um homem malvado a colocou  sua porta durante 
a noite. Disse ento o xeque:
      "Por cem vezes me ocorreu o pressentimento de que, se eu comesse uma berinjela, nem que fosse um pedacinho s, algo desastroso aconteceria. Mas o desejo de 
com-la era to forte que no consegui domin-lo".
      Quem permite aos desejos que o dominem abafa a prpria alma. Os letrados no sabem nada; no h segurana no seu saber; e so necessrias muitas espcies de 
conhecimento. A cada momento chega uma nova caravana e uma nova provao.
      No conheo ningum to afortunado quanto os magos do fara, os quais, com a f dos homens de hoje, separaram suas almas de si mesmos; e, estribados na religio, 
abandonaram todo o amor das coisas do mundo.
       
30
Fala o dcimo quarto pssaro
      Outro pssaro disse  Poupa:
      " tu que s clarividente! O que propes  uma digna aspirao. Conquanto eu parea fraco, tenho, na realidade, um nobre ardor; embora minha fora seja reduzida, 
minha ambio  sublime".
      A Poupa respondeu:
      "Se tens um pouco dessa nobre ambio, por menor que seja, ela triunfar do prprio sol. A aspirao  as asas e as penas do pssaro da alma".
       
A velha que queria comprar Jos
      Conta-se que, quando Jos foi vendido aos egpcios, estes o trataram com bondade. Os compradores eram numerosos, de sorte que os mercadores o aprearam em 
cinco a dez vezes o seu peso em almscar. Enquanto isso, presa de grande agitao, uma velha saiu correndo e, metendo-se entre os compradores, pediu a um egpcio:
      "Deixa-me comprar o cananeu, pois desejo muito possuir esse moo. Fiei dez bobinas de fio para pag-lo, por isso fica com elas, d-me Jos e no se fala mais 
nisso".
      Sorriram-se os mercadores e disseram:
      "A tua simplicidade iludiu-te. Esta prola nica no  para o teu bico; j ofereceram por ele uma centena de tesouros. Como poders dar um lance mais alto 
do que o deles com as tuas bobinas de fio?"
      Fitando o olhar no rosto deles, respondeu a mulher:
      "Sei perfeitamente que no o vendereis por to pouco, mas  o bastante para mim que meus amigos e inimigos digam: 'Essa velha estava entre os que queriam comprar 
Jos' ".
      Quem no tem aspirao jamais alcanar o reino sem limites. Tomado dessa sublime ambio, um grande prncipe considerava o seu reino terrestre um punhado 
de cinzas.
      Quando se deu conta do vazio da realeza temporal, concluiu que a realeza espiritual valia um milhar de reinos do mundo.
       
Ibrahim Adham
      Um homem vivia a queixar-se das amarguras da pobreza, de modo que Ibrahim Adham o interpelou:
      "Meu filho, no pagaste pela tua pobreza?"
      "O que dizes  tolice", volveu o homem, "como haveria algum de comprar a pobreza?"
      Tornou Adham:
      "Eu, pelo menos, a escolhi voluntariamente e a comprei ao preo do reino do mundo. E ainda compraria um momento dessa pobreza por uma centena desses mundos".
      Os homens que tm sede de aperfeioar-se empenham nesse esforo a alma e o corpo. O pssaro da aspirao eleva-se a Deus, nas asas da f, sobre as coisas temporais 
e espirituais. Se te falta a aspirao,  melhor que te retires.
       
O mundo de acordo com um sufi
      Um sufi despertou certa noite e disse para si: "O mundo me parece uma arca na qual somos colocados e onde, fechada a tampa, nos entregamos a toda a sorte de 
loucuras. Quando a morte ergue a tampa, o que conquistou asas ala vo para a eternidade, mas o que no as conquistou continua na arca, presa de mil tribulaes. 
Certifica-te, pois, de que o pssaro da ambio adquire asas de aspirao e d ao teu corao e  tua razo o xtase da alma. Antes que se abra a tampa da arca, 
converte-se num pssaro do Esprito, pronto para estender as asas".
       
31
A dvida do dcimo quinto pssaro
      Outro pssaro disse  Poupa:
      "Se o rei de que falamos  justo e verdadeiro, Deus tambm nos deu honestidade e integridade; e jamais careci de justia no trato com os outros. Quando se 
encontram essas qualidades num homem, que lugar ocupar ele no conhecimento das coisas espirituais?"
      A Poupa retorquiu:
      "A justia  o rei da salvao. O justo est a salvo de todos os tipos de erros e futilidades.  melhor ser justo do que passar a vida inteira nas genuflexes 
e prosternaes do culto exterior. Nem a liberalidade se iguala, nos dois mundos,  justia exercitada em segredo; mas quem professa a justia abertamente achar 
difcil no se tornar um hipcrita. Quanto aos homens do Caminho espiritual, no pedem justia a ningum, mas recebem-na generosamente de Deus".

Uma anedota do im Hambal
      Ahmad Hambal era o im do seu tempo, cujo mrito excedia todos os louvores. De uma feita, desejando descansar dos estudos e do cargo, saiu  rua para falar 
com um homem muito pobre. Algum que o viu censurou-o, dizendo:
      "No h ningum to ilustrado quanto vs, e no tendes preciso das opinies de outro homem; a despeito disso, perdeis tempo com um pobre miservel que anda 
descalo e com a cabea descoberta".
      " verdade", conveio o im, "que conquistei a bola de plo no hadis e na sunna, e que tenho mais conhecimentos do que esse homem; mas, no que concerne  compreenso, 
ele est mais perto de Deus do que eu."
      Tu, que s injusto por ignorncia, reflete, pelo menos por um momento, na integridade dos que esto no caminho do esprito.
       
O raj indiano
      O sulto Mahmud certa vez aprisionou um velho raj, que, experimentando o amor de Deus, fez-se muulmano e renunciou aos dois mundos. Sentado a ss na tenda, 
deixou-se absorver inteiramente por esses sucessos e comeou a verter lgrimas amargas e a despedir suspiros de desejo - de dia mais do que de noite, e de noite 
mais do que de dia. Finalmente, inteirado disso, Mahmud mandou cham-lo:
      "No chores nem te lamentes", disse-lhe, "s um raj, e eu te darei uma centena de reinos por aquele que perdeste".
      " padix", replicou o hindu, "no choro pelo meu reino nem pela minha dignidade perdida. Choro porque, no dia da ressurreio, Deus, o detentor da Glria, 
me dir: ' homem desleal, semeaste contra mim a semente do insulto. Antes de Mahmud te atacar, nunca pensaste em mim. S quando tiveste de jogar o teu exrcito 
contra ele e perdeste tudo minha lembrana te acudia. Crs que isso  justo?'  jovem rei,  de vergonha que choro em minha velhice."
      Atenta para as palavras da justia e da f; atenta para os ensinamentos do Div dos Livros Sagrados. Se tens f, empreende a viagem para a qual te convido. 
Mas o que no figura no ndice da fidelidade seja encontrado no captulo da generosidade!
       
O guerreiro muulmano e o cruzado cristo
      Um muulmano e um cristo estavam lutando quando chegou o momento, para o muulmano, de fazer suas oraes, de sorte que ele, orgulhoso, pediu ao cristo que 
lhe concedesse uma trgua. O cruzado concordou, e o muulmano, afastando-se, fez suas oraes. Quando voltou, reiniciou-se o combate com. renovado vigor. Pouco depois, 
por seu turno, o cruzado solicitou uma pausa para poder dizer as suas preces. Sendo-lhe atendido o pedido, ele tambm se afastou e, escolhendo um local apropriado, 
prosternou-se no p diante do seu dolo. Quando o muulmano viu o adversrio de cabea baixa, disse a ss consigo: "Esta  a minha oportunidade de lograr a vitria", 
e veio-lhe a idia de golpe-lo  traio. Mas uma voz interior recriminou-o: " homem desleal, que pretendes trair o teu compromisso,  assim que mantns a tua 
palavra? O descrente no sacou da espada contra ti quando lhe pediste uma trgua. No te lembras das palavras do Coro: 'Cumpre fielmente tuas promessas'? Visto 
que um infiel foi generoso contigo, no te mostres inferior a ele. Ele agiu bem, queres agir mal. Faze-lhe o que ele te fez. Sers tu, muulmano, indigno de confiana?" 
Conteve-se o muulmano. Torturado pelo remorso, viu-se banhado em lgrimas da cabea aos ps. Quando o cruzado deu tento do seu pranto, perguntou-lhe a razo dele.
      "Uma voz celestial", explicou o muulmano, "censurou-me por no ter sido leal contigo. Vs-me neste estado porque fui vencido pela tua generosidade."
      Ouvindo-o, o cristo despediu um grande grito e disse:
      "J que Deus pode mostrar-se favorvel a mim, seu inimigo declarado, e censurar seu amigo por deslealdade, como poderei persistir na infidelidade? Expe-me 
os princpios do Islam para que eu possa abraar a verdadeira f e, lanando de mim o politesmo, adotar os ritos da lei. Oh, como deploro a cegueira que me impediu, 
at agora, de reconhecer um Mestre assim!"
       tu, que deixaste de procurar o verdadeiro objeto dos teus desejos e careces grosseiramente da f que lhe  devida! Creio que vir o momento em que, na tua 
presena, o cu rememorar todos os teus atos, um por um.
       
Jos e seus irmos
      No tempo da fome, os dez irmos de Jos realizaram a longa viagem ao Egito. Jos recebeu-os, com o rosto coberto por um vu, e eles, depois de relatarem as 
agruras da jornada, pediram ajuda contra os terrores da fome.
      Defronte de Jos havia uma taa, que ele golpeou com a mo, arrancando dela um som lastimoso. Os irmos mostraram-se consternados: soltaram a lngua e perguntaram-lhe:
      " Aziz! Sabes tu, ou sabe algum, o que significa este som?"
      "Sei muito bem", respondeu Jos, "mas vs no suportareis que eu vos diga o que ele significa; pois a taa revela que tnheis um irmo, notvel por sua beleza, 
que se chamava Jos."
      Em seguida, golpeou a taa pela segunda vez e disse:
      "Diz-me a taa que o jogastes num poo e matastes um lobo inocente para, com o seu sangue, sujar o casaco de Jos".
      Golpeou a taa pela terceira vez e arrancou dela, de novo, um som lamentoso. E ajuntou:
      "Afirma a taa que os irmos de Jos venderam o irmo e mergulharam o pai num abismo de dor.
      "O que foi que esses infiis fizeram a seu irmo? Temei a Deus, pelo menos,  vs que estais diante de mim!"
      Isso os deixou em tal estado que eles se puseram a suar de medo, eles, que tinham vindo pedir po. Ao venderem Jos, tinham-se vendido; e quando o largaram 
no poo, foram arremessados numa voragem de aflio.
      O que ler esta histria sem proveito  cego. No passes os olhos por ela com indiferena, porque esta no  seno a tua prpria histria. Continuas a cometer 
pecados e faltas porque no te alumia a luz da compreenso. Se algum golpear a taa da tua vida, por de manifesto, para ti mesmo, teus atos culposos. Quando a 
taa da tua vida for golpeada e despertares do sono; quando tuas injustias e pecados forem expostos, um por um, duvido que conserves a paz ou a razo. Semelhas 
uma formiga coxa numa tigela. Quantas vezes j desviaste a cabea da taa do cu? Estende as asas e voa para o alto, tu, que tens conhecimento da verdade. Seno, 
corrers sempre que ouvires o som de uma taa.

32
A pergunta do dcimo sexto pssaro
      Outro pssaro indagou da Poupa:
      " tu, que s nosso chefe, responde: poderemos ser ousados quando nos aproximarmos da majestade do Simurgh? Parece-me que o que tem coragem est isento de 
muitos temores. Visto que s corajosa, espalha prolas de sabedoria e conta-nos o segredo".
      "Todo aquele que  digno", retrucou a Poupa, " o mahram do segredo da divindade, e  bom sermos ousados quando temos a inteligncia dos segredos de Deus. 
Mas como pode algum que possui os segredos comunic-los a outrem? Ainda assim, se nos move o puro amor, alguma ousadia  permitida. Quem est no caminho do conhecimento 
de si mesmo sabe quando deve ser ousado e no se deixa morrer por falta de esforo.
      "Um verdadeiro dervixe ser ousado e confiante em razo da esperana verdadeira que experimenta. O que  destemido graas ao amor v o Senhor em tudo. Sua 
ousadia  boa e louvvel, porque ele  um idiota do amor inflamado."

Um idiota de Deus e os escravos de Amid
      Khorassan se achava em prspera situao em virtude do sbio governo do prncipe Amid, que era servido por cem escravos turcos, cujos semblantes brilhavam 
como a lua cheia, cujos corpos eram ciprestes esguios, cujas pernas se diriam de prata e cujo hlito recendia a almscar. Usavam brincos de prolas, com reflexos 
que iluminavam a noite e a faziam parecer dia; seu turbante era do mais fino brocado, e eles traziam, em volta do pescoo, colares de ouro; cobria-lhes o peito um 
tecido de prata e pedras preciosas lhes enriqueciam o cinto. Todos montavam cavalos brancos. E quem quer que olhasse para qualquer um deles ficava imediatamente 
apaixonado. Um sufi, maltrapilho e descalo, viu, por acaso,  distncia, o grupo de moos e perguntou:
      "Que  aquela cavalgada de huris?"
      "Aqueles moos", responderam-lhe, "so os pajens de Amid, o prncipe desta cidade."
      Quando o idiota de Deus ouviu isso, o vapor da loucura lhe subiu  cabea e ele bradou:
      " Deus, dono do glorioso cu, ensina Amid a cuidar dos seus servos!"
      Se s como esse idiota, tem tambm a sua ousadia; ergue-te como uma rvore esguia; mas, se no tiveres folhas, no sejas atrevido e no brinques. A audcia 
dos idiotas de Deus  boa coisa. Eles no sabem dizer se o caminho  bom ou mau; s sabem agir.
       
Um idiota santo
      A Poupa continuou:
      "Um idiota de Deus andava nu e quase morto de fome por uma estrada em pleno inverno. Como no tinha casa nem abrigo, estava encharcado de gua da chuva e de 
granizo. Chegou, afinal, a um palcio em runas e decidiu abrigar-se ali; mas, quando ia entrar, j no portal, uma telha lhe caiu na cabea e rachou-lhe o crnio, 
de modo que o sangue principiou a correr. Virando o rosto para o cu, o idiota de Deus perguntou:
      "No teria sido prefervel fazer soar o tambor real a deixar cair uma telha na minha cabea?"
       
A prece de um louco
      Grassava no Egito uma fome to terrvel que em toda parte as pessoas morriam implorando um pedao de po. Ao ver quanta gente se finava de fome, um louco que 
por ali passava casualmente disse a Deus:
      " tu, que possuis as boas coisas do mundo e da religio: j que no podes dar de comer a todos os homens, cria-os em menor nmero".
      Se algum atrevido no tribunal disser uma inconvenincia, dever humildemente pedir perdo.
       
Outro louco
      Um sufi, um idiota de Deus, estava sendo atormentado por um bando de crianas que lhe atiravam pedras. Finalmente, refugiou-se num canto de um prdio. Naquele 
momento, porm, comeou a saraivar e o granizo lhe caiu na cabea. Tomando-o pelas pedras que lhe atiravam as crianas, o homem ps-se a mostrar-lhes a lngua e 
a insult-las, na suposio de que elas continuavam a apedrej-lo, pois a casa se achava s escuras. Por fim, descobrindo que as pedras no passavam de granizo, 
arrependeu-se e orou:
      " Deus, foi por estar a casa s escuras que pequei com a lngua".
      Se compreenderes os motivos dos que esto no escuro, sem dvida os perdoars.
      
33
O dcimo stimo pssaro interroga a Poupa
      Outro pssaro disse  Poupa:
      "Enquanto eu viver, o amor do Ser Eterno me ser caro e agradvel, e nunca deixarei de pensar nele. Tenho convivido com todas as criaturas vivas e, longe de 
me haver apegado a elas, no me identifiquei com nenhuma. A loucura do amor me ocupa todos os pensamentos, de modo que, para mim, o amor  bastante. Mas esse amor 
no convm a todos, e agora chegou o momento em que devo traar uma linha de minha vida para poder aceitar uma taa de vinho de meu amado; nesse instante, os olhos 
do meu corao se tornaro luminosos graas  sua beleza, e minha mo tocar o seu pescoo como penhor da unio."
      Replicou a Poupa:
      "No  com essas pretensiosas fanfarronadas que algum pode vir a ser hspede respeitado do Simurgh do Cucaso. No exaltes tanto o amor que acreditas sentir 
por ele, pois nem todos podero possu-lo. Cumpre que o vento da boa fortuna erga o vu do mistrio para que o Simurgh te atraia a si e para que te sentes com ele 
em seu harm. Se quiseres chegar ao stio sagrado, precisas, primeiro que tudo, esforar-te por ter um conhecimento das coisas espirituais, pois, de outro modo, 
o teu amor ao Simurgh se transformar em tormento. Para a tua verdadeira felicidade, ser foroso que o Simurgh tambm te ame".
       
O sonho de um discpulo de Bayazid
      Na mesma noite em que Bayazid partiu do palcio deste mundo, um discpulo o viu em sonhos; e perguntou a esse excelente pir como conseguira escapar de Munkir 
e Nakir. Respondeu-lhe o sufi:
      "Quando esses dois anjos me interrogaram a respeito do Criador, eu lhes disse: 'A pergunta no pode ser respondida com preciso, pois, se eu disser: Ele  
meu Deus, e isso  tudo, estarei apenas expressando um desejo meu; ser melhor que volteis para Deus e lhe pergunteis o que ele pensa de mim. Se ele me chamar seu 
servo, sabereis que assim . Caso contrrio, sabereis que ele me abandona aos laos que me prendem. Visto no ser fcil obter a unio com Deus, de que me servir 
chamar-lhe Meu Senhor? Se ele no aceita o meu servio, como poderei pretender que seja meu amo?  verdade que inclinei a cabea, mas tambm se faz mister que ele 
me chame seu escravo'".
       

Mahmud na sauna
      Certa noite, Mahmud, que se sentia deprimido, entrou disfarado no hammam. Um jovem atendente deu-lhe as boas-vindas e fez os arranjos necessrios para que 
ele pudesse transpirar confortavelmente sobre os carves ardentes. Feito isso, deu ao sulto um pedao de po seco, que ele comeu. Disse, ento, o sulto para si 
mesmo: "Se este atendente se tivesse recusado a receber-me, eu teria mandado cortar-lhe a cabea". Por fim, o sulto declarou ao jovem que desejava tornar ao seu 
palcio. Sobreveio o moo:
      "Comestes da minha comida, conhecestes a minha cama e fostes meu hspede. Terei sempre imenso prazer em receber-vos. Conquanto, na verdade, sejamos feitos 
da mesma substncia, como, no que concerne s coisas externas, podeis ser comparado a algum de to baixa condio?"
      O sulto agradou-se tanto da resposta que voltou vrias vezes a ser hspede do atendente. Na ltima ocasio, ordenou-lhe que fizesse um pedido.
      "Se eu, um mendigo, fizer um pedido", disse o atendente, "o sulto mo negar."
      "Pede o que quiseres", instou com ele o sulto, "nem que seja deixar o hammam para tornar-se rei."
      "Meu nico pedido", confessou o jovem, " que o sulto continue a ser meu hspede. O atendente de banho sentado ao vosso lado numa sauna  mais feliz que o 
rei num jardim sem vs. Visto que a boa fortuna me visitou por obra da sauna, seria ingratido de minha parte deix-la. Vossa presena iluminou este lugar; que mais 
posso pedir alm de vs?"
      Se amas a Deus, busca tambm ser amado por ele. Mas ao passo que um homem procura esse amor, sempre velho e sempre novo, outro deseja dois bolos de prata 
do tesouro do mundo; procura uma gota d'gua quando poderia ter o oceano.
       
Os dois aguadeiros
      Encontrando-se com um colega, um aguadeiro pediu-lhe um pouco da sua gua. O outro retrucou-lhe:
      " tu, que s ignorante das coisas espirituais, por que no bebes a tua prpria gua?"
      E o primeiro respondeu:
      "D-me um pouco da tua gua,  tu que tens o conhecimento espiritual, pois estou enjoado da minha".
      Ado estava farto das coisas familiares, e por isso decidiu provar o trigo, coisa nova para ele. Vendeu as coisas velhas para comprar um pouco de trigo. Tornou-se 
injusto. Chegou o amor e bateu-lhe  porta,  sua procura. Quando o relmpago do amor o destruiu completamente, tanto as coisas velhas quanto as novas desapareceram 
e nada sobrou! Mas no  dado a todos enfararem-se de si mesmos e morrerem completamente para a vida antiga.
       
34
O discurso do dcimo oitavo pssaro
      Outro pssaro disse  Poupa:
      "Acredito haver conquistado para mim toda a perfeio possvel, e conquistei-a  fora de penosas austeridades. Uma vez que obtive aqui o resultado que almejava, 
-me difcil sair  cata do lugar de que falas. J conheceste, acaso, algum que tenha deixado um tesouro para vaguear dificultosamente pelas montanhas, no ermo 
e atravs das plancies?"
      Replicou a Poupa:
      " diablica criatura, cheia de vaidade e presuno!  tu, que ests mergulhado no egosmo!  tu, que sentes tamanha averso pelo fazer! Foste seduzido pela 
imaginao e ests agora distante das coisas divinas. O corpo de desejo domina-te o esprito; o Diabo roubou-te o crebro. O orgulho apossou-se de ti. A luz que 
julgas ter no Caminho Espiritual no passa de uma chama bruxuleante. O teu amor s coisas espirituais  imaginrio. No te deixes seduzir pelo tnue claro que vs. 
Enquanto o teu corpo de desejo te enfrentar, tem tento em ti. Precisas combater esse inimigo com a espada na mo. Quando se mostra uma luz falsa, vinda do teu corpo 
de desejo, olha para ela como se fosse o aguilho de um escorpio, para o qual deves usar salsa. No te desesperes por causa da escurido do caminho que te mostrarei 
e porque a luz que ali vers no te incutir a pretenso de seres companheiro do sol. Enquanto continuares a viver no orgulho da vida,  meu querido, tuas leituras 
e teus esforos mofinos no valero um bolo. S depois de renunciares ao orgulho e  vaidade sers capaz de deixar esta vida sem pesar. Enquanto seguires aferrado 
 presuno,  ufania e s coisas da vida exterior, cem flechas vexativas te feriro de todos os lados.
       
O xeque Abu Bekr de Nishapur
      O xeque saiu, um dia, do mosteiro em companhia dos discpulos, montado no seu burro, enquanto os companheiros iam a p. De repente, o burro peidou estrepitosamente, 
fazendo que o xeque desse um grito e rasgasse a khirka. Os discpulos miraram-no, surpresos, e um deles perguntou-lhe por que agira desse modo. O xeque explicou:
      "Quando olhei  minha volta e vi o nmero dos meus seguidores, pensei comigo mesmo: 'Agora sou realmente igual a Bayazid. Hoje me acompanham inmeros discpulos 
fervorosos; assim sendo, amanh estarei cavalgando, sem dvida, com glria e honra, na plancie da ressurreio' ". E, logo, ajuntou: "Foi ento, ao presumir ser 
esse o meu destino, que o meu burro fez aquele barulho aparentemente imprprio, que ouvistes e com o qual queria dizer: 'Eis aqui a rplica que d um burro a quem 
tem tais pretenses e pensamentos to vos!' Da que o fogo do arrependimento se abatesse to de repente sobre minha alma, e minha atitude se modificasse, e minha 
posio imaginria casse ao cho feita em pedaos".
       tu, que mudas a cada momento, s como o fara at as razes dos cabelos. Mas se destrures em ti mesmo o ego por um s dia, tua escurido iluminar-se-. 
Nunca digas a palavra "eu". Tu, por causa dos teus "eus", incorreste numa centena de males e sers sempre tentado pelo Diabo.
       
Deus fala a Moiss
      Um dia, em segredo, disse Deus a Moiss:
      "Vai pedir conselho a Satans".
      Moiss foi visitar Iblis e, quando se aproximou dele, pediu-lhe um conselho.
      "Lembra-te sempre", disse Iblis, "deste axioma singelo: nunca digas 'eu', para que nunca venhas a ser como eu."
      Enquanto subsistir em ti um pouco que seja de egosmo, participars de infidelidade. A indolncia  uma barreira no caminho espiritual; mas se a conseguires 
transpor, uma centena de "eus" quebrar a cabea num momento.
      Toda gente v tua vaidade e presuno, teu ressentimento, inveja e clera, mas tu mesmo no os vs. H um canto do teu ser cheio de drages e, por negligncia, 
te entregas a eles; e os animas e acarinhas dia e noite. Assim, se tens conscincia do teu estado interior, por que continuas to indiferente?
       
O dervixe que possua uma bela barba
      No tempo de Moiss havia um dervixe que passava os dias e as noites em estado de adorao, conquanto no tivesse nenhuma sensibilidade pelas coisas espirituais. 
Possua uma longa e bela barba e, muita vez, quando estava rezando, interrompia as oraes para pente-la. Um dia, topando com Moiss, abeirou-se dele e pediu:
      " pax do monte Sinai, roga a Deus, por favor, que me diga por que no experimento nem satisfao espiritual nem xtase".
      Na outra vez que Moiss escalou o Sinai, falou a Deus a respeito do dervixe, e Deus disse, em tom de desaprovao:
      "Se bem tenha procurado unio comigo, esse dervixe est constantemente pensando na sua longa barba".
      Quando desceu, Moiss repetiu ao sufi as palavras de Deus. Ouvindo-as, o sufi ps-se a arrancar a barba, chorando amargamente. Nisso, Gabriel foi ter com Moiss 
e lhe disse:
      "Ainda agora o teu sufi est pensando na barba. No pensou em outra coisa enquanto rezava, e sente-se ainda mais apegado a ela agora que a est arrancando!"
       tu, que cuidas haver deixado de te preocupar com a tua barba, ests mergulhado num oceano de aflio. Quando puderes pensar nela com alheamento, ters o 
direito de cruzar, navegando, esse oceano. Mas se nele mergulhares com a tua barba, ser-te- difcil sair dele.
       
Outra anedota de um homem com uma longa barba
      Um bbado que tinha uma barba comprida e bonita caiu por acidente numa lagoa funda. Ao v-lo cair, um homem que passava gritou:
      "Tira a sacola que tens na cabea!"
      O homem que se afogava contestou:
      "Isto no  sacola,  a minha barba, e no  ela que me atrapalha".
      Mas o homem que estava passando insistiu:
      "Seja o que for, livra-te dela, ou acabars te afogando".
       vs, que sois como bodes, e no vos pejais das vossas barbas enquanto tiverdes um corpo de desejo e um demnio para amarrar-vos, o orgulho de fara e de 
Hanna ser o vosso quinho. Voltai as costas para o mundo, como fez Moiss, e sereis capazes de agarrar o fara pela barba e segur-lo com firmeza. Quem percorre 
o caminho da luta consigo mesmo deve encarar o corao apenas como shish kabab. O homem que tem o regador no espera chover.
      
35
A dvida do dcimo nono pssaro
      Outro pssaro disse  Poupa:
      "Dize-me,  tu, que s famosa no mundo inteiro, que devo fazer para sentir-me contente nesta viagem? Se mo disseres, minha mente se sentir mais aliviada, 
e estarei disposto a deixar-me conduzir nesta empresa. Com efeito, a direo  necessria para no ficarmos apreensivos. E como s desejo aceitar a direo do mundo 
invisvel, repilo, com boas razes, a falsa direo das criaturas terrenas".
      "Enquanto viveres", replicou a Poupa, "contenta-te com te lembrares de Deus, e mantm-te em guarda contra conversas indiscretas. Se o puderes fazer, os cuidados 
e tristezas da tua alma se desvanecero. Vive contente em Deus; gira, por amor dele, como o domo do cu. Se souberes de algo melhor, dize o que ,  pobre pssaro, 
para que possas ser feliz ao menos por um momento."
       

A anedota de um amigo de Deus
      Um amigo de Deus que estava morrendo ps-se a chorar, e os que lhe faziam companhia perguntaram por que chorava.
      "Choro como as nuvens da primavera", disse ele, "porque chegou o momento em que devo morrer e estou perturbado. Se meu corao j est com Deus, como posso 
morrer?"
      "Se teu corao j est com Deus, ters uma boa morte", acudiu um dos presentes.
      Replicou o sufi:
      "Como pode vir a morte a quem est unido a Deus? Se j estou com ele, minha morte parece impossvel!"
      Quem se contenta com existir como partcula do grande todo perde o egosmo e torna-se livre. Est em contentamento com o teu amigo, como a rosa no clice.
       
Anedota alegrica
      Disse um homem aperfeioado:
      "Por setenta anos trabalhei o meu esprito e agora estou em estado de xtase, contentamento e felicidade, e nele participo da Majestade Soberana, unido  prpria 
Divindade. No que te concerne, enquanto te ocupas em procurar as falhas dos outros, como provars a alegria do mundo invisvel? Se procuras falhas com olhos minuciosos, 
como vers as coisas do mundo interior? Quando se trata dos erros alheios, s capaz de dividir ao meio um fio de cabelo, mas olhas para os teus com olhos de cego. 
Confessa tuas prprias faltas e, por mais culpado que sejas, Deus se amercear de ti".
       
Os dois bbados
      Um homem que se excedia no beber chegava amide a perder no s o juzo mas tambm o respeito prprio. Certo dia, um amigo encontrou-o nesse estado deplorvel, 
sentado no meio da rua. Arranjou um saco, colocou-o dentro dele, enfiando-lhe primeiro os ps, ps o saco s costas e guiou para casa. No caminho, apareceu outro 
bbado, cambaleando, sustentado por um companheiro. O homem cuja cabea pendia para fora do saco despertou e, vendo o outro naquele estado, disse, em tom repreensivo:
      "Ah, infeliz, no futuro bebe dois copos de vinho a menos, e sers capaz de andar como eu estou andando - livre e s".
      Nosso prprio estado no  diferente. Vemos faltas porque no amamos. Se tivssemos alguma compreenso do verdadeiro amor, por menor que fosse, as faltas das 
pessoas  nossa volta nos pareceriam boas qualidades.


O apaixonado e sua amante
      Um jovem, valente e impetuoso como um leo, esteve, durante cinco anos, apaixonado por uma mulher. Num dos olhos da sua beldade havia uma manchazinha, mas 
o amante, quando admirava a beleza da amada, nunca a via. Como poderia o homem, to apaixonado, reparar num minsculo defeito? Com o tempo, todavia, o amor comeou 
a diminuir e ele reconquistou o domnio de si mesmo. Foi ento que notou a mancha, e perguntou  mulher como aparecera aquilo. E ela:
      "Isso apareceu na ocasio em que teu amor principiou a esfriar. Quando o teu amor por mim se tornou defeituoso, meu olho se tornou defeituoso para ti".
       cego de corao! Por quanto tempo ainda continuars a procurar as faltas alheias? Forceja por ter conscincia das coisas que escondes com cuidado. Quando 
vires tuas faltas em toda a sua hediondez, no te preocupars tanto com as dos outros.
       
O policial e o bbado
      Um policial derrubou, com um murro, um homem embriagado, que lhe disse:
      "Por que te deixas levar por tamanha paixo? Ests praticando um ato ilegal. No estou fazendo mal a ningum, mas tu te confundes com a embriaguez e a jogas 
na rua. Ests muito mais embriagado do que eu, embora ningum se d conta disso. Portanto, deixa-me em paz e clama por justia contra ti mesmo".
      
36
Pergunta do vigsimo pssaro
      Outro pssaro disse  Poupa:
      " Chefe do Caminho, que deverei pedir ao Simurgh se chegar ao lugar em que ele mora? J que o mundo ser iluminado por ele, no saberei o que pedir. Se eu 
soubesse qual  a melhor coisa a pedir ao Simurgh em seu trono, minha mente estaria mais tranquila."
      A Poupa replicou:
      "Idiota! No sabes o que pedir? Pede o que mais desejas. Um homem deveria saber o que deseja pedir, embora o prprio Simurgh seja melhor do que qualquer coisa 
que possas desejar. Queres aprender com ele o que desejas pedir?"
      Orao do xeque Rubdar
      Quando se viu s portas da morte, Bu Ali Rubdar pronunciou estas palavras:
      "Minha alma est nos meus lbios  espera do eterno bem-estar. As portas do cu esto abertas, e colocaram um trono para mim no paraso. Os santos que habitam 
no palcio da imortalidade gritam com as vozes dos rouxinis: 'Entra,  amante verdadeiro. S grato e caminha com alegria, pois ningum na terra jamais viu este 
lugar'.  Deus, se eu obtiver tua graa e teu favor, minha alma no escorregar da mo da certeza. No inclinarei a cabea como no mundo dos homens, pois minha alma 
foi formada atravs do teu amor, e, por isso, no conheo o cu nem o inferno. "Se eu for reduzido a cinzas no se encontrar em mim outro ser alm de ti. Conheo-te, 
mas no conheo religio nem descrena. Eu sou tu, tu s eu. Desejo-te, meu corao est em ti. S tu me s necessrio. s para mim este mundo e o mundo por vir. 
Satisfaz, por menos que seja, a necessidade do meu corao ferido. Mostra, por menos que seja, teu amor por mim, pois s respiro por ti."
       
Palavras de Deus a Davi
      Do Alto disse Deus a Davi:
      "Dize a meus servos: ' punhado de terra! Se eu no tivesse o cu para dar como recompensa e o inferno para dar como castigo, pensareis alguma vez em mim? 
Se no existissem a luz nem o fogo, pensareis alguma vez em mim? Mas visto que mereo o respeita supremo, deveis adorar-me sem esperana e sem medo; e, no entanto, 
se nunca fsseis sustentado pela esperana ou pelo medo, pensareis alguma vez em mim? Visto que sou o vosso Senhor, deveis adorar-me desde as profundezas do corao. 
Rejeitai tudo o que no for eu, reduzi a cinzas esse tudo e atirai as cinzas ao vento da excelncia'".
       
Mahmud e Ayaz
      Um dia, Mahmud chamou seu favorito, entregou-lhe a coroa, f-lo sentar-se no trono e disse-lhe:
      "Ayaz, dou-te meu reino e meu exrcito. Reina, que este pas  teu; agora desejo que tomes o meu lugar e atires o teu brinco de escravo  Lua e ao Peixe".
      Quando os oficiais e cortesos souberam disso, seus olhos se enegreceram de inveja e eles disseram:
      "Nunca, no mundo, concedeu um rei tanta honra a um escravo".
      Mas Ayaz chorou, e eles o interpelaram:
      "Perdeste o juzo? J no s escravo, agora pertences  realeza. Por que choras? Alegra-te!"
      Ayaz retrucou:
      "No vedes as coisas como elas so, no compreendeis que o sulto deste grande pas me exilou da sua presena. Ele me quer governando o seu reino, mas eu no 
quero separar-me dele. Quero obedecer-lhe, mas no quero deix-lo. Que me importam governos e realezas? Minha felicidade est em contemplar-lhe o rosto".
      Aprende com Ayaz a servir a Deus,  tu que te deixas ficar ocioso dia e noite, ocupado em prazeres baratos e vulgares. Ayaz desce do pinculo do poder, mas 
tu no te moves do stio em que ests e tampouco tens desejo de mudar. A quem poders, afinal, confidenciar tuas mgoas? Enquanto dependeres do paraso e do inferno, 
como compreenders o segredo que desejo revelar-te? Mas quando j no dependeres dos dois, o amanhecer do mistrio se erguer da noite. Alm disso, o jardim do paraso 
no se destina ao indiferente; e o empreo  s para os homens de corao.
       
A orao de Rab'Iah
      " Deus, que conheces o segredo de todas as coisas, realiza os desejos mundanos dos meus inimigos e concede aos meus amigos a eternidade da vida futura! Mas, 
quanto a mim, estou livre de ambos. Ainda que eu possusse este mundo presente ou o do futuro, estim-lo-ia pouco em comparao com o estar perto de ti. S preciso 
de ti. Se eu voltasse os olhos para os dois mundos, ou desejasse alguma coisa alm deste, no seria mais que um descrente."
       
Palavras de Deus a Davi
      O Criador do Mundo falou a Davi por trs do vu do mistrio.
      "Tudo o que existe, bom ou mau, visvel ou invisvel, mvel ou imvel, ser apenas um substituto se no for eu mesmo, para quem no achars substituto nem 
igual. Visto que nada pode tomar-me o lugar, no te separes de mim. Sou-te necessrio, dependes de mim. Por conseguinte, no desejes o que se te oferece se no for 
eu."
       
O sulto Mahmud e o dolo de Somnat
      Mahmud e seu exrcito descobriram em Somnat um dolo chamado Lat, que o sulto decidiu destruir. Para salv-lo, os hindus ofereceram dez vezes o seu peso em 
ouro, mas Mahmud recusou a oferta e ordenou que se preparasse uma grande fogueira a fim de queimar o dolo. Nisso, um dos seus oficiais tomou a liberdade de perguntar-lhe:
      "No seria melhor, senhor, aceitar o dinheiro e no queimar o dolo?"
      "Eu pensaria", respondeu Mahmud, "que, no dia do ajuste supremo, o Criador se voltaria para o universo reunido e diria: 'Ouvi o que fizeram Azaz e Mahmud - 
o primeiro modelou dolos e o segundo os vendeu!"
      Dizem que quando o dolo dos adoradores do fogo estava ardendo, caram cem maunds de pedras preciosas, de modo que Mahmud, ainda assim, no ficou sem o seu 
tesouro. E disse:
      "Lat recebeu o que merecia, e Deus me recompensou".
       
Outra anedota de Mahmud
      Quando esse manancial de iluminao de reis deixou Gazn para mover guerra aos hindus e viu-se diante do poderoso exrcito deles, sentiu-se deprimido e prometeu 
ao Rei da Justia que, se lhe sorrisse a vitria na refrega, daria aos dervixes todo o butim que lhe casse nas mos. Sorriu-lhe a vitria, e o seu exrcito arrecadou 
enorme quantidade de tesouros. Quando os caras-pretas se retiraram, deixando os despojos, disse Mahmud:
      "Mandai tudo isso para os dervixes, que assim prometi a Deus e preciso cumprir minha promessa".
      Mas seus oficiais protestaram, argumentando:
      "Por que dar tanta prata e tanto ouro a um punhado de homens que no lutam? Por que no os dar ao exrcito, que conheceu o ardor da batalha? Ou, pelo menos, 
por que no os guardar no Tesouro?"
      Hesitou o sulto entre o cumprimento da promessa e os protestos do exrcito. Nesse nterim, Bu Hussein, um idiota de Deus, inculto mas inteligente, passou 
por ali. Vendo-o  distncia, ordenou Mahmud:
      "Chamai aquele idiota; dizei-lhe que venha c e diga o que se deve fazer, que agirei de acordo com o seu parecer; como ele no tem medo do sulto nem do exrcito, 
dar uma opinio imparcial".
      Quando o sulto exps o caso a Bu Hussein, este respondeu:
      "Senhor,  uma questo de dois bolos. Mas se desejais proceder de maneira adequada em relao a Deus, deixai de pensar, meu querido, nos dois bolos. E se 
conquistardes outra vitria por sua graa, envergonhai-vos de reter os dois. J que Deus vos concedeu a vitria, pode pertencer-vos o que pertence a Deus?"
      Em resultado disso, remeteu Mahmud o tesouro aos dervixes, e tornou-se um grande monarca.
      
37
A pergunta do vigsimo primeiro pssaro
      Outro pssaro disse  Poupa:
      "Dize-nos,  tu que desejas conduzir-nos  Majestade desconhecida, o que mais se aprecia na corte.  necessrio, quando nos aproximamos de reis, levar-lhes 
presentes preciosos? E  verdade que s os homens vis se aproximam deles de mos vazias?"
      Replicou a Poupa:
      "Se seguires meu conselho, levars ao pas do Simurgh o que nele no se encontra. Seria, acaso, conveniente que algum levasse o que l j existe? L se encontra 
o verdadeiro conhecimento, l se encontram segredos, l se encontra obedincia a seres mais elevados. Leva, pois, o ardor do amor do esprito; ningum pode oferecer 
mais nada alm disso. Se um simples suspiro de amor chegar quele lugar, levar consigo o perfume do corao. Aquele stio est consagrado  essncia da alma. Se 
um homem desferir um nico suspiro de verdadeira contrio, estar imediatamente de posse da salvao.
       
Jos e Zuleica
      No tempo em que Zuleica desfrutava de sua alta posio e dignidade, mandou que atirassem Jos na priso e ordenou a um escravo que lhe aplicasse cinquenta 
vergastadas:
      "Bate-lhe com fora para eu poder ouvir-lhe os gritos".
      Mas o bom homem no queria machucar Jos; por isso, pegou a pele de um animal e recomendou ao condenado:
      "Quando eu comear a bater, grita a cada golpe que eu der".
      Ouvindo os gritos, Zuleica foi at a cela e ordenou ao escravo:
      "s muito delicado com ele. Bate-lhe com mais fora".
      Disse, ento, o escravo a Jos:
      " radincia do sol! Se Zuleica te examinar e no vir marca nenhuma de vergasta, castigar-me- severamente. Descobre os ombros, faz das tripas corao e aguenta 
as varadas. Se gritares bastante por causa dos golpes, ela dar menos ateno s marcas".
      Jos descobriu os ombros, a vara zurziu e os gritos dele subiram ao cu. Quando os ouviu, Zuleica foi at l e disse:
      "Basta, os gritos produziram efeito. Antes, seus gemidos no eram nada; agora, so muito reais".
       
O xeque Ben Ali Tuci
      Ben Ali Tuci, um dos grandes sbios do seu tempo, caminhava pelo vale da conscincia e da ateno. No sei de ningum que possusse tanta graa e atingisse 
tamanha perfeio! Disse ele certa vez:
      "No outro mundo, os infelizes condenados vero claramente os habitantes do cu, que podero falar-lhes acerca das alegrias daquele stio e do gosto da unio. 
Os afortunados diro:
      " 'Aqui no existem alegrias vulgares, porque nos apareceu o sol da divina beleza, e ela  de tal ordem que os oito parasos se diriam escuros. No fulgor dessa 
beleza no permanecem da eternidade nem nome nem traos!'
      "E diro os moradores dos infernos:
      "'Percebemos que o que dizeis  verdade, mas, neste lugar horrvel,  evidente que incorreremos na clera do Senhor, e por isso fomos apartados do seu rosto. 
O fogo do remorso em nossos coraes lembra-nos o fogo do mundo subterrneo'."
      Forceja por suportar a dor, a aflio e as feridas e dessa maneira mostra o teu zelo. Se te ferirem, aceita o sofrimento, e no te entregues  piedade de ti 
mesmo.
       
Pedido a Maom
      Um homem pediu licena humildemente para fazer uma orao no tapete do Profeta, mas este no lho consentiu, dizendo:
      "A terra e a areia esto ardendo. Pe o rosto na areia ardente e na terra da estrada, visto que todos os feridos pelo amor tm de ter a marca no rosto, e a 
cicatriz precisa ser vista. Deixa que vejam a cicatriz do corao, pois pelas cicatrizes so conhecidos os homens que palmilham o caminho do amor".
       
38
A pergunta do vigsimo segundo pssaro e a descrio do primeiro vale ou o Vale da Busca
      Esse pssaro disse  Poupa:
      " tu, que conheces a estrada de que nos falaste e pela qual desejas que te acompanhemos, para mim o caminho  escuro e, na escurido, parece-me ser muito 
difcil e ter muitas parasangas de extenso".
      A Poupa respondeu:
      "Temos sete vales para cruzar, e s depois de hav-los cruzado descobriremos o Simurgh. Nenhuma das criaturas que j fizeram essa jornada regressou ao mundo, 
e  impossvel dizer quantas parasangas temos de percorrer. S paciente,  tu que tens medo, pois todos os que seguiram por esta estrada estavam como ests.
      "O primeiro vale  o Vale da Busca; o segundo, o Vale do Amor; o terceiro, o Vale da Compreenso; o quarto  o Vale da Independncia e do Alheamento; o quinto, 
o Vale da Unidade Pura; o sexto, o Vale do Espanto; e o stimo  o Vale da Pobreza e do Nada, alm do qual no se pode ir.
      "Quando entrares no primeiro, o Vale da Busca, cem dificuldades te saltearo; sers submetido a uma centena de provas. Ali, o papagaio do cu no  mais que 
uma mosca. Ali ters de passar vrios anos, ters de fazer grandes esforos e modificar o teu estado. Ters de abrir mo de tudo o que te pareceu precioso e achar 
que  nada tudo o que possuis. Quando estiveres seguro de que nada possuis, ainda ters de alhear-te de tudo o que existe. Teu corao ter-se-, ento, salvo da 
perdio, e vers a pura luz da Divina Majestade e teus desejos reais se multiplicaro ao infinito. Quem ali ingressa se enche de um desejo to grande que se entregar 
plenamente  busca simbolizada por esse vale. Pedir ao seu escano um gole de vinho e, depois de tom-lo, nada mais ter importncia para ele seno a busca da 
verdadeira meta. E, ento, j no se arrecear dos drages, dos guardas da porta, que procuram devor-lo. Quando se abre a porta e ele entra, o dogma, a crena e 
a descrena - todos deixam de existir."

Extrato de "Ganj-Nama", o Livro do Tesouro de Osman Amru
      Quando Deus comunicou o sopro puro da vida ao corpo de Ado, que era apenas terra e gua, no quis que as hostes de anjos soubessem e nem mesmo suspeitassem 
disso. Disse-lhes, portanto:
      "Prosternai-vos diante de Ado,  Espritos Celestiais!"
      Todos se prosternaram at o cho, e, enquanto se achavam inclinados, Deus comunicou o sopro da vida a Ado, e nenhum deles teve conhecimento do segredo que 
Deus desejava ocultar. Isto , nenhum seno Iblis, que disse a si mesmo: "Ningum me ver dobrar o joelho. Ainda que a cabea me caia do corpo, isso no ser to 
mau quanto fazer o que Deus quer. Sei muito bem que no se trata apenas de Ado estar ou no estar na terra, e, por conseguinte", no pretendo inclinar a cabea 
e deixar de presenciar o segredo". Assim, em vez de prostrar-se, Iblis ficou atento e viu o segredo. Mas Deus disse:
      " tu, que estavas espreitando, roubaste-me o segredo e, por isso, provocar-te-ei a morte, pois no quero que nenhum outro ser o conhea. Quando um rei da 
terra esconde um tesouro, mata a pessoa que o viu escondendo. Tu s essa pessoa".
      "Senhor", acudiu Iblis, "concedei-me uma trgua, pois sou vosso servo; e dizei-me: como poderei expiar meu pecado?"
      "Visto que ma pedes", anunciou Deus, "conceder-te-ei uma trgua; apesar disso, a partir deste momento pr-te-ei no pescoo o colar da maldio e impor-te-ei 
o nome de mentiroso e caluniador para que toda gente se acautele de ti at o dia da ressurreio."
      Disse Iblis:
      "Que posso temer da vossa maldio desde que esse puro tesouro se manifestou para mim? Assim como vem de vs a maldio, assim tambm vem a misericrdia. Onde 
h o veneno h tambm o antdoto. Amaldioais algumas criaturas e abenoais outras. Agora que delinqi sou a criatura da vossa maldio".
      Se no podes descobrir e entender o segredo de que falo, no  por ele no existir, seno por no procurares direito. Se fazes distino entre as coisas que 
vm de Deus, no s um homem no caminho do esprito. Se te consideras honrado pelo diamante e humilhado pela pedra, Deus no est contigo. Nota bem, no deves desamar 
o diamante e detestar a pedra, pois ambos vm de Deus.  melhor que tua amante, num momento de exaltao, te atire uma pedra do que uma mulher atirar-te uma jia.
      No caminho do aperfeioamento de si mesmo, o homem no deve perder tempo nem por um instante. Se ele cessar, por um timo sequer, de trabalhar pelo prprio 
aperfeioamento, ficar para trs.
       
Histria de Majnun
      Um homem que amava a Deus surpreendeu Majnun peneirando a terra da estrada e perguntou:
      "Majnun, que ests procurando?"
      "Estou procurando Lala", respondeu ele.
      E o homem tornou a perguntar:
      "Esperas encontrar Lala aqui?"
      "Procuro-a em todos os lugares", tornou Majnun, "na esperana de encontr-la em algum deles."
       
Yussuf Hamdani
      Yussuf Hamdani foi um homem clebre do seu tempo, um vidente, que compreendia os segredos dos mundos. Foi ele quem disse:
      "Tudo o que se v, quer nas alturas quer nas profundezas - cada tomo, na verdade -,  outro Jac pedindo notcias de Jos, que ele perdeu".
      No caminho espiritual, tanto o amor quanto a esperana so necessrios. Se no os tiveres, melhor ser que renuncies  busca. O homem precisa tentar ser paciente. 
Mas  paciente o amante? S paciente e forceja, esperanoso, por encontrar algum que te mostre o caminho. Mantm-te dentro de ti mesmo e no deixes a vida exterior 
capturar-te.
       
A histria de Abu Sa'id Mahnah
      O xeque Mahnah se achava num estado de grande perplexidade, com o corao partido em dois pedaos, quando viu,  distncia, um velho aldeo de aparncia piedosa, 
que caminhava, pachorrento. Do seu corpo emanava uma luz brilhante. O xeque cortejou-o e falou-lhe, em seguida, sobre o triste estado em que se encontrava. O velho 
aldeo ouviu-o, atento, e, depois de refletir um pouco, disse:
      " Bu Sa'id, se se enchesse de paino, no uma mas cem vezes, o espao que medeia entre a terra mais baixa e o trono de Deus, e um passarinho comesse um gro 
de paino de mil em mil anos e depois desse cem voltas ao redor da terra, nem mesmo aps todo esse tempo tua alma teria recebido notcias da corte celeste, e Bu 
Sa'id ainda estaria muito longe dela".
      Uma grande pacincia  necessria aos que sofrem; mas ningum  paciente. Quando se desvia a busca do interior para o exterior, e ainda que se estenda a todo 
o universo, ao cabo ser insatisfatria. Quem no se empenha na busca da vida interior no passa de um animal - que direi? nem sequer existe,  uma no-entidade, 
uma forma sem alma.
       
Mahmud e o buscador de ouro
      Certa noite, Mahmud, cavalgando sozinho, viu um homem peneirando terra  procura de ouro; tinha a cabea inclinada e j fizera, aqui e ali, vrias pilhas de 
terra peneirada. O sulto olhou para ele, jogou seu bracelete entre as pilhas de terra e arrancou-se dali a galope. Na noite seguinte, Mahmud voltou ao mesmo lugar 
e deu com o homem ainda peneirando.
      "O que encontraste ontem deveria ser suficiente para pagar o tributo do mundo, e ainda assim continuas a joeirar!", admirou-se o sulto.
      E o homem respondeu:
      "Achei o bracelete que jogastes, e foi por ter achado um tesouro desse quilate que preciso continuar a procurar enquanto viver".
      S como esse homem e procura at que a porta se abra para ti. Teus olhos no estaro fechados para sempre; procura a porta.
       
Uma sentena de Rabi'ah
      Um homem rezava:
      " Senhor, abri uma porta para eu poder chegar a vs".
      Ouvindo-o, Rabi'ah exclamou:
      " idiota! A porta est fechada?"
      
39
O segundo vale ou o Vale do Amor
      A Poupa continuou:
      "O vale seguinte  o Vale do Amor. Para entrar nele  mister ser fogo flamejante - como o direi? O prprio homem precisa ser fogo. O rosto do amante h de 
estar inflamado, ardente e impetuoso como o fogo. O verdadeiro amor no conhece reflexes tardias; com o amor, o bem e o mal deixam de existir.
      "Mas quanto a vs, negligentes e descuidados, este discurso no vos dir nada, vossos dentes nem sequer o tocaro. Uma pessoa leal arrisca o dinheiro que tem 
 mo, arrisca a prpria cabea para estar unida ao amigo. Outras se contentam em prometer o que faro por ti amanh. Se aquele que enveredar por este caminho no 
se empenhar total e completamente, nunca se livrar da tristeza e da melancolia que o acabrunham. Enquanto no atinge a meta, o falco mostra-se agitado e aflito. 
Se for arremessado  praia pelas ondas, o peixe lutar por retornar  gua.
      "Neste vale, o amor  representado pelo fogo, e a razo, pela fumaa. Quando chega o amor, a razo desaparece. A razo no pode viver com a loucura do amor; 
o amor no tem nada que ver com a razo humana. Se possures a viso interior, os tomos do mundo visvel ser-te-o manifestados.
      Mas se vires as coisas com os olhos da razo comum, jamais compreenders quo necessrio  amar. S o homem posto  prova e livre pode senti-lo. Quem empreende 
esta jornada deveria ter mil coraes para poder sacrificar um a cada momento."
       
Um "khoja" amoroso
      Um khoja vendeu quanto possua - mveis, escravos, tudo, s para comprar cerveja de um jovem cervejeiro. Ficou completamente louco de amor pelo cervejeiro. 
Vivia com fome, porque, se lhe dessem po, vendia-o para comprar cerveja. Afinal, algum lhe perguntou:
      "Que amor  esse que te reduz a to lamentvel estado? Conta-me o segredo!"
      "O amor  tal", replicou ele, "que venders a mercadoria de uma centena de mundos para comprar cerveja. Enquanto no o compreenderes, no experimentars o 
verdadeiro sentimento do amor."
       
Uma histria de Majnun
      Os pais de Lala recusavam-se a deixar Majnun aproximar-se das suas tendas. Porm Majnun, brio de amor, pediu emprestada uma pele de carneiro a um pastor 
do deserto, onde a tribo de Lala armara suas tendas. Abaixou a cabea, vestiu a pele e disse ao pastor:
      "Em nome de Deus, deixa que eu me arraste no meio dos teus carneiros; depois, passa com o rebanho diante da casa de Lala, para que eu possa talvez sentir-lhe 
o suave perfume e, escondido nesta pele, excogitar alguma coisa".
      O pastor satisfez ao pedido de Majnun, e, enquanto passavam pela tenda da moa, este a viu e desmaiou. O pastor levou-o dali para o deserto e jogou-lhe gua 
no rosto a fim de esfriar-lhe a ardncia do amor.
      Outro dia, estava Majnun no deserto com alguns companheiros, quando um deles lhe perguntou:
      "Como podes tu, um nobre, andar nu por a? Se quiseres, arranjar-te-ei algumas roupas".
      Majnun recusou:
      "Nenhum traje que eu possa usar  digno da minha amiga, de modo que, para mim, no h nada melhor do que o meu corpo nu ou uma pele de carneiro. Ela  para 
mim um ispand, que afugenta o mau-olhado. Majnun envergaria de bom grado vestidos de seda e panos de ouro, mas prefere esta pele de carneiro, por cujo intermdio 
conseguiu uma viso de Lala".
      O amor d cabo da tua prudncia. O amor modifica tua atitude. Amar  desistir da vida comum e renunciar aos prazeres vulgares.
       
Um mendigo apaixonado por Ayaz
      Um pobre dervixe apaixonou-se, de uma feita, por Ayaz, e a notcia logo se espalhou. Quando Ayaz passava a cavalo pela rua, recendendo a almscar, esse libertino 
espiritual, que se mantinha  espreita, corria para v-lo, quedando-se a contempl-lo como o jogador de plo crava os olhos na bola. Finalmente, chegou aos ouvidos 
de Mahmud a histria do mendigo apaixonado por Ayaz. Um belo dia, quando Ayaz cavalgava com o sulto, este ltimo se deteve, baixou os olhos para o dervixe e viu 
que a alma de Ayaz era como o gro de cevada, e o rosto do homem, como a bola de massa que o encerra.
      Viu que as costas do mendigo estavam curvadas como um taco de plo e que a cabea lhe girava para todos os lados ao mesmo tempo, como a prpria bola do jogo 
de plo. Disse Mahmud:
      "Miservel mendigo, esperas beber na taa do sulto?"
      "Embora me chameis de mendigo", replicou o dervixe, "no jogo do amor no sou inferior a vs. O amor e a pobreza andam juntos. Sois o soberano, e vosso corao 
 luminoso; mas para o amor faz-se mister um corao ardente como o meu. O vosso amor  trivial. Eu sofro a dor da ausncia. Estais com o amado; mas no amor cumpre 
saber suportar a dor da ausncia."
      Voltou o sulto:
      " tu, que te retiraste da existncia comum, o amor  para ti um jogo de plo?"
      "", confirmou o mendigo, "porque a bola est sempre em movimento, como eu, e eu estou como a bola. A bola e eu temos uma cabea que gira, embora no tenhamos 
mos nem ps. Podemos falar sobre o sofrimento que o taco nos causa; mas a bola  mais feliz do que eu, pois o pnei a toca, de vez em quando, com os ps. A bola 
recebe os golpes do taco no corpo, mas eu os sinto no corao."
      "Pobre dervixe!", disse o sulto, "tu te gabas da tua pobreza, mas onde est a prova?"
      "Se sacrifico tudo pelo amor", replicou o dervixe, "eis a uma prova da minha pobreza espiritual. E se um dia,  Mahmud, tiverdes a experincia do verdadeiro 
amor, sacrificai por ela a vida; se no o fizerdes, no tereis o direito de falar de amor."
      Isso dizendo, morreu, e o mundo escureceu para Mahmud.
       

Um rabe na Prsia
      Um rabe certa vez foi  Prsia e ficou espantado com os costumes do pas. Um dia, sucedeu-lhe passar pela habitao de um grupo de qalandars e viu um punhado 
de homens que no diziam uma palavra. No tinham esposas e nem sequer um bolo, mas eram puros de corao e impolutos. Cada um deles segurava um frasco de vinho 
turvo, que enchia com cuidado antes de sentar-se. O rabe simpatizou com os homens; estacou, e nesse momento, faltaram-lhe a mente e o corao. Nisso, os qalandars 
lhe disseram:
      "Entra,  tu que s nada!"
      E ele, conquanto vacilasse, entrou. Deram-lhe um copo de vinho, e o rabe, incontinenti, perdeu o juzo. Ficou bbado, e sua fora reduziu-se a nada. O ouro, 
a prata e os pertences de valor lhe foram tirados por um dos qalandars. Deram-lhe mais vinho e, por fim, puseram-no para fora da casa.
      Pouco depois, voltou o rabe para a sua terra, mesquinho e pobre, com o estado alterado e os lbios secos. Chegado  aldeia natal, os companheiros lhe perguntaram:
      "Que aconteceu? Que fizeste do teu dinheiro e das tuas coisas de valor? Foram-te roubados enquanto dormias? Foste mal sucedido na Prsia? Conta-nos! Talvez 
possamos ajudar-te!"
      "Eu estava andando pela rua", contou ele, "quando, de improviso, topei com os qalandars. No sei o que aconteceu, a no ser que minhas propriedades e eu fomos 
separados um dos outros e agora no tenho mais nada."
      Pediram-lhe que descrevesse os qalandars, e ele apenas respondeu:
      "Eles simplesmente me disseram: 'Entra' ".
      A partir de ento, ficou o rabe num estado de surpresa e espanto, como se fosse uma criana, pasmado com a palavra "entra".
      Tu tambm, pe o p  frente. Se no quiseres faz-lo, segue tuas fantasias. Mas, se preferires os segredos do amor de tua alma, sacrifica tudo. Perders o 
que julgas valioso, mas logo ouvirs a palavra sacramental: "Entra".
       
O apaixonado que perdeu a amante
      Um homem de ideais elevados enamorou-se de formosa jovem. Mas,  proporo que o tempo passava, aquela a quem ele dera o corao comeou a emagrecer e acabou 
ficando amarela como uma vergntea de aafro. O dia radioso desapareceu-lhe do corao; e a morte, que espreitava  distncia, acercou-se. Quando soube disso, o 
apaixonado tomou de uma adaga e disse:
      "Irei aonde est a minha amada e a matarei, para que essa beleza, que  como um quadro maravilhoso, no morra pela mo da natureza".
      "Ests louco!", objetaram-lhe. "Por que queres mat-la se ela j est prestes a morrer?"
      Retrucou o apaixonado:
      "Se ela morrer por minhas mos, serei morto tambm, visto que no me  permitido faz-lo. Ento, no dia da ressurreio, estaremos juntos como estamos agora. 
Se eu for executado por culpa da minha paixo por ela, seremos como um s, como a chama clara de uma vela acesa".
      Os amantes que arriscam a vida pelo seu amor ingressam no Caminho. Unem-se, na vida do Esprito, ao objeto da sua afeio.
       
Abrao e o anjo da morte
      Quando o amigo de Deus se viu  beira da morte, re-lutou em entregar a alma a Azrael.
      "Espera", disse a Azrael. "O Rei do Universo pediu-a?"
      Mas Deus, o Altssimo, perguntou a Abrao:
      "Se fosses verdadeiramente meu amigo, no desejarias vir a mim? Quem lamenta dar a vida pelo amigo t-la- arrancada de si pela espada.
      Nisso, um dos presentes acudiu:
      " Abrao, Luz do Mundo, por que no queres entregar de boa vontade a vida a Azrael? No Caminho Espiritual, os amantes arriscam a vida pelo seu amor; ds  
tua excessiva importncia".
      Respondeu Abrao:
      "Como posso deixar ir minha vida se Azrael ps o p no caminho? No fiz caso do pedido dele porque pensei apenas em Deus. Quando Nenrode me atirou ao fogo 
e Gabriel veio ter comigo, no fiz caso dele porque pensei apenas em Deus. E visto que desviei o rosto de Gabriel, como se h de esperar que eu entregue a alma a 
Azrael? Quando eu ouvir as palavras de Deus: 'D-me tua vida!', ela, ento, valer menos que um gro de cevada. Como darei minha vida a algum se esse algum no 
ma pedir? Isso  tudo o que tenho a dizer".
      
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O terceiro vale ou o Vale da Compreenso
      A Poupa continuou:
      "Depois do vale de que vos falei vem outro - o Vale da Compreenso, sem comeo nem fim. Nenhum caminho  igual a esse, e a distncia que h de ser percorrida 
para atravess-lo desafia qualquer clculo.
      "A compreenso, para cada viandante,  duradoura; mas o conhecimento  temporrio. A alma, como o corpo, se acha em estado de progresso ou declnio; e o Caminho 
Espiritual s se revela na medida em que o viajor supera suas faltas e fraquezas, seu sono e sua inrcia. Cada qual chegar mais perto da prpria meta de acordo 
com o seu esforo. Ainda que voasse com toda a fora que possui, poderia um mosquitinho igualar a velocidade do vento? H diferentes modos de cruzar esse vale, e 
nem todos os pssaros voam do mesmo jeito. A compreenso pode ser alcanada de vrias maneiras - alguns encontraram o Mihrab, outros o dolo. Quando o sol da compreenso 
alumia essa estrada, cada qual recebe luz de acordo com o seu mrito e chega  etapa que lhe foi destinada na compreenso da verdade. Quando se lhe revela claramente 
o mistrio da essncia dos seres, a fornalha deste mundo se transmuda em jardim de flores. Quem se esfora ver a amndoa na casca dura. J no se preocupa consigo 
mesmo, mas ergue a vista para o rosto do amigo. Em cada tomo ver o todo; e meditar sobre milhares de segredos brilhantes.
      "Mas, para cada um que encontrou os mistrios, quantos no tero perdido o caminho nessa busca!  necessrio que seja profundo e duradouro o desejo de nos 
tornarmos o que devemos ser, a fim de cruzarmos esse dificultoso vale. Assim que tiverdes provado os segredos, tereis o desejo verdadeiro de compreend-los. Mas, 
seja o que for que possais atingir, nunca vos esqueais das palavras do Coro: 'H mais alguma coisa?'
      "Quanto a ti, que ests dormindo (e no posso louvar-te por isso), por que no vestes luto? Tu, que no viste a beleza do teu amigo, levanta-te e procura! 
Por quanto tempo ainda ficars como ests, como burro sem cabresto?"
       
Lgrimas de pedra
      H um homem na China que coleciona pedras sem cessar. Derrama lgrimas copiosas e,  medida que caem ao cho, as lgrimas se transformam em pedras, que ele 
volta a ajuntar. Se as nuvens chorassem lgrimas como estas, haveria matria de muita tristeza e dor.
      O verdadeiro conhecimento torna-se propriedade do verdadeiro buscador. Se for preciso procurar o conhecimento na China, vai at l. Mas o conhecimento  distorcido 
pela mente formal, petrifica-se, como as pedras. Por quanto tempo ainda h de ser mal compreendido o conhecimento verdadeiro? Este mundo, esta casa de tristezas, 
est no escuro; mas o verdadeiro conhecimento  uma jia, arder qual lmpada e guiar-te- neste lugar sombrio. Se desprezares a jia, sers para sempre presa do 
arrependimento. Se ficares para trs, chorars lgrimas amargas. Mas se dormires pouco de noite e jejuares de dia, talvez encontres o que procuras. Procura, pois, 
e perde-te na procura.
      

O amante adormecido
      Um amante desassossegado, com a mente conturbada, exausto de tanto suspirar, caiu no sono sobre uma sepultura. Encontrando-o adormecido, sua amada, que andava 
a procur-lo, escreveu uma nota e pregou-a na capa do amante. Quando este acordou e leu o que ela escrevera, gemeu, angustiado; a nota rezava:
      " homem nscio! Ergue-te! Se fores mercador, mercadeja e ganha dinheiro; se fores asceta, desperta de noite, ora a Deus e s seu escravo. Mas se fores amante, 
envergonha-te. Que tem que ver o sono com os olhos do amante? De dia, mede o vento;  noite, o corao em chamas ilumina-lhe o rosto com o fulgor da lua. Como no 
s esse homem, no digas mais que me amas. Se um homem for capaz de dormir em outro lugar que no o seu sudrio, posso chamar-lhe amante - porm de si mesmo".
       
A sentinela apaixonada
      Um soldado estava apaixonado. Mesmo que no estivesse de guarda, no conseguia descansar. Afinal, um amigo implorou-lhe que dormisse umas poucas horas. Contraveio 
o soldado:
      "Sou uma sentinela e estou apaixonado. Como posso descansar? Um soldado em servio no pode dormir, de modo que  uma vantagem para ele estar apaixonado. Todas 
as noites o amor me pe  prova, e assim me mantenho desperto e fico de guarda no forte. O amor  amigo da sentinela, pois a viglia passa a fazer parte dela; quem 
chega a esse estado estar sempre de guarda".
      No durmas,  homem, se ests forcejando por lograr o conhecimento de ti mesmo. Guarda bem a fortaleza do teu corao, pois h ladres em toda parte. No consintas 
que os bandidos roubem a jia que carregas. O verdadeiro conhecimento vir para quem se mantm acordado. Aquele que fica pacientemente de guarda saber quando Deus 
se chegar a ele. Os verdadeiros amantes que desejam entregar-se  embriaguez do amor separam-se juntos. Quem tem o amor espiritual tem nas mos as chaves dos dois 
mundos. Quem  mulher torna-se homem; quem  homem torna-se um oceano profundo.
       
Mahmud e o idiota de Deus
      Um dia, no deserto, Mahmud avistou um faquir com a cabea dobrada pela dor e as costas arqueadas pelo sofrimento. Quando o sulto se dirigiu a ele, o homem 
rechaou-o, desabrido:
      "Vai-te embora, ou te moerei de pancadas. Digo-te que vs embora, pois no s monarca nenhum, seno um homem de pensamentos vis, um infiel na graa de Deus".
      Mahmud respondeu-lhe com aspereza:
      "Fala comigo como se deve falar a um sulto e no dessa maneira".
      "Se soubesses,  ignorante", replicou o faquir, "como ests virado do avesso, no haveria terra nem cinzas que te bastassem; lastimar-te-ias sem parar e atearias 
fogo  cabea."
       
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O quarto vale ou o Vale da Independncia e do Alheamento
      A Poupa prosseguiu:
      "Depois vem o vale onde no h nem o desejo de possuir nem a vontade de descobrir. Nesse estado da alma sopra um vento frio, to violento que, num pice, devasta 
um espao imenso: os sete oceanos no so mais que uma lagoa, os sete planetas, mera centelha, os sete cus, um cadver, os sete infernos, gelo quebrado. Alm disso, 
h uma coisa surpreendente, que foge  razo: uma formiga tem a fora de cem elefantes, e cem caravanas se destroem enquanto um corvo enche o papo.
      "Para que Ado pudesse receber a luz celestial, grande quantidade de anjos vestidos de verde se consumiram de tristeza. Para que No pudesse converter-se num 
carpinteiro de Deus e construir a arca, milhares de criaturas pereceram nas guas. Mirades de mosquitos precipitaram-se sobre o exrcito de Abrad para que o rei 
pudesse ser destronado. Milhares de recm-nascidos morreram para que Moiss pudesse ver a Deus. Milhares de pessoas cingiram o cinto cristo para que Cristo pudesse 
possuir o segredo de Deus. Milhares de coraes e almas foram saqueadas para que Maom pudesse subir, por uma noite, ao cu. Nesse vale nada que seja velho ou novo 
tem valor; podes agir ou no agir. Se visses um mundo inteiro ardendo at que os coraes fossem reduzidos a simples shish kabab, seria apenas um sonho comparado 
com a realidade. Se mirades de almas cassem neste oceano sem limites, seriam como uma gota de orvalho. Se o cu e a terra explodissem, feitos em partculas diminutas, 
seriam pouco mais que uma folha cada de uma rvore; e se tudo se aniquilasse, desde o peixe at a lua, encontrar-se-ia no fundo de um fosso a perna de uma formiga 
capenga? Se no subsistir vestgio algum de homens nem de djins, o segredo de uma gota d'gua, a partir da qual tudo se formou, continuar sendo matria de ponderao."
       
O jovem que caiu num fosso
      Na minha aldeia havia um jovem, belo como Jos, que caiu num fosso cuja terra desmoronou sobre ele. Quando o tiraram dali, estava em pssimo estado. Esse excelente 
jovem chamava-se Maom e era querido de todos. Quando o viu, o pai gemeu e disse:
      " Maom, s a luz dos meus olhos e a alma de teu pai.  meu filho, dize uma palavra a teu pai!"
      O filho disse uma palavra e entregou a alma a Deus. E isso  tudo.
       tu, jovem discpulo no caminho do conhecimento espiritual, que s capaz de observar e ponderar, pensa em Maom e Ado; pensa em Ado e nos tomos, no todo 
e nas partculas do todo; fala da terra e dos cus, das montanhas e do oceano; fala das fadas e dos deuses, dos homens e dos anjos, de cem mil almas puras; fala 
do momento penoso da entrega da alma; dize que cada indivduo, alma e corpo,  nada. Se reduzires os dois mundos a p e os joeirares cem vezes, que sero eles para 
ti? Sero como um palcio de pernas para o ar, e nada encontrars na superfcie da joeira.
      No  to fcil atravessar esse vale quanto tu, na tua simplicidade, imaginas. Mesmo que o sangue do teu corao enchesse o oceano, serias apenas capaz de 
cumprir a primeira fase. Mesmo que tivesses de percorrer todos os caminhos do mundo, ainda te encontrarias no primeiro passo. Nenhum viajor j viu o limite desta 
jornada nem achou remdio para o amor. Se te detiveres, sers petrificado e poders at morrer; se prosseguires no caminho, sempre para a frente, ouvirs, at a 
eternidade, o grito: "Continua". No podes ir nem ficar. No  vantagem viver nem morrer.
      Que proveito tiraste de tudo o que te aconteceu? Que ganhaste com as dificuldades que pudeste suportar? Pouco importa que tenhas ou no batido a cabea.  
tu que me ouves, silencia e trabalha ativamente.
      Desiste das tuas metas inteis e persegue as coisas essenciais. Ocupa-te o menos possvel das coisas do mundo exterior, porm muito das coisas do mundo interior; 
se o fizeres, a ao correta superar a inao. Mas os que no encontram remdio no agir,  melhor que no faam nada, visto que deves saber quando agir e quando 
deixar de faz-lo. Mas como saber o que no podes saber? E, no entanto,  possvel agir como se deve, mesmo sem o saber. Esquece o que fizeste at agora, e procura 
ser independente e auto-suficiente, conquanto s vezes chores e s vezes jubiles. Nesse quarto vale o relmpago do poder, que  o descobrimento dos teus prprios 
recursos, da auto-suficincia, flameja tanto que o calor consome cem mundos. E uma vez que centenas de mundos so reduzidos a p, ser acaso estranho que o teu tambm 
desaparea?
       
O astrlogo
      J viste um sbio estender uma tabuinha e cobri-la de areia para nela traar figuras e desenhos, e colocar as estrelas e os planetas, e os cus e a terra? 
s vezes faz uma predio dos cus, s vezes, da terra. Desenha tambm as constelaes e os signos do zodaco, indica o ascender e o declinar das estrelas, e disso 
deduz bons ou maus augrios. Depois de fazer um horscopo, de boa ou m fortuna, pega na tabuinha por um canto e espalha a areia, e  como se todos aqueles sinais 
e figuras nunca tivessem existido.
      A superfcie acidental deste mundo semelha a tabuinha. Se no tens fora para resistir ao desejo das coisas superficiais do mundo, afasta-te dele e senta-te 
num canto. Homens e mulheres entram na vida sem nenhuma idia do mundo interior ou exterior.
       
A mosca e o mel
      Uma mosca  procura de mel avistou uma colmia no jardim. O desejo do mel colocou-a em tal estado que a tomareis por um Azrael. E ela gritou:
      "Darei um bolo a quem me ajudar a entrar nessa colmia".
      Algum ficou com pena dela e, por um bolo, ajudou-a a entrar. Mas, assim que ela entrou, suas patas ficaram grudadas no mel. Por mais que batesse as asas 
e se agitasse, as coisas s pioravam para ela, e a coitada se ps a gemer:
      "Isto  tirania, isto  veneno. Estou presa. Dei um bolo para entrar e agora daria dois, com prazer, para sair".
      "Neste vale", continuou a Poupa, "ningum deve permanecer inativo, e s h de entrar nele depois de haver alcanado certo estdio de desenvolvimento. Este 
 o momento de trabalhar em vez de viver na incerteza e passar o tempo descuidadamente. Desperta da apatia, renuncia aos apegos internos e externos e cruza esse 
vale difcil; pois, se no renunciares a eles, tornar-te-s mais descuidado que os adoradores de muitos deuses e nunca sers auto-suficiente."
       
Palavras de um xeque a um discpulo
      Um discpulo pediu ao mestre que respondesse a uma pergunta ociosa. Disse o xeque:
      "Primeiro lava o rosto. Pode-se sentir o perfume do almscar no cheiro da putrefao? No transmito conhecimentos a bbados".
       
O dervixe apaixonado pela filha do tratador de ces
      Era uma vez um clebre xeque que usava a khirka da pobreza e se apaixonou perdidamente pela filha de um homem que tinha por ofcio tratar de cachorros. Na 
esperana de v-la, o xeque vivia e dormia na rua. Sabendo disso, a me da moa disse ao xeque:
      "No ignoras, naturalmente, que somos tratadores de ces; entretanto, visto que te enamoraste de nossa filha, poders casar-te com ela dentro de um ano, e 
morar conosco; mas ters de ser tambm tratador de ces e aceitar o nosso modo de vida".
      Como o xeque no fosse fraco em matria de amor, despiu o manto de sufi e atirou-se ao trabalho. Todos os dias levava um cachorro ao bazar, e assim fez durante 
quase um ano. Um belo dia, outro sufi, que tambm era seu amigo, interpelou-o:
      " homem de nada, durante trinta anos trabalhaste e meditaste em coisas espirituais, e agora fazes o que teus iguais nunca fizeram!"
      Replicou o xeque:
      "No vs as coisas  sua verdadeira luz, por isso pra de protestar. Se queres entender, fica sabendo que s Deus conhece o segredo e s ele pode revel-lo. 
 melhor parecer ridculo do que nunca haver penetrado, como tu, nos segredos do Caminho espiritual".
      
42
O quinto vale ou o Vale da Unidade
      A Poupa continuou:
      "Cruzars depois o Vale da Unidade, onde tudo  partido em pedaos e, em seguida, unificado. Aqui, todas as cabeas que se erguem saem da mesma gola. Embora 
te parea ver muitos seres, na realidade s existe um - todos fazem um, completo na unidade. Alm disso, o que vs como unidade no difere do que te parece uma soma. 
E como o Ser a que me refiro est alm da unidade e da soma, cessa de pensar na eternidade como em antes e depois; e como essas duas eternidades desapareceram, deixa 
de falar nelas. Quando tudo o que  visvel estiver reduzido a nada, que sobrar para se contemplar?"
      A resposta de um idiota de Deus
      Algum perguntou a um homem de entendimento:
      "Que  o mundo? A que se pode comparar?"
      Ele replicou:
      "Este mundo, composto de horrores e crime,  como uma palmeira de cera enfeitada de uma centena de cores. Espremida, converte-se numa massa de cera; por conseguinte, 
as cores e formas que admiras no valem um bolo. Havendo unidade no pode haver dualidade; nem o "eu" nem o "tu" tm importncia.
      "Mas de que valem minhas palavras, embora subam do fundo da minha alma, se no as remis? Se cares no oceano da vida exterior, como a perdiz cujas asas e 
penas j no podem sustent-la, nunca deixes de pensar em como chegar  praia."
       
O xeque Bu Ali Dakkah
      Uma velha ofereceu a Bu Ali uma moeda de ouro, dizendo:
      "Aceita isto de mim".
      "S posso aceitar coisas de Deus", retrucou ele.
      "Onde aprendeste a ver em dobro?", tornou a velha. "No s homem de poder para atar e desatar. Se no fosses vesgo, verias vrias coisas ao mesmo tempo?"
      No h Caaba nem Pagode. Aprende de minha boca a verdadeira doutrina - a eterna existncia do Ser. No devemos ver ningum mais seno ele. Estamos nele, por 
ele e com ele. Tambm podemos estar fora desses estados. Quem no estiver imerso no Oceano da Unidade no  digno da raa dos homens.
      Dia vir em que o sol retirar o vu que o cobre. Enquanto estiveres dividido, o bem e o mal surgiro em ti; mas quando te perderes no sol da essncia divina, 
eles sero ultrapassados pelo amor. Enquanto te retardares na estrada, sers detido por faltas e fraquezas. Ainda no te deste conta de que em teu corpo h convencimento, 
vaidade, presuno, egosmo e outras coisas sujas? Posto que a serpente e o escorpio paream mortos dentro de ti, esto apenas adormecidos; e se alguma coisa os 
tocar, despertaro com a fora de cem drages. Em cada um de ns h um inferno de serpentes. Se te colocares a salvo dessas criaturas imundas, poders ficar sossegado; 
seno, elas te picaro at na poeira do tmulo e at o dia da prestao de contas.
      E agora,  Attar, deixa os teus discursos metafricos e volta  descrio do misterioso Vale da Unidade.
      A Poupa continuou:
      "Quando penetrar nesse vale, o viajante espiritual desaparecer e perder-se- de vista porque o Ser nico se manifestar; permanecer em silncio porque o 
Ser falar.
      "A parte se transformar no todo, ou melhor, no haver nem parte nem todo. Na Escola do Segredo vers milhares de homens dotados de conhecimento intelectual, 
com os lbios separados, em silncio. Que  aqui o conhecimento intelectual? Detm-te na soleira da porta como uma criana cega. Quem descobre alguma coisa desse 
segredo desvia o rosto do reino dos dois mundos. O Ser de que falo no existe separadamente; todos so esse Ser, a existncia e a inexistncia so esse Ser."

A prece de Lokman de Sarkhasi
      - Disse Lokman de Sarkhasi:
      " Deus, estou velho, minha mente perturbou-se; desviei-me do Caminho. A um velho escravo d-se carta de alforria. No vosso servio,  meu rei, meus cabelos 
negros se tornaram brancos como a neve. Sou um escravo em estado de profunda depresso; dai-me agora a carta de alforria".
      Uma voz do mundo interior replicou:
      "Tu, que foste especialmente admitido ao santurio, sabes que aquele que deseja livrar-se da escravido precisa primeiro descartar-se da razo e no se ocupar 
de cuidados e ansiedades".
      " meu Deus", tornou Lokman, "s vos desejo a vs, e sei que no devo ceder  imaginao, aos cuidados,  ansiedade."
      Depois que Lokman renunciou a essas coisas, disse:
      "Agora no sei o que sou. No sou escravo, mas que sou eu? Minha escravido terminou, mas minha liberdade no aconteceu: no tenho alegria nem tristeza no 
corao. Careo de qualidade, embora no tenha sido despojado dela. Sou um contemplativo e, todavia, no possuo contemplao. No sei se tu s eu ou se eu sou tu; 
fui reduzido a nada em ti e a dualidade se perdeu".
       
Um apaixonado salva a amada das guas
      Uma jovem caiu no rio e seu amante atirou-se  gua com a inteno de salv-la. Quando ele se avizinhou, a moa perguntou:
      "Por que arriscas a vida por minha causa?"
      E ele respondeu:
      "Para mim no existe outra pessoa seno tu. Quando estamos juntos eu realmente sou tu e tu s eu. Ns dois somos um. Nossos corpos so um s, e isso  tudo".
      Quando desaparece a dualidade, encontra-se a unidade.
       
Outra histria de Mahmud e Ayaz
      Conta-se que, certa vez, Farouk e Masoud estavam presentes a uma revista do exrcito de Mahmud, que consistia num sem-nmero de elefantes, cavalos e soldados, 
de tal sorte que a terra se diria coberta de formigas e gafanhotos. Ayaz e Hassan acompanhavam Mahmud, que ia sentado, a cavaleiro de todos.
      Enquanto o imenso exrcito marchava diante deles, o grande monarca desatou a lngua e disse a Ayaz:
      "Meu filho, todos esses elefantes, cavalos e homens, que eram meus, agora so teus, pois o amor que sinto por ti  tamanho que te vejo como um rei".
      Se bem essas palavras fossem proferidas pelo renomado Mahmud, Ayaz permaneceu indiferente e impassvel; nem agradeceu ao rei, nem comentou o fato. Hassan, 
espantado, interpelou-o:
      "Ayaz, um rei te honra, a ti, simples escravo, e nem sequer deixas transparecer o menor sinal de gratido! No te inclinaste nem te prostraste como prova de 
respeito!"
      Ayaz pensou um pouco e respondeu:
      "Devo dar duas respostas  tua censura: a primeira  que se eu, que no tenho estabilidade nem posio, quiser demonstrar minha devoo ao rei, s posso lanar-me 
ao p diante dele numa espcie de humilhao, ou entoar-lhe os louvores com voz plangente. Entre fazer de mais ou de menos, o melhor  no fazer nada. O escravo 
pertence ao rei, e seu respeito ao soberano pressupe-se. Quanto  honra que me faz este venturoso monarca, se os dois mundos lhe proclamassem os louvores, o testemunho 
deles jamais lhe igualaria o mrito. Se no procedo de maneira ostentosa e no fao protestos de fidelidade,  porque, na minha opinio, no sou digno de faz-lo".
      Disse Hassan:
      " Ayaz, vejo agora que s reconhecido e digno de
       
      uma centena de favores". Logo, acrescentou: "D-me agora a segunda resposta".
      Ayaz, porm, respondeu:
      "No posso falar livremente diante de ti, s poderei faz-lo a ss com o rei. No s mahram do segredo".
      O rei pediu a Hassan que os deixasse, e, quando j no havia "ns" nem "eu", Ayaz disse:
      "Quando o rei se digna a lanar os olhos sobre mim aniquila-me a existncia com o fulgor dos seus raios. Visto que j no existo sob a luz do seu glorioso 
sol, como me prosternarei? Ayaz  sua sombra, perdido no sol do seu rosto".
      
43
O sexto vale ou o Vale do Espanto e da Perplexidade
      
      Depois do Vale da Unidade vem o Vale do Espanto e da Perplexidade, onde o viajante  presa da tristeza e da melancolia. Ali os suspiros so espadas, e cada 
respirao  um amargo suspiro. A noite e o dia surgem ao mesmo tempo. Ali h fogo, e, sem embargo disso, o homem se sente deprimido e desalentado. Como, em sua 
perplexidade, prosseguir no caminho? Mas quem alcanou a unidade se esquece de tudo e se esquece de si. Se lhe perguntarem: "s ou no s? Tens ou no tens o sentimento 
da existncia? Ests no centro ou na periferia? s mortal ou imortal?", ele responder com certeza:
      "Nada sei, nada entendo, no tenho conscincia de mim mesmo. Estou apaixonado, mas ignoro por quem. Meu corao est cheio e vazio de amor ao mesmo tempo".
       
A princesa apaixonada pelo escravo
      Um rei cujo imprio se estendia at os longnquos horizontes, tinha uma filha to bela quanto a lua. Diante de sua formosura at as fadas se sentiam diminudas. 
Seu queixo, em que se via uma covinha, parecia o poo de Jos, e as mechas de seus cabelos feriam uma centena de coraes. As sobrancelhas eram arcos gmeos, e, 
quando ela desferia suas flechas, o espao entre ambas cantava em seu louvor. Os olhos, lnguidos como o narciso, atiravam espinhos dos clios no caminho do sbio. 
O rosto era como o sol quando desvirginou a lua. O anjo Gabriel no conseguia despregar a vista das prolas e rubis da sua boca. Um sorriso dos seus lbios secava 
a gua da vida em quem a contemplava, mas que, ainda assim, implorava uma esmola dos mesmos lbios. Quem lhe vislumbrasse o queixo cairia de ponta-cabea numa fonte 
de gua fervente.
      O rei tambm tinha um escravo, to belo que a sol empalidecia e a luz da lua esmaecia em sua presena. Quando ele caminhava pelas ruas e pela praa do mercado, 
multides se detinham para contempl-lo.
      Um dia, por acaso, a princesa viu o escravo e, num momento, o corao lhe escorregou das mos. A razo desertou-a e o amor tomou conta dela. Sua alma, doce 
como Shirin, ficou amarga. Afastando-se das companheiras, ps-se a pensar e, pensando e refletindo, comeou a arder. Em seguida, chamou suas dez jovens damas de 
honra, excelentes msicas, que tocavam charamelas e flautas, cujas vozes no se distinguiam da voz dos rouxinis e cujos cantares, dignos de Davi, despedaavam a 
alma. Reunindo-as  sua volta, falou-lhes do seu estado, dizendo estar pronta para sacrificar o nome, a honra e a vida pelo amor daquele moo; pois quando algum 
est profundamente apaixonado no presta para mais nada.
      "Mas", ajuntou, "se eu lhe falar do meu amor, ele, sem dvida, far alguma coisa impensada. Se se divulgar a notcia de que fui ntima de um escravo, ns dois, 
ele e eu, sofreremos. Por outro lado, se ele no me possuir, morrerei lastimando-me atrs da cortina do harm. Li uma centena de livros que tratam da pacincia, 
e nem mesmo assim a adquiri. Que posso fazer? Tenho de encontrar um modo de gozar o amor desse esbelto cipreste, de sorte que o desejo do meu corpo se harmonize 
com o anseio de minha alma - e isso tem de ser feito  revelia dele."
      Disseram, ento, as donzelas de voz melodiosa:
      "No sofras. Hoje  noite o traremos aqui, desconhecido de todos, e nem ele ficar sabendo coisa alguma".
      Pouco depois, uma das moas se abeirou, em segredo, do escravo e pediu-lhe, como por brincadeira, que fosse buscar duas taas de vinho. Deitou uma droga numa 
das taas e f-lo beber. Ele adormeceu incontinenti, permitindo  jovem levar a cabo o seu plano, e o moo de peito de prata ficou sem notcias dos dois mundos.
      Quando a noite chegou, as damas de honra foram, p ante p, at onde estava o escravo adormecido, colocaram-no numa liteira e conduziram-no  princesa. Em 
seguida, sentaram-no num trono de ouro e cingiram-lhe a cabea com uma coroazinha de prolas.  meia-noite, ainda meio drogado, ele abriu os olhos e viu um palcio 
lindo como um paraso e,  sua volta, assentos de ouro. Alumiavam o lugar dez grandes velas perfumadas com mbar, e um suave agloco queimava em vasilhas. As donzelas 
puseram-se a cantar toadas to doces que a razo disse adeus ao esprito e a alma, ao corpo. Logo, o sol do vinho circulou  luz das velas. Confuso diante da alegria 
do ambiente e ofuscado pela formosura da princesa, o moo perdeu o juzo. J no se achava realmente neste mundo e tampouco no outro. Com o corao cheio de amor 
e o corpo possudo pelo desejo, em meio a tantas delcias, caiu em xtase. Tinha o olhar cravado na beleza dela e os ouvidos presos ao som das flautas de bambu. 
Suas narinas absorviam o perfume do mbar, e o vinho sabia-lhe na boca a fogo lquido. A princesa beijou-o, e ele derramou lgrimas de alegria, ao mesmo tempo que 
ela mesclava as suas s dele. s vezes, ela lhe depositava beijos suaves nos lbios, s vezes sazonava-os com sal; s vezes, desmanchava-lhe os cabelos, s vezes 
se perdia nos olhos dele. Ele a possuiu; e assim passaram o tempo at que a aurora despontou no oriente. Quando o Zfiro matutino suspirou, o jovem escravo entristeceu; 
mas as damas tornaram a adormec-lo e levaram-no de volta aos seus aposentos.
      Ao voltar a si, sem saber por qu, o moo de peito de prata principiou a chorar. Poder-se-ia dizer que tudo terminara e que, portanto, no valia a pena chorar. 
Ele rasgou as vestes, arrancou os cabelos, jogou terra na cabea. Os que se achavam prximos perguntaram-lhe por que fazia tudo isso e o que ocorrera. Ele respondeu:
      "No consigo descrever o que vi, e ningum mais poder v-lo, seno em sonhos, pois o que me aconteceu no pode ter acontecido a ningum. Nunca houve mistrio 
mais assombroso".
      "Acorda, e conta-nos, pelo menos, uma das cem coisas que sucederam", pediu outro.
      E ele:
      "Estou confuso, porque o que vi me aconteceu em outro corpo. Ao mesmo tempo que no ouvia nada, ouvi tudo, e ao mesmo tempo que no via nada, vi tudo".
      "Perdeste o juzo ou apenas sonhaste?", acudiu um terceiro.
      "No sei se estou bbado ou sbrio", tornou ele. "Que pode ser mais desconcertante do que algo que no se revela nem se esconde? Jamais poderei esquecer o 
que vi, e, no entanto, no tenho a menor idia de onde aconteceu. Durante toda a noite amei uma beldade sem igual. No sei quem  nem o que . S ficou o amor, e 
isso  tudo. Mas Deus sabe a verdade."
       
A me e a filha morta
      Ao ver uma me chorando sobre o tmulo da filha, disse um homem que passava:
      "Essa mulher  superior a ns, homens, pois sabe quem perdeu e de quem se separou. Feliz a mulher, ou o homem, que sabe quem perdeu e por quem chora. Quanto 
a mim, se bem esteja de luto e minhas lgrimas corram como chuva, no sei por quem choro. Esta mulher leva a palma a milhares como eu, pois encontrou o perfume do 
ser que ela perdeu".
       
A chave perdida
      Um sufi ouviu um homem gritar:
      "Algum achou uma chave? Minha porta est fechada e eu estou na poeira da rua. Se minha porta continuar fechada, que farei?"
      Disse-lhe o sufi:
      "Por que te amofinas? J que esta  a tua porta, fica perto dela, ainda que esteja fechada. Se tiveres pacincia para esperar o tempo suficiente, algum, sem 
dvida, a abrir para ti. Ests em melhor situao do que eu, que no tenho porta nem chave. Prouvera a Deus que eu encontrasse uma porta, aberta ou fechada".
      O homem vive num estado de imaginao, num sonho; ningum v as coisas como so. A quem te perguntar "Que farei?", responde-lhe: "No faas o que sempre fizeste, 
no ajas como sempre agiste". Quem ingressa no Vale do Espanto tem tristeza suficiente para cem mundos. Quanto a mim, estou perplexo e perdido. Para onde dirigirei 
meus passos? Oxal o soubesse! Mas no te esqueas de que os gemidos dos homens trazem a misericrdia.
       
O discpulo que viu o mestre num sonho
      Um discpulo, certa noite viu, num sonho, seu falecido professor e disse-lhe:
      "Dizei-me em que estado vos encontrais agora. Desde que vos fostes, tenho andado perdido em perplexidade e queimado de dor".
      O pir explicou:
      "Estou em tamanho estado de assombro que s posso morder o dorso da minha mo. Estou no fojo, atnito; e recebi um choque maior do que quantos j experimentei 
em vida".
      
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O stimo vale ou o Vale da Privao e da Morte
      A Poupa continuou:
      "O ltimo de todos, o Vale da Privao e da Morte,  quase impossvel descrever. A essncia desse vale  o esquecimento, a mudez, a surdez e a confuso; as 
mil sombras que te cercam desaparecem num nico raio do sol celestial. Quando o oceano da imensidade comea a arfar, o modelo  superfcie perde a forma; e esse 
modelo no  mais que o mundo presente e o mundo por vir. Quem declara que no existe acumula grandes mritos. A gota que se torna parte do imenso oceano, mora l 
para sempre e em paz. Nesse mar calmo, o homem a princpio s experimenta humilhao e
       
      destruio; mas quando emergir desse estado, compreend-lo- como criao, e muitos segredos lhe sero revelados.
      "Muitos seres deixaram de dar o primeiro passo, e, assim, no puderam dar o segundo - s podem comparar-se a minerais. Reduzidos a cinzas, o agloco e os espinhos 
parecem iguais - mas sua qualidade  diferente. Um objeto impuro cado numa gua de rosas continua impuro em consequncia de suas qualidades inatas; mas um objeto 
puro jogado no oceano perder sua existncia especfica e participar do oceano e do seu movimento. Embora deixe de existir separadamente, conserva a beleza. Existe 
e no existe. Como pode ser isso?  mente no  dado conceb-lo."
       
O conselho de Nassir Uddin
      O amado de Tus, oceano de segredos espirituais, disse a um discpulo:
      "Derrete-se no fogo do amor at te tornares fino como um fio de cabelo e estars apto a tomar o teu lugar entre as madeixas da tua amada. Se os teus olhos 
estiverem voltados para o caminho e fores clarividente, contempla e pondera fio por fio de cabelo.
      "Quem deixa o mundo para seguir o Caminho encontra a morte: quem encontra a morte, encontra a imortalidade.  corao, se tiveres sido virado do avesso, cruza 
a ponte Sirat e o fogo abrasador; pois quando se queima, o leo da lmpada produz uma fumaa to negra quanto um velho corvo, mas, depois de consumido pelo fogo, 
deixa de ter uma existncia grosseira.
      "Se quiseres chegar quela eminncia, desfaz-te de ti mesmo; em seguida, sai do nada como outro Borak. Cinge a khirka do nada e bebe a taa da aniquilao; 
em seguida, cobre o peito com o cinto do apoucamento e pe na cabea o albornoz da inexistncia. Coloca o p no estribo do desapego e impele o teu corcel intil 
rumo ao lugar onde no h nada. Mas se subsistir em ti o menor egosmo, os sete mares estaro, para ti, cheios de adversidade."
       
A histria das mariposas
      Certa noite, as mariposas se reuniram, atormentadas pelo desejo de se juntarem  vela. Disseram:
      "Precisamos mandar algum  procura de informaes sobre o objeto da nossa busca amorosa".
      Em vista disso, uma delas partiu. Chegou a um castelo e, dentro dele, viu a luz de uma vela. Regressou e relatou, segundo a sua compreenso, tudo o que vira. 
Mas, no entender da sbia mariposa que presidia  reunio, ela no percebera coisa alguma da vela. Nessas condies, outra mariposa seguiu caminho do castelo. Tocou 
a chama com a ponta das asas, mas o calor a fez recuar. Como o seu relatrio no fosse mais satisfatrio que o da primeira, a terceira mariposa partiu. Esta, bbada 
de amor, atirou-se  chama; empolgou-a com as patas dianteiras e uniu-se alegremente a ela. Abraou-a toda, e seu corpo ficou vermelho como o fogo. A mariposa sbia, 
que observava a cena de longe, ao ver que a chama e a mariposa pareciam uma s, disse:
      "Ela aprendeu o que desejava saber; mas s ela compreende, e nada mais se pode dizer".
      
Um sufi maltratado
      Um sufi que flanava pela rua foi golpeado pelas costas. Voltou-se e disse ao vagabundo que o atingira:
      "Aquele em quem bateste est morto h mais de trinta anos".
      O vagabundo repontou:
      "Como  que um morto pode falar? Envergonha-te, no ests unido a Deus. Estares separado dele por um fio de cabelo  o mesmo que estares a cem mundos de distncia".
      Quando fores reduzido a cinzas, incluindo a tua bagagem, no ters o menor sentido de existncia; mas se subsistir em ti, como em Jesus, uma simples agulha, 
uma centena de ladres estar  tua espera na estrada. Embora Jesus tivesse jogado fora a bagagem, a agulha ainda lhe arranhou o rosto.
      Quando a existncia se vai, nem riquezas nem imprios, nem honras nem dignidades tm algum significado.
      
O prncipe e o mendigo
      Era uma vez um rei que tinha um filho to encantador quanto Jos, cheio de graa e beleza. Amado de todos, todos os que o viam teriam gostado de ser o p que 
ele calcava aos ps. Quando saa  noite, era como se um novo sol se houvesse erguido sobre o deserto. Seus olhos, semelhantes ao narciso negro, ateavam fogo ao 
mundo. Seu sorriso espalhava acar, e, por onde quer que caminhasse, mil rosas floresciam sem esperar a primavera.
      Ora, um simples dervixe perdera o corao pelo jovem prncipe. Passava o dia e a noite sentado perto do palcio, sem comer e sem dormir. O rosto tornou-se-lhe 
como ouro amarelo, e seus olhos derramavam lgrimas de prata, pois seu corao se partira em dois. Teria morrido se, de quando em quando, no tivesse uma viso do 
jovem prncipe, quando este aparecia no bazar. Mas como poderia um prncipe como ele confortar um pobre dervixe naquele estado? No entanto, o homem singelo, que 
no passava de uma sombra, uma partcula de tomo, ambicionava aconchegar ao peito o sol radioso.
      Um dia, quando o prncipe cavalgava  testa dos seus acompanhantes, o dervixe ergueu-se e soltou um grito, dizendo:
      "Minha razo deixou-me, meu corao se consumiu, j no tenho pacincia nem foras para sofrer".
      E bateu a cabea no cho, defronte do prncipe. Um dos cortesos achou melhor mandar mat-lo e foi ter com o rei.
      "Senhor", disse ele, "um libertino tomou-se de amores por vosso filho."
      O rei ficou muito zangado.
      "Manda empalar esse patife audaz", ordenou. "Ata-lhe os ps e as mos e amarra-lhe a cabea numa estaca."
      O corteso partiu sem mais delongas, a fim de cumprir as ordens rgias. Colocaram um n corredio no pescoo do mendigo e arrastaram-no para a forca. Ningum 
sabia o que estava acontecendo e ningum intercedeu por ele. Quando o vizir mandou que o colocassem debaixo da forca, o dervixe despediu um grito de dor e imprecou:
      "Pelo amor de Deus, esperai um pouco para que eu possa, ao menos, dizer uma orao debaixo da forca".
      Como isso lhe fosse concedido, o dervixe prostrou-se no cho e orou:
      " Deus, visto que o rei ordenou minha morte - embora eu seja inocente -, concedei-me, a mim, vosso servo ignorante, antes de morrer, a graa de ver mais uma 
vez o rosto desse donzel, a fim de poder oferecer-me em sacrifcio.  Deus, meu rei, vs que dais ouvido a um milhar de preces, atendei ao meu ltimo desejo!"
      Assim que o dervixe formulou a splica, a seta do seu desejo atingiu o alvo. O vizir adivinhou-lhe o segredo e teve pena dele. Dirigindo-se ao rei, explicou-lhe 
a verdadeira situao. O rei ouviu-o e ps-se a pensar; logo, a compaixo encheu-lhe o corao e ele perdoou o dervixe. E disse ao prncipe:
      "Vai buscar aquele pobre homem que est debaixo da forca. S delicado com ele, que provou do teu veneno. Leva-o para o teu jardim e, depois, traze-o  minha 
presena".
      O jovem prncipe, outro Jos, partiu incontinenti - o sol de rosto de fogo defrontou o tomo. O oceano de formosas prolas foi procurar uma gota d'gua. Golpeia 
a cabea de jbilo, pe os ps para danar, bate palmas! Mas o dervixe estava desesperado; suas lgrimas convertiam o p em lama, e o mundo ficou mais pesado com 
os seus suspiros. Nem mesmo o prncipe pde deixar de chorar. Ao ver-lhe as lgrimas, disse o dervixe:
      " prncipe, agora podes tirar-me a vida".
      E, assim dizendo, entregou a alma e morreu. Quando se soube unido ao seu amado, nem mais um desejo lhe ficou.
       tu, que ao mesmo tempo existes e s uma no-entidade, cuja felicidade se mistura com a infelicidade, se nunca experimentaste o desassossego, como apreciars 
a tranquilidade? Estendes as mos para o raio e os montes de neve varrida te detm. Esfora-te com valentia, queima a razo, entrega-te  loucura. Se desejas usar 
esta alquimia, reflete um pouco, segue o meu exemplo, renuncia a ti mesmo; afasta-te dos teus pensamentos errantes e recolhe a tua alma para poderes chegar  pobreza 
espiritual. Quanto a mim, que no sou eu nem no-eu, desviei-me de mim mesmo e j no encontro outro remdio alm do desespero.
       
Pergunta de um discpulo ao seu xeque
      Um homem que no media esforos para superar as prprias fraquezas perguntou, certa vez, a Nuri:
      "Como serei capaz de chegar, um dia,  unio com Deus?"
      Nuri replicou:
      "Para isso precisas atravessar sete oceanos de luz e sete de fogo, e percorrer uma estrada muito comprida. Quando tiveres atravessado esses sete e mais sete 
oceanos, um peixe te levar a ele, um peixe tal que, ao respirar, atrai para o peito o primeiro e o ltimo. Esse maravilhoso peixe, que no tem cabea nem cauda, 
mantm-se no meio do oceano, tranquilo e alheado; varre os dois mundos e atrai a si todas as criaturas, sem exceo".
       
A atitude dos pssaros
      Quando os pssaros ouviram o discurso da Poupa, a cabea descaiu-lhes para a frente e a tristeza alanceou-lhes o corao. Compreenderam, ento, quo difcil 
seria para um punhado de p como eles retesar um arco assim. To grande era a sua agitao que muitos morreram ali mesmo. Outros, porm, apesar da angstia, decidiram 
enfrentar a longa estrada. Durante anos transpuseram montanhas, vales e nesse jornadear lhes fluiu boa parte da vida. Mas como seria possvel contar tudo o que lhes 
sucedeu? Fora necessrio ir com eles, presenciar-lhes as dificuldades e seguir o serpentear da longa estrada. S assim se poderia compreender o que os pssaros sofreram.
      Por fim, somente um pequeno nmero de toda a grande companhia chegou ao lugar sublime a que a Poupa os conduzira. Dos milhares que haviam iniciado a viagem 
quase todos tinham desaparecido. Muitos se perderam no oceano, muitos pereceram nas grimpas das altas montanhas, torturados pela sede; o fogo do sol crestara as 
asas e secara o corao de outros tantos; alguns foram devorados por tigres e panteras; e outros se finaram de fadiga nos desertos e nas selvas, com os lbios ressequidos 
e o corpo vencido pelo calor; outros, enlouquecendo, mataram-se por um gro de cevada; outros, debilitados pelo sofrimento e pela estafa, deixaram-se cair na estrada, 
incapazes de prosseguir; outros, pasmos diante do que viam, detinham-se, estupefatos; e muitos, que se tinham aventurado por curiosidade ou desfastio, morreram sem 
ter tido uma idia sequer do que se mostravam decididos a encontrar.
      Destarte, apenas trinta, dentre os milhares de pssaros, chegaram ao termo da jornada. E esses mesmos se mostravam perplexos, cansados, desanimados, sem penas 
nem asas. Mas, fosse como fosse, haviam chegado  porta da Majestade que no se pode descrever e cuja essncia  incompreensvel - o Ser que est alm da razo e 
do conhecimento humano. Coruscou, ento, o relmpago da realizao, e uma centena de mundos se consumiu num momento. Eles viram milhares de sis, um mais resplandecente 
do que o outro, milhares de estrelas e planetas, todos igualmente belos; e, ao verem tudo isso, assombrados e agitados como um tomo bailarino de p, exclamaram:
      " tu, que s mais radiante do que o sol! Tu, que reduziste o sol a um tomo, como poderemos apresentar-nos diante de ti? Ah, por que suportamos to inutilmente 
todo esse sofrimento no Caminho? Tendo renunciado a ns mesmos e a todas as coisas, agora no podemos alcanar a razo por que tanto lutamos. Aqui, pouco faz que 
existamos ou no".
      E os pssaros, to desacoroados quanto um galo semimorto, deixaram-se dominar pelo desespero. Longo tempo se passou. Quando, em dado momento, a porta se abriu 
de estalo, por ela saiu um nobre camarista, um corteso da Majestade Suprema, que os contemplou, um por um, e viu que, de milhares, restaram apenas trinta pssaros. 
E disse:
      "Agora,  pssaros, dizei-me de onde viestes e o que estais fazendo aqui? Como vos chamais?  vs, que chegais privados de tudo, onde fica o vosso lar? Como 
sois chamados no mundo? Que se pode fazer com um frgil punhado de p como vs?"
      "Viemos", responderam eles, "para reconhecer o Si-murgh, nosso rei. Merc do amor e do desejo dele, perdemos a razo e a paz de esprito. H muito tempo, quando 
encetamos esta viagem, ramos milhares, mas apenas trinta chegamos a esta corte sublime. No podemos acreditar que o rei faa pouco de ns depois de todos os sofrimentos 
por que passamos. Ah, no! Ele s poder contemplar-nos com os olhos da benevolncia!"
      O camarista replicou:
      " vs, que tendes a mente e o corao perturbados, quer existais, quer no existais no universo, o rei tem sempre e eternamente o seu ser. Milhares de mundos 
de criaturas no so mais que uma formiga  sua porta. Nada trazeis alm de gemidos e lamentaes. Regressai, portanto, ao stio de onde viestes,  vil punhado de 
terra!"
      Ouvindo isso, os pssaros ficaram petrificados de espanto. No obstante, quando tornaram um pouco a si, disseram:
      "O grande rei nos rejeitar to ignominiosamente? E se ele, de fato, assumiu essa atitude para conosco, no poder mud-la para uma atitude de respeito? Lembrai-vos 
de Majnum, que disse: 'Se todas as pessoas que habitam a terra desejassem entoar meus louvores, eu no os aceitaria; quisera antes receber os insultos de Lala. 
Apenas um dos seus insultos me seria mais caro do que uma centena de cumprimentos de outra mulher!"
      "O relmpago da sua glria manifesta-se", disse o camarista, "e eleva a razo de todas as almas. Que benefcio haver se a alma for consumida por uma centena 
de tribulaes? Que benefcio haver, neste momento, na grandeza ou na pequenez?"
      Inflamados de amor, disseram os pssaros:
      "Como se salvar da chama a mariposa que deseja unir-se a ela? O amigo que buscamos nos contentar permitindo que nos unamos a ele. Se formos recusados, que 
mais nos restar fazer? Somos iguais  mariposa que anelava a unio com a chama da vela. Rogaram-lhe que no se sacrificasse to nesciamente e por um objetivo to 
impossvel, mas ela agradeceu o conselho e declarou que, tendo sido o seu corao dado  chama para sempre, nada mais importava".
      Tendo-os assim posto  prova, o camarista abriu a porta; e,  medida que descerrava as cem cortinas, uma atrs da outra, revelou-se-lhes um novo mundo alm 
do vu. Manifestava-se agora a luz das luzes, e todos se assentaram na masnad, sede da Majestade e da Glria. Cada qual recebeu um escrito com a recomendao de 
l-lo do princpio ao fim; e, lendo-o e refletindo, foi-lhes possvel compreender o prprio estado. Quando se viram totalmente em paz e alheados de todas as coisas, 
perceberam que o Simurgh se achava ali em sua companhia e que uma nova vida comeava para eles no Simurgh. Tudo o que haviam feito anteriormente se apagou. O sol 
da majestade emitia seus raios, e, no reflexo do rosto de cada um, os trinta pssaros (si-murgh) do mundo exterior contemplaram o rosto do Simurgh do mundo interior. 
Isso os espantou de tal maneira que no sabiam se ainda eram eles mesmos ou se se haviam transformado no Simurgh. Afinal, num estado de contemplao, compreenderam 
que eram o Simurgh e que o Simurgh era os trinta pssaros. Quando fitavam os olhos nele, viam que, de fato, o Simurgh l estava, e, quando voltavam os olhos para 
si mesmos, viam que eram o Simurgh. E, dando tento de ambos ao mesmo tempo, de si prprios e dele, compreenderam que o mesmo eram eles e o Simurgh. Ningum no mundo 
ouviu jamais coisa igual a essa.
      A seguir, entregaram-se  meditao, e, passado algum tempo, pediram ao Simurgh, sem auxlio da linguagem, que lhes revelasse o segredo do mistrio da unidade 
e da pluralidade dos seres. E mesmo sem falar, o Simurgh deu-lhes esta resposta:
      "O sol da minha majestade  um espelho. Quem nele se v v sua alma e seu corpo e os v completamente. Visto que viestes como trinta pssaros, si-murgh, vereis 
trinta pssaros neste espelho. Se tivessem vindo quarenta ou cinquenta, seria o mesmo. Ainda que estejais agora completamente mudados, vs vos vedes como reis antes.
      "Pode a vista de uma formiga alcanar as Pliades distantes? E pode esse inseto erguer uma bigorna? J vistes, alguma vez, um mosquito segurar um elefante 
com os dentes? Tudo o que conhecestes, tudo o que vistes, tudo o que dissestes ou ouvistes - tudo isso j no  aquilo. Quando atravessastes os vales do Caminho 
Espiritual e realizastes boas tarefas, fizestes tudo por minha ao; e pudestes ver os vales da minha essncia e das minhas perfeies. Vs, que sois apenas trinta 
pssaros, fizestes bem em ficar espantados, impacientes e curiosos. Mas eu sou mais do que trinta pssaros. Sou a prpria essncia do verdadeiro Simurgh. Aniquilai-vos, 
pois, gloriosa e jubilosamente em mim, que em mim vos encontrareis."
      Logo depois perderam-se os pssaros para sempre no Simurgh - a sombra perdeu-se no sol, e isso  tudo.
      Tudo o que ouviste, viste ou conheceste no  sequer o comeo do que deves saber, e j que a habitao arruinada deste mundo no  o teu lugar, renuncia a 
ela. Busca o tronco da rvore e no te preocupes em saber se os galhos existem ou no.
       
A imortalidade aps o aniquilamento
      Depois de haverem passado cem mil geraes, os pssaros mortais entregaram-se espontaneamente ao aniquilamento total. Homem nenhum, velho ou moo, pode falar 
com propriedade da morte ou da imortalidade. Assim como essas coisas esto longe de ns, tambm a descrio delas foge a qualquer explicao ou definio. Se os 
leitores desejarem uma explicao alegrica da imortalidade que se segue ao aniquilamento, terei de escrever outro livro. Enquanto estiveres identificado com as 
coisas do mundo no pors os ps no Caminho, porm quando o mundo j no te prender, entrars como num sonho; mas, conhecendo o fim, vs o benefcio. Um germe alimenta-se 
com uma centena de cuidados e amor para que possa vir a tornar-se um ser inteligente e ativo. Instruem-no e ministram-lhe os conhecimentos necessrios. Depois vem 
a morte e tudo se apaga; sua dignidade  lanada ao cho. O que era um ser converteu-se no p da estrada, aniquilado vrias vezes; nesse nterim, porm, foi-lhe 
permitido aprender uma centena de segredos de que antes no se dera conta; e, no fim ele recebe a imortalidade e  honrado em lugar de ser desonrado. Sabes o que 
possuis. Entra em ti mesmo e reflete nisso. Enquanto no compreenderes o teu nada e no abdicares da tua presuno, da tua vaidade e do teu egosmo, no atingirs 
as culminncias da imortalidade. No Caminho s abatido com desonra e erguido com honra.
      E agora que minha histria terminou, no tenho mais nada a dizer.
      

    Eplogo
    
       Attar! Espargiste pelo mundo o contedo do vaso de almscar dos segredos. Os horizontes encheram-se dos teus perfumes e os amantes esto perturbados por 
tua causa. Teus versos so o teu selo; e so conhecidos como Mantiq ut-tair e Makamat ut-tiyur. Estas conferncias, falas e discursos dos pssaros so os estdios 
do caminho da perplexidade; ou, como se pode dizer, o Div da Embriaguez.
      Entra nesse div com amor. Quando o Duldul do teu amor galopa e desejas alguma coisa, age em conformidade com o teu desejo. O amor  o remdio para todos os 
males, e  o remdio da alma nos dois mundos.
       tu, que enveredaste pelo caminho do desenvolvimento interior, no leias o meu livro apenas como obra potica, nem como livro de magia, mas com compreenso; 
e, para isso, faz-se mister que o homem esteja com fome de alguma coisa, insatisfeito consigo mesmo e com este mundo.
      Quem no sentiu o perfume do meu discurso no encontrou o caminho dos amantes. Mas quem o ler com cuidado tornar-se- ativo e ser digno de entrar no Caminho 
de que falo. Os homens do mundo exterior sero como afogados no que tange ao meu discurso; mas os homens do mundo interior lhe compreendero os segredos. Meu livro 
 o ornamento do seu tempo; , simultaneamente, um presente para os homens distintos e um favor para os homens comuns. Se um homem frio como o gelo ler este livro, 
projetar-se- como fogo para fora do vu que dele oculta o mistrio. Meus escritos tm uma peculiaridade notvel - proporcionam maior proveito segundo o modo como 
so lidos. Se meditares neles com frequncia, aproveitar-te-o cada vez mais. O vu desta esposa do harm s ser afastado para ti aos poucos, no lugar da honra 
e da graa. Espalhei prolas do oceano da contemplao; estou, portanto, desobrigado, e este livro  a prova disso.
      Mas talvez no aproves que eu me louve em demasia, embora o imparcial reconhea o meu mrito, pois a luz da minha lua cheia no est oculta. Se eu no for 
lembrado por mim mesmo, s-lo-ei at a ressurreio pelas prolas de poesia que derramei sobre a cabea dos homens. As cpulas do cu se dissolvero antes que perea 
este poema.
      Se experimentaste, leitor, algum bem-estar por hav-lo lido com ateno, lembra-te do autor em tuas preces. Esparzi aqui e ali rosas do jardim. Lembrai-vos 
de mim,  meus amigos! Cada professor tem um modo especial de revelar suas idias e depois desaparece. Como os meus predecessores, revelei o pssaro da minha alma 
aos que esto dormindo. O sonho que te enche a vida talvez te haja privado deste discurso, mas, tendo-o encontrado, tua alma ser despertada pelo segredo que ele 
revela.
      E agora meu crebro est enfumaado como o nicho em que arde uma vela. Disse eu a mim mesmo: " tu que falas tanto, em lugar de falar desse jeito bate a cabea 
e busca os segredos. Que adiantam todas essas narraes para homens corrompidos pelo egosmo? Que  o que pode sair de coraes dominados pela vaidade e pela presuno?"
      Se quiseres que o oceano da tua alma permanea num estado de movimento salutar, morre para toda a tua antiga vida e, depois, silencia.
       
      

    Attar
    
      Farid ud-Din Abu Hamid Muhammad ben Ibrahim era geralmente conhecido pelo nome de Attar, o perfumista. Conquanto pouco se saiba, com certeza, a respeito de 
sua vida, parece que nasceu em 1120 d.C. perto de Nishapur, no noroeste da Prsia (terra natal de Ornar Khayyam). Acredita-se que sua morte, cuja data  incerta, 
tenha ocorrido por volta de 1230, de modo que ele teria vivido cento e dez anos. A maioria das coisas que se conhecem a seu respeito pertence  lenda, incluindo 
sua morte, nas mos de um soldado de Gngis Khan. De suas reminiscncias pessoais, espalhadas pelos seus escritos, infere-se que passou, quando moo, treze anos 
em Meshad. Segundo nos conta Daw-latshah, Attar estava sentado, um dia,  porta da sua loja com um amigo quando ali se apresentou um dervixe, que olhou para dentro, 
aspirou os suaves perfumes que se desprendiam da loja, suspirou e ps-se a chorar. Supondo que ele estivesse tentando despertar compaixo, Attar pediu-lhe que se 
retirasse. Respondeu o dervixe:
      "Sim, no h nada que me impea de deixar a tua porta e dizer adeus a este mundo. Tudo o que possuo  a minha khirka surrada. Mas sofro por ti, Attar. Como 
poders, algum dia, voltar o rosto para a morte e renunciar a todos esses bens terrenos?"
      Attar replicou que esperava terminar a vida na pobreza e no contentamento, como um dervixe.
      "Veremos", disse o dervixe.
      E, deitando-se no cho, morreu.
      Attar ficou to impressionado com a cena que deixou a loja do pai, fez-se discpulo do famoso xeque Bukn-ud-din e comeou a estudar, na teoria e na prtica, 
o sistema de idias dos sufis. Durante trinta e nove anos viajou por muitos pases, estudando em mosteiros e coligindo os escritos de sufis devotos, alm de lendas 
e histrias. Em seguida, regressou a Nishapur, onde viveu o resto da vida. Dizia-se que ele possua uma compreenso mais profunda das idias sufistas do que qualquer 
outra pessoa do seu tempo. Comps cerca de duzentos mil versos e muitas obras em prosa. Viveu antes de Jalal-uddin Rumi. Perguntado sobre qual dos dois mais compreendera 
a doutrina dos sufis, um sufi respondeu:
      "Rumi voou para as alturas da perfeio como a guia, num repente; Attar chegou  mesma altura marinhando como a formiga".
      Rumi disse: "Attar  a prpria alma".
      Garcin de Tassy refere que em 1862 Nicolau Khanikoff descobriu, nas cercanias de Nishapur, uma pedra que havia sido erguida entre 1469 e 1506 (uns duzentos 
e cinquenta anos aps a morte de Attar), na qual fora gravada uma inscrio em persa. Verti da seguinte maneira a traduo para o francs, feita por Tassy, da citada 
inscrio:
      
       "Deus  Eterno
       Em nome de Deus
       O Compassivo e Misericordioso
       Aqui, neste jardim de um den inferior, Attar perfumou a alma dos homens mais humildes. Esta  a sepultura de um homem to eminente que a poeira animada pelos 
seus ps teria servido de colrio aos olhos do firmamento; do ilustre xeque Attar Farid, de quem os santos eram discpulos; deste excelente perfumista cujo hlito 
perfumava o mundo de um Kaf a outro. Nesta loja, ninho de anjos, o firmamento  um frasquinho de plulas perfumadas com cidra. A terra de Nishapur ser famosa at 
o dia da ressurreio por causa desse homem ilustre. A mina do seu ouro situa-se em Nishapur, pois ele nasceu em Zarwand, no distrito de Gurgan. Viveu em Nishapur 
durante oitenta e dois anos, trinta e dois dos quais decorreram em tranquilidade. No ano da Hgira de 586 (1190), foi perseguido pela espada do exrcito que tudo 
devorou. Farid pereceu no tempo de Hulaku Khan, martirizado na matana que ento ocorreu. . . Reanime Deus, o Altssimo, a sua alma! Aumenta,  Senhor, o seu mrito!
       A lpide desse homem eminente foi aqui colocada no reinado do Rei do Mundo, Sua Majestade o sulto Abu Igazi Hussein ..."
       
      O resto da inscrio  em louvor ao sulto. No parece haver nenhum registro escrito contemporneo de quando, onde ou como ele morreu ou foi sepultado.
       
      
Nota sobre os sufis
    
      O nome deriva de "suf", "l" - mantos de l de ascetas. Os sufis seguem os ensinamentos interiores do Coro. Juntamente com um sistema de idias baseado nos 
preceitos do seu livro sagrado, tm um mtodo prtico de trabalhar o prprio esprito, ensinado oralmente. Por meio de exerccios, posturas e danas, as foras do 
homem que esto sendo constantemente desviadas dele mesmo podem ser utilizadas e convertidas para o desenvolvimento interior e o aumento da conscincia. A meta e 
o fim so a unio da alma com Deus. Podem ocorrer momentos de prelibao dessa unio - momentos de revelao e xtase - "presentes", como so chamados, mas a perfeio, 
a unio com Deus, h que ser conquistada; impe-se um contnuo forcejar.
      H um Deus. Todas as coisas esto nele e ele est em todas as coisas. Todas as coisas, visveis e invisveis, emanam dele. As religies, por si mesmas, no 
importam, embora sirvam para conduzir os homens  Realidade. O Bem e o Mal, tais como os compreendemos, no existem, pois tudo procede do Ser Uno, Deus; ao mesmo 
tempo, h o bem real e o mal real. O homem no  livre em seus atos; no dispe do livre-arbtrio, se bem possa consegui-lo mediante esforo bem orientado. Foras 
internas e externas movem-se para este ou para aquele lado - joguete de cada vento que sopra. Alcana-se a unio atravs de duas formas de renncia e alheamento: 
a renncia aos desejos, vaidades e devaneios, de um lado; e, de outro, a renncia s coisas do mundo - o amor ao poder,  fama, s riquezas e s honras. Mas a orao 
e o jejum tambm podem ser um grande empecilho: podemos identificar-nos com qualquer coisa. Um sufi, todavia, no renuncia s coisas necessrias nem se retira do 
mundo. Precisa estar nele, embora no lhe pertena.  uma grande bno ter o indispensvel ao corpo fsico. Por si mesmo, o sexo no era ocasio de pecado, como 
veio a ser no cristianismo ortodoxo, mas uma possesso estimada. Compreendiam-se o significado e o uso da fora do sexo. Como Orage assinala em seu ensaio "Sobre 
o amor": "A castidade dos sentidos (nos tempos antigos) era ensinada na primeira infncia. O erotismo, por esse motivo, tornou-se uma arte na mais alta forma que 
o mundo j viu. Seus tmidos ecos encontram-se na literatura persa e sufista de hoje".
      A alma (no sentido da parte superior do homem, que anseia pela perfeio) existia antes do corpo e est presa nele como numa gaiola. A vida humana  uma viagem 
feita por etapas; e o buscador de Deus  um viajante que precisa envidar grandes esforos para superar suas fraquezas e falhas e obter a compreenso e o conhecimento 
verdadeiros.
      Dizem os seus seguidores que o sufismo sempre existiu sob vrias denominaes; e que o sistema e o mtodo, em diferentes formas, eram conhecidos dos egpcios, 
hindus, budistas, judeus, gregos e cristos primitivos - na verdade, de todas as- grandes religies em suas origens. Ele existe hoje no Ocidente.
      S a participao dos que alcanaram certo estado de desenvolvimento pode colocar o viajante no caminho. Basta que ele tenha capacidade de disciplina e de 
esforo para que um s dia - talvez uma s hora, na sociedade dos homens de entendimento, lhe seja de maior valia do que anos de ascetismo e formas exteriores de 
adorao.
      Entre as regras que devem ser obedecidas pelos discpulos em presena de um professor figuram as seguintes:
      "Presta ateno e fala pouco. No respondas a perguntas que no te foram dirigidas; entretanto, se fores interrogado, responde com presteza e no te envergonhes 
de dizer 'No sei'. No discutas por amor  discusso. No te vanglories diante dos teus maiores. No procures os lugares mais elevados. No sejas demasiado cerimonioso. 
Obedece a todas as convenes comuns e conforma-te com os desejos dos outros enquanto estes no te contrariem as convices ntimas. No faas prtica de coisa alguma, 
a no ser que se trate de obrigao religiosa ou de algo til aos outros, visto que pode converter-se num dolo".
      Afirmam os sufis que quase todos nascemos com possibilidade de desenvolvimento interior, mas que nossos pais e as pessoas que nos rodeiam fazem de ns um judeu, 
um cristo, um hindu ou um mago, e adquirimos preconceitos e aceitamos o que os outros dizem, sem nenhuma considerao pela nossa prpria experincia ou raciocnio, 
e que isto se transforma num obstculo. Quando morre um "crente" - pessoa que trabalhou o prprio esprito -, sua alma vai para o cu, que corresponde ao estado 
para o qual ela foi aperfeioada. Mas por maiores "conhecimentos" que tenha um homem, e a menos que ele se haja examinado e confessado a si mesmo que realmente no 
compreende nada, tudo o que adquirir ser como "o vento em suas mos".
       
      

    Glossrio
    
ABRAO, IBRAIM: Um dos seis grandes profetas. Nenrode mandou atir-lo numa fornalha ardente, mas ele foi salvo pelo anjo Gabriel, e o fogo mudou-se num jardim de 
rosas. Nenrode moveu guerra a Abrao, mas seu exrcito foi derrotado por enxames de mosquitos, um dos quais se introduziu em seu crebro; e ele, que queria ser o 
senhor de todos, foi punido pela menor das criaturas.
ABRA: Tambm chamado Azaz e Ter. Pai de Abrao. Idlatra e adorador do fogo.
ADO: Os muulmanos consideram-no o primeiro profeta, o "escolhido de Deus", califa de Deus na terra. O primeiro homem. De acordo com os muulmanos, o trigo foi 
a comida proibida que Ado comeu no Paraso.
"ALAST": A primeira palavra de uma passagem do Coro: "No sou eu o teu Senhor?" Palavras dirigidas s almas humanas contidas em Ado, que respondeu: "Sim".
AL KAUSAR: "Abundncia". Uma lagoa no Paraso de Maom.
ALKHIZR: Diz-se que viveu no tempo de Abrao e ainda est vivo, pois bebeu da gua da vida e, por essa maneira, conquistou a imortalidade.
ALMA: Attar, s vezes, usa a palavra em dois sentidos. Num, para significar a parte superior do homem; no outro, para significar a parte inferior. Neste livro, usa-se 
a palavra "alma" para indicar a parte superior, divina; e "corpo de desejo" para indicar a parte inferior.
ANJOS: Consideram-se feitos de uma substncia simples. Quatro so arcanjos: Gabriel, o anjo das revelaes; Miguel, o patrono dos israelitas; Israfil, que tocar 
a trombeta no ltimo dia; Azrael, o anjo da morte. Munkir e Nakir examinem os mortos em seus tmulos. Existem inmeros outros.
ARANHA: Protegeu Maom, tecendo uma teia que fechou a entrada da caverna em que ele se escondera.
ARCA: Tinha trs andares - o inferior para os animais, o seguinte para os humanos e o superior para os pssaros.
BARBA: Considerada pelos muulmanos como a insgnia da dignidade e da masculinidade. Da a expresso: "Pelas barbas do profeta".
"BISMILLAH": Em nome de Deus.
BORAK, BURAQ: O Brilhante. O animal que Maom montou para viajar  noite, no Mi'raj. Animal branco, menor que o cavalo, provido de asas.
CAABA: Cubo. A construo de pedra, em forma de cubo, no centro da Mesquita, em Meca. Contm a Hajaru'l-Aswad, ou pedra negra, que veio branca do cu mas enegreceu 
merc dos pecados dos que a tocaram.
CES: Animais imundos para os muulmanos. Apesar disso,  permitido caar com ces amestrados. Um co  capaz de ver Azrael, o anjo da morte.
CU: O firmamento. Distinto do Paraso, a morada da bem-aventurana. H sete cus e sete estdios ou caminhos no Cu. Maom passou pelos sete durante o Mi'raj.
COMER: Prescreve-se aos muulmanos que comam em nome de Deus. O Diabo tem poder sobre a comida ingerida sem a lembrana de Deus. Quando um homem se lembra do nome 
de Deus, e se lembra de si mesmo  hora da comida, diz o Diabo aos seus demnios: "Este no  lugar para ns; nem h aqui comida alguma".
COVA: Faz-se amide aluso a um poo ou uma fonte.
"DANG": Moeda correspondente a um quarto de dinar.
DERVIXE: Palavra persa, derivada de "dar", que significa uma porta, portanto "darwesh". Esmolando de porta em porta. Em rabe, faquir - o pobre de esprito. Os dervixes 
seguem os ensinamentos dos sufis. Existem diferentes ordens de dervixes.
DEUS: H uma centena de nomes, ou atributos, de Deus, sendo que o primeiro e o ltimo so Al.
DIABO: Xait, o Opositor, Iblis, o mau. Xait tambm quer dizer o que est longe da verdade; e Iblis, o que j no tem esperana. Disse Maom: "No existe nenhum 
de ns que no tenha um anjo e um diabo escalados para acompanh-lo". Os companheiros lhe perguntaram: "Eles tambm te acompanham?" Ao que Maom respondeu: "Sim, 
a mim tambm, mas como Deus me deu a vitria sobre o Diabo, este no me dirige, a no ser para o que  bom. Nenhum filho de Ado, exceto Maria e seu filho Jesus, 
deixa de ser tocado pelo Diabo ao nascer - da os seus gritos".
DINAR: Moeda de ouro que vale hoje, aproximadamente, duas libras.
DUAS LETRAS: "Com duas letras ele criou ..." So as letras Kaf e Nun, que formam "Kun", que significa "Ser".
FNIX: A sua "trombeta"  uma aluso ao ltimo dia. Fojo: Cisternas e poos secos eram usados como prises. FORMIGA: Guiou Salomo atravs do deserto.
GATO: Um gato acordou Maom quando chegou a hora de rezar. Abu Qutadah disse: "Os gatos no so impuros, ficam de guarda  nossa volta".
GNIOS: Bons e maus espritos. Entre eles se incluem djans, djins, xaits, ifrits e marids. Os maus djins so chamados "deves" pelos persas.
HGIRA: "Migrao". Fuga de Maom de Meca. Quer dizer tambm "fugir do pecado".
HOSPITALIDADE: "S bondoso com teus pais, tua gente, os rfos, teus vizinhos, o companheiro que  estranho e o filho da estrada". Coro.
"HUMA" ou "HUMAY": Abutre. O maior dos pssaros de presa do Velho Mundo. Carrega ossos de animais mortos e arrebenta-os de encontro s rochas, em busca de comida. 
Se a sombra de um huma cair sobre a cabea de uma pessoa, essa pessoa ser guindada a um trono.
IDIOTA: Em rabe, "madjnun". Pessoa que tem a mente no cu e o corpo na terra. Nada do que fizer um idiota de Deus lhe afetar a santidade. Em ingls primitivo, 
os apstolos e as pessoas simples eram chamados de idiotas. "Santos inocentes idiotas", disse Jeremy Taylor. Em grego, "uma pessoa particular". Em alguns ensinamentos 
esotricos: pessoa que est se libertando de apegos interiores e exteriores. Essa libertao opera-se por fases. Usa-se tambm no sentido de nscio, tolo, luntico, 
impostor.
INFERNO: O Fogo. O Inferno tem sete portas ou divises. Uma delas  ]ahannan, o inferno purgatrio.
ISMAEL: Progenitor da raa rabe, profeta inspirado. Diz-se ter sido ele o oferecido em sacrifcio, e no Isaac.
"ISPAND": Erva, talvez a mostarda, queimada por ocasio dos nascimentos e casamentos, para afastar o mau-olhado.
JESUS: Maom chama-lhe o Filho de Maria, o Messias, a Palavra de Deus, a Palavra da Verdade, o Mensageiro de Deus. No foi crucificado, tendo sido um substituto 
posto na cruz em seu lugar. Levado para o stimo cu, foram com ele, por acaso, uma agulha e um jarro quebrado, contrariando as ordens expressas de Deus, que ali 
proibiam a entrada de coisas terrenas. Em razo disso, foi conduzido ao quarto cu, onde ficar em glria para voltar no ltimo dia. Mencionado amide como peixe, 
tambm por Attar. A palavra grega que designa o peixe  ?XT?S, formada com as letras iniciais de ??s??? ???st?? Te?? ???? S?t??, Jesus Cristo Filho de Deus Salvador.
"JIHAD": Esforo, luta. Dizem os sufis que h dois jihads, ou guerras: o maior contra nossas prprias faltas e fraquezas, o menor contra os infiis.
JOELHO: Veja "O xeque e a velha". Aluso a uma postura dos sufis.
JOS: Filho de Jac. Profeta inspirado. Atirado num poo. Depois de ter sido vendido aos egpcios, a esposa de seu amo, Zuleica, apaixonou-se por ele e ele por ela. 
Mas como ele no quisesse ceder, ela o mandou prender. Quando o marido morreu, Zuleica e Jos se casaram, e tiveram dois filhos. Uma das grandes histrias de amor 
do Oriente  a de Jos e Zuleica.
KAF: Cadeia de montanhas que circunda a Terra.
"KHIRKA": Manto dos dervixes, feito de pedaos e remendos.
"KORAH": Nmeros, cap. 16.
LAVANDISCA: H aqui um jogo de palavras no original persa. Lavandisca, mucicha; Moiss, Muca; charamela, mucichar.
MAHMUD: 969-1030 d.C. Um dos mais famosos soberanos muulmanos. Fez de Nishapur sua capital; e sua corte em Gazna era frequentada por poetas, artistas e letrados.
"MAHRAM": Parente prximo, com o qual no  lcito casar; portanto, um ntimo.
MAJNUN: "Possudo por um djim". Sua paixo por Lala  uma das grandes histrias de amor da Prsia. Apaixonaram-se  primeira vista um pelo outro, mas o pai casou-a 
com outro homem. Majnun passou o resto da vida seminu, logrando raras vises de Lala e escrevendo poemas para ela. Os escritores sufistas usam a histria como ilustrao 
do homem que se desfaz de tudo para unir-se a Deus.
"MASNAD": Sede da realeza, na qual h lugar para diversas pessoas.
"MIHRAB:" Nicho em uma mesquita, que aponta para Meca.
MULA: Aluso a um costume das mulheres no Oriente, que faziam chegar a outras pessoas, secretamente, pequenos objetos preciosos escondendo-os na vagina do animal. 
Na Prsia, os ladres eram marcados no ombro.
MORTE: O Coro nos ensina que a hora da morte est fixada para todas as criaturas vivas. "Se Deus decidisse punir os homens pelas suas malfeitorias, no deixaria 
um nico ser humano sobre a terra; entretanto, d-lhes uma trgua; e, quando soa a hora de cada um, ningum pode retard-la por uma hora sequer, nem apress-la".
"NAFS": Tem diversos aspectos. Um deles, as foras que movem o homem atravs dos seus centros. Outro, a parte negativa.
BOLO: Moedazinha usada antigamente no Oriente Prximo e na Europa. Vale cerca de trs pence.
PSSARO DA ALMA: Juntou a alma ao corpo, o corpo ao esprito.
PSSAROS: Acreditam os muulmanos que todas as espcies de pssaros (e muitos animais) possuem uma lngua com auxlio da qual falam uns com os outros. O rei Salomo 
teria aprendido a lngua dos pssaros.
"PIR": Um ancio. Chefe religioso. Velho.
PONTE: "Sobre a gua"; para os israelitas, sobre o mar Vermelho.
POUPA: Hudhud, segundo o seu pio. Quando Salomo acabou de construir o templo, dirigiu-se em peregrinao a Meca e, de l,  Arbia Felix. Como precisasse de gua, 
chamou a poupa, que era capaz de descobri-la debaixo da terra; mas, quando ela marcou o lugar com o bico, os demnios tiraram a gua. Foi a poupa quem levou a carta 
de Salomo a Belquis, rainha de Sab. Passando revista aos pssaros, disse Salomo: "No vejo a poupa. Estar entre os ausentes?" Uma marca em seu bico parece-se 
com a letra persa "bismillah". Sua "coroa de glria"  a sua crista. Quando o companheiro morre, ela no procura outro; alm disso, trata dos pais. Maom proibiu 
o povo de mat-la.
"QALANDARS": Ordem de dervixes na Prsia e na Arbia cujo objetivo  o perptuo vaguear. Fundada por Qalandar Yusuf ai Andalusi, da Espanha.
QUATRO PAREDES DE OURO: Pontos da bssola.
RUNAS: OS muulmanos se escondiam frequentemente nelas para beber o vinho proibido.
SALOMO: H uma lenda segundo a qual um djim roubou o selo de Salomo e, dessa maneira, o privou do seu poder por quarenta dias. O anel foi encontrado num peixe 
e restitudo a Salomo juntamente com o poder. Diz-se tambm que, algum tempo depois, Salomo jogou o anel no mar para que ningum ficasse sabendo qual era o segredo 
do seu poder. Attar o menciona como "um mineral na terra".
SIMURGH: Sen-murgh, o Grande Pssaro. No Mahabarata, Garuda. H dois Simurghs. Um deles vive no monte Elbruz, no Cucaso, longe do homem. Seu ninho  feito de colares 
de madeira de bano, sndalo e alos. Tem o dom da fala, e suas penas possuem propriedades mgicas.  um guardio de heris, um smbolo de Deus. O outro  um monstro 
horrvel, que tambm vive numa montanha e semelha uma nuvem negra.
"SIRAT": O Caminho Certo, o Caminho Verdadeiro. Uma ponte por cima do abismo infernal. Mais fina do que um fio de cabelo, mais afiada do que uma espada, est cheia 
de saras e espinhos. Os bons passaro por ela com segurana, mas os maus cairo nas profundezas.
VERDE: Para o persa, a cor do cu  verde.
XEQUE: Superior de uma ordem ou mosteiro de dervixes. Velho venervel. Cabea de uma famlia ou de uma tribo.
"ZIKR" ou "DHIKR": "Lembrando". Lembrando-se de Deus, lembrando-se de si mesmo. O nome de vrias cerimnias praticadas pelas diferentes ordens de dervixes, que consistem 
em oraes, danas, posturas, etc, que eram (e ainda o so em alguns lugares) exerccios para o desenvolvimento interior e para o aumento da conscincia. Algumas 
danas eram textos destinados  transmisso de conhecimentos. "Ho Yah", "Hoo Yah", "O Heh" - " Deus",  uma exclamao de dervixes em alguns exerccios religiosos. 
Como tambm "Ya Hai", " tu que vives".
"ZUNNAR": Um cinto. O cinto usado por cristos e judeus. Termo empregado pelos sufis para indicar sinceridade no caminho da religio. E empregado tambm para denotar 
prticas exteriores de religio.
       
      

    O AUTOR E SUA OBRA
      
      O poeta persa Varia ud-Din Attar, com uma obra lida e admirada em todo o mundo rabe, contribuiu para dar uma nova fisionomia religiosa  literatura oriental. 
Em seu livro mais conhecido, "Mantiq-ut-tair" ("A conferncia dos pssaros"), desenvolveu uma das mais lcidas exposies do sufismo. Nele, em versos de profunda 
especulao filosfica e de cunho pantesta, Attar assume uma atitude de quase divindade em relao ao quarto califa Ali, governante particularmente adorado pelos 
muulmanos xiitas.
      Autor prolfero, Attar deixou numerosos poemas e pequenas peas lricas, nas quais testemunha sua profunda devoo  experincia mstica. Em prosa, sua obra 
mais destacada  o "Tazkarat ul-aulya" ("O memorial dos santos"), na qual descreve uma srie de esboos biogrficos sobre alguns ascetas. De sua expressiva obra 
ainda fazem parte o "Pand-nme" ("Livro dos conselhos") e o "Bulbul-nme" ("Livro dos rouxinis").
      Pouco se conhece sobre a vida de Farid ud-Din Attar. Parece provvel que tenha nascido em Nishapur no comeo do sculo XII, em 1119, e tenha morrido na mesma 
cidade em 1229, com mais de cem anos de idade (o que  comum nessa regio). Como o seu prprio nome indica, Attar teria sido um botnico, ou mesmo um mdico. Sabe-se 
que, embora nunca tivesse participado de nenhuma organizao sufista, era ardoroso leitor de literatura religiosa. Em sua biblioteca foram encontrados mais de mil 
livros referentes aos profetas e santos; passou mais de quarenta anos de sua vida recolhendo versos e ensinamentos sufistas, mais tarde aproveitado sem alguns trabalhos 
biogrficos e de divulgao.
      Viajou pelo Egito, ndia e Turquesto, procurando alargar ainda mais seus conhecimentos religiosos. A simpatia que manifestou pela causa xiita nos ltimos 
anos de vida foi mais uma reao contra os turcos sunitas do que uma manifestao de cisma religioso. Essa atitude, na verdade, trouxe-lhe srios problemas. Um lder 
religioso de Samarcanda considerou herticos os seus livros, ordenando que fossem queimados; sua casa foi invadida e saqueada, e Farid teve que se refugiar em Meca 
para no ser morto.
      
FIM DO LIVRO
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